O Brasil de Lula sob o céu de fogo latino-americano

por Sulamita Esteliam

Reservei o feriado da República mal-sinada do Brasil para escrever sobre Lula Livre e o Festival que o recebe neste domingo em Recife, na Praça do Carmo. Vai ser para arrombar.

Atrações para todos os gostos e idades, a partir do meio dia, com o melhor da cena (eita palavrinha besta!) musical da terra – clique para ver a programação completa.

Mas o melhor está reservado para o encerramento, o encontro dos conterrâneos com o homenageado Luiz Inácio Lula da Silva. A organização é do Comitê Nacional Lula Livre, que está com uma campanha de financiamento coletivo para bancar as despesas.

Livre já há nove dias, depois de 580 dias de encarceramento numa sala da Polícia Federal em Curitiba, Lula comparece pela primeira vez num evento da série em sua homenagem. Tinha que ser em Pernambuco.

A expectativa é de um discurso forte, na linha de suas falas desde que deixou a prisão. Lula não apenas está livre, como está leve, solto e ainda mais provocativo. Embora fale de amor e de dedicação ao povo brasileiro, todo o tempo.

Mas o que fica é o ar desafiador, atrevido, o Lula em seu melhor senso de pertencimento.

“Ninguém pode me devolver os 580 dias que passei preso. E para um velho de 74 anos, 580 dias equivalem a anos de um jovem. Mas eu não quero me apegar ao ódio. O povo deste país está sendo mais prejudicado do que eu, está perdendo direitos, perdendo emprego, perdendo salário, perdendo dignidade.”

E seus antagonistas, à direita e á esquerda – sim, eles estão por aí, curtindo dor de cotovelo… – piram o cabeção, como diria um cunhado que detesta política.

A conversa com a militância em profusão na Vigília Lula Livre, no fim da tarde do 8 de novembro, dia da libertação, foi apenas o aperitivo. Com direito a beijo na boca da namorada Janja (de Rosângela).

O pronunciamento de impacto foi no sábado, 9 diante da multidão em êxtase na frente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.

E teve a gravação do vídeo, no carro, a caminho do pouso na própria Curitiba que lhe serviu de cárcere, ao lado de Janja, a namorada duas décadas mais nova, para dizer aos jovens que está “com energia de 30 e tesão de 20 anos”.

Aos 74 anos, não é brinquedo não…!

E a foto do amoroso encontro com Comitê Nacional Lula Livre e o acervo de milhões de cartas dirigidas a ele no ano e meio de prisão, cuidadosamente preservas no Instituto Lula Livre.

Perguntei no Instagram, mas não me responderam: será que Lula recebeu meu livro Em Nome da Filha, que enviei para ele em abril, via Instituto Lula?

Lula já está no Nordeste, desde quarta-feira. Em Salvador, na abertura da Executiva Nacional do PT, não deixou por menos. Inverteu o sinal da recomendação de uns e outros para baixar a bola do hegemonismo petista em prol de uma visagem de “união”.

Comunismo, de projeto comum, que pressupõe, no entender de tais arautos, “uma necessária autocrítica” do maior partido da esquerda latino-americana. Queiram ou não queiram os críticos de todos os quadrantes.

“O PT não precisa fazer autocrítica e não nasceu para ser coadjuvante. Vocês já viram alguém pedir para FHC (Fernando Henrique Cardoso, tucano ex-presidente que iniciou o leilão do Brasil a preços de banana) fazer autocrítica?”

A liberdade de Lula e suas diatribes políticas sobre o desgoverno abissal, naturalmente, têm recebido alta repercussão internacional.

Tudo soa a provocação.

A ponto de o capiroto ameaçá-lo com a Lei de Segurança Nacional.

Factoides e inveja braba ninguém tem na conta certa. Só mesmo com camisa de força para conter tamanho despeito.

Na segundona conto como foi a festa.

Alegria para uns, tristeza e revolta para outros. A vida é assim, pura distopia.

Enquanto gozamos a expectativa da presença energizante de Lula, mas anda sem saber para onde vamos, e como, nossos hermanos bolivianos e chilenos seguem sob forte repressão nas ruas de suas capitais.

Já são seis mortos e dezenas de feridos pela forças golpistas em Cochabamba, só nesta noite de sexta-feira.

Indígenas e camponeses baixaram a La Paz em protesto milhares contra o golpe que obrigou a renúncia de Evo Morales e segue avançando sobre os direitos do povo boliviano.

Em Cochabamba, obreiros foram barrados a tiros de fuzil pelo Exército viabilizador do golpe. Isto apesar do acordo para tirar do vácuo a institucionalidade e viabilizar novas eleições presidenciais.

Do México, aonde foi recebido em exílio, Evo Morales se compromete a não participar do novo pleito, em nome da paz para seu povo.

Mas a direita boliviana, assim como a chilena e que tais, é carniceira. Quer sangue, e providencia que ele corra para deixar claro quem manda. Massacre com a bíblia na mão.

Barbariza também no Chile, onde depois de 28 dias consecutivos de manifestações, logrou-se um acordo pela convocação de Assembleia Constituinte para refazer as leis do período de terror de Augusto Pinochet.

Enquanto no palácio presidencial governo e oposição oficializam os termos do acordo, a polícia reprime furiosamente os manifestantes que se mantêm nas ruas contra o projeto neoliberal e pela renúncia de Sebastián Piñera.

Na Bolívia como no Chile reina a barbárie.

Na Colômbia, os trabalhadores e os movimentos sociais esquentam os tambores contra o regime neoliberal de Ivan Duque.

Enquanto isso, no Brasil… seguimos vendo a banda passar ou exercitando a profissão esperança, já que desespero não dá camisa ninguém. Nem pasmaceira.

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  • Com informações de: Revista Fórum, Ópera Mundi, Vi o Mundo, Instituto Lula e Agência PT

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