A ‘roda muda’ na TV, segundo Eustáquio Trindade, ou jornalismo morto-vivo

por Sulamita Esteliam

Meu amigo Eustáquio Trindade Netto é jornalista, professor e desenhista dos bons. É a pessoa mais culta com quem já convivi toda a minha, já longa, embora não o suficiente, vida. Faz tudo com talento, competência, ética e, sobretudo, paixão.

É o que falta nas gerações mais recentes do jornalismo tupiniquim, cada vez mais chinfrim. As exceções só confirmam a regra. Ninguém mais briga pelo que faz, ou será que se imagina que no nosso tempo o patrão era a favor da verdade sobre todas as coisas e interesses?

Quem escolhe ser jornalista tem que honrar os fatos e a responsabilidade de lidar com um bem precioso, de primeira necessidade: a informação. Apesar ou mesmo à revelia de quem paga seu salário.

Na dúvida, pegue o boné e use a serventia da casa. Há sempre o que fazer na concorrência. Se não der, sempre se pode aprender a cozinhar, que agora, além de tudo, é moda ser “chef”, assim como o é ser “empreendedor”. 

Topei com a postagem abaixo no Facebook, da lavra do Eustáquio, e só depois de receber a autorização para replicar aqui no A Tal Mineira vi que ele havia me marcado, dentre outras dezenas de amigxs. Faz disso um hábito, pois é também generoso.

No mote da morta-viva Roda da TV Cultura, que na próxima segunda levanta bola para o ex-juiz inquisidor de província, hoje ministro do governo que ajudou a eleger em troca do cargo, Sérgio Moro.

Na bancada, ninguém que nem de longe possa incomodá-lo com perguntas pertinentes e indispensáveis, muito menos um colega do The Intercept Brasil, que escancarou os podres fazeres da Força Tarefa de Curitiba, chefiada por Moro-inquisidor, na #VazaJato.

Faz clara distinção entre Jornalismo e Comunicação. Há um mar de diferença entre ser repórter, entrevistador e ser ventríloco do interesse patronal e do entrevistado. Choveu comentários bem curiosos.

Eustáquio Trindade é de uma geração profissional imediatamente anterior à minha. Trabalhamos juntos no antigo Jornal de Casa, ele já editor, Euzinha começando nas lides, sob a chefia de reportagem de outra amiga comum, Elma Almeida. E todos nós sob a batuta do temível, mas ímpar, Guy de Almeida.

Fizemos boa parceria também nas noitadas, especialmente na lendária Santa Tereza, mesmo depois que migrei para o Diário do Comércio, filho da mesma casa. E nas festas que Euzinha costumava organizar em casa, ele garantia, sempre, a melhor trilha sonora, gravada em fitas cassetes.

Bons e saudosos tempos.

Ontem, 15 de janeiro, inaugurou idade nova, capricorniano de boa cepa. Vida longa e feliz, apesar de…

Como se vê, não somos vacas, mas também jogamos nossos cornos para fora e acima da manada. Profanamente, como convém a caprinos.

Ao texto. O desenho também é by Eustáquio Trindade: Pedagogas da facção ‘Brigadas Vermelhas’ Posto em homenagem ao autor.

Que a Roda é muda, em volta lá da televisão

por Eustáquio Trindade Netto, jornalista – no Facebook

Nos últimos anos em que trabalhei como professor do curso de jornalismo na Newton Paiva, assisti, junto com a derrocada do curso, o prenúncio de que algo de muito grave abalaria a profissão nos anos seguintes. Em vez das matérias afeitas ao jornalismo — e não à comunicação, como afirmavam alguns idiotas — havia, por exemplo, várias de empreendedorismo. Não de empreendedorismo relacionado a projetos sociais, mas pra ensinar a montar empresinha mesmo. E ensinar a fazer entrevista? Havia uma disciplina, no terceiro período. Uma só. E mais nada. E tome de empreendedorismo. Vi, várias vezes, alunos reclamando: “de jornalismo, a gente num tá aprendendo nada”. Por isso sempre fui a favor de uma não muito recente orientação do Ministério da Educação, ainda no governo Dilma, de separar os cursos de jornalismo dos demais cursos de comunicação. Ninguém se forma em comunicação. Forma-se em jornalismo. Ou em publicidade ou em relações públicas, que nada têm a ver com jornalismo, ainda que, em alguns momentos, possa haver alguma afinidade. Por que esse papo agora?

Sérgio Moro, o lamentável juiz, no não menos lamentável programa de entrevistas Roda Vida, na igualmente impensável TV Cultura de hoje. Em que programa de TV do mundo o entrevistado escolhe seus entrevistadores ou pauta os assuntos da entrevista, vetando os mais polêmicos ou mais provocativos? Só no Roda Viva, onde se concentra a maior fileira de puxa sacos da TV brasileira. Repórteres contratados de de grandes empresas da mídia tradicional, que se submetem aos ditames de uma direção totalmente domada pela extrema direita, covarde e sem nenhuma capacidade de reação. Escândalo Banestado? Nem pensar? Vaza Jato? Nem… Ligação da familícia Bozonaro com o caso Marielle? Mesma coisa. Queiroz? Pior ainda. Falcatruas do cupincha Dallagnoll? Menos ainda. Então, pergunto, pra quê que precisa de entrevistador nesse programa, se a pauta já foi definida? Estou curioso também pra saber quem é que vai ter coragem de passar por esse vexame. Claro, sei que o que não vai faltar lá é pau mandado, neguinho obrigado pelos patrões a participar dessa farsa ridícula e, mesmo assim, se achando o rei da cocada preta.

Vi, por acaso, semana passada, duas entrevistas aqui perto, sobre o eterno problema de árvores que caem em temporada chuvosa e aquele blá-blá-blá de sempre. Vi que o esperto dono de uma farmácia conduziu a entrevista do jeito que quis, porque o rapaz sequer sabia como fazer as perguntas. Conversei com o cinegrafista que trabalhava com ele, meu velho amigo, que mal escondia o constrangimento. “Agora é tudo assim”, disse ele. Na outra entrevista, um rapaz formado pela UFMG fez exatamente o contrário. Questionou, aprofundou, deu sentido ao tema. Vamos ver o que vão fazer diante dos grasnar estridente do marreco de Maringá, Tô doido pra ver. Pagando pra ver quem vai pagar esse mico.

#Jornalismo é coisa séria.
#Eu acredito no jornalismo

Parte dessa culpa cabe também aos cursos de jornalismo, atrelados a um currículo em que a participação dos jornalistas é sempre posta em segundo plano. Vi isso em todas as escolas onde trabalhei como professor — UFMG, UNI-BH e Newton Paiva. A última, principalmente nos últimos anos, em que os debates sobre a ética profissional do jornalista sempre eram preteridos em função de temas ligados à onipresente ideia de empreendedorismo e outras trivialidades. Eu mesmo fui ‘orientado’ a sugerir aos alunos que evitassem temas polêmicos nos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) em função de assuntos amenos. Como histórias em quadrinhos, por exemplo. Bom, todo esse papo aí foi apenas um aperitivo para o vexame que entrará no ar semana que vem.
Se é possível pensar em algum consolo, lembro apenas que, se de um lado, há tempos não se forma bons jornalistas, por outro, parece que há empreendedores por todo lado. Tem um que, por incapacidade mental, empreendeu comprando uma moto para entregar os produtos da Natura vendidos pela mãe. Vai longe.

 

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