O mínimo em questão na tal da sobrevivência

Charge publicada originalmente na página do Sindicato dos Marceneiros SP
por Sulamita Esteliam

Inevitável falar sobre o reajuste, não aumento, do salário mínimo, que teve a inflação do ano reposta, após idas e vindas do desgoverno do capiroto. 

As manchetes a respeito na mídia venal são de fazer corar de vergonha. Como se fora estupendo o mínimo chegar a “R$1.045”! Mantida a política de valorização do salário mínimo, fixada em lei em 2007, o incremento teria que ser de R$ 17, elevando-se o piso para R$ 1.062, aponta o Dieese.

Já experimentou abastecer a despensa, pagar o aluguel, água, luz, botar crédito no celular, garantir o transporte para o trabalho, para a escola, para o médico, com essa fortuna? Nem falo em lazer, que está entre as garantias constitucionais que deveriam incorporar o piso nacional.

Não me esqueço quando meu primogênito, adolescendo, me pediu um mochila de marca, que custava exatamente o equivalente ao piso nacional da época. Argumentei sobre a razoabilidade de se pagar numa bolsa o que a maioria de mães e pais de família tinham para alimentar, vestir e abrigar sua família durante o mês inteiro.

E ele me disse que não havia pensado nisso. Ofereci uma alternativa, também em moda, que custava, digamos, um terço ou quarto do valor, sem perda da qualidade e da estética. Concordou e me agradeceu pela oportunidade de refletir para além do umbigo.

Ninguém da vetusta imprensa comercial, sequer, se dá ao trabalho de fazer as contas pra contrapor a versão oficial, da boca do capiroto que desgoverna o país, sobre o mínimo ser “pouco para quem recebe e muito para quem paga”.

Como se o empresário não jogasse nos custos da produção, e portanto nos preços, o que gasta com salários e benefícios de seus empregados, além do seu lucro, que sempre vale mais que a mão de obra. Quem paga é o consumidor.

E a valorização do salário mínimo fortalece o mercado interno, porque reverte em consumo o que se recebe. A economia gira, fortalece o comércio, que compra mais da indústria, que pode investir e produzir mais, gerar mais emprego, pagar mais salários e assim por diante.

Forma-se o que poderia ser um círculo virtuoso, que não é perfeito porque o mínimo é o mínimo. Nos cálculos do Dieese o valor do piso salarial teria que ser R$ 4.400 para suprir as necessidades básicas de uma família de até quatro pessoas.

Seria pedir demais que a mesma imprensa, que apostou no golpe permanente e segue aplaudindo a demência ampla, geral e irrestrita que habita o Planalto e a Esplanada dos Ministérios, que ao menos honrasse a verdade factual. Que dirá que puxasse pela memória histórica.

E o que ela conta é que este desgoverno abandonou a política de valorização do piso nacional, desenvolvida a partir de 2004 pelos governos do PT, mantida até pelo mordomo usurpador, e que havia sido suprimida ao longo de décadas, desde Getúlio Vargas que o criou. 

Tal política, sim, assegurou ganho real de R$ 425 no período, até ano passado. O reajuste era baseado na soma da inflação do ano anterior com a média do crescimento do PIB dos dois anos anteriores. Claro que, se cai o PIB, como ocorreu em 2015 e 2016, lá se vai o aumento, fica-se apenas com a correção da inflação. 

É o que o desgoverno do capiroto oferece, tão somente a reposição da inflação, fogueteada pela mídia. O que se fez, foi deixar de surrupiar parte da inflação que superou as metas, sobretudo pela alta nos preços da carne e do feijão.

Em entrevista à Rede Brasil Atual, Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese, é didático ao sugerir que o capiroto em chefe trate de desenvolver políticas que estimulem a produtividade, sobretudo das micro e pequenas empresas, ao invés de se queixar do impacto do salário mínimo. Lembra que a valorização do mínimo também estimula a produtividade:

“Os salários crescem, se a produtividade também crescer. É assim que as empresas fazem. Incrementar o salário mínimo, fazendo-o crescer, é uma forma de animar a economia. Com melhores salários, há mais consumo, mais produção. As empresas crescem, contratam mais trabalhadores, pagam melhores salários. Assim a economia tem uma dinâmica virtuosa.”

Questão de sobrevivência.

 

 

 

 


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