No meio do caminho, tinha um viaduto…

Wanderlei recebe o carinho de mulher e filha, em seu aniversário, em 2008 – Fotos: álbum de família
por Sulamita Esteliam

Na terça-feira, véspera de São João, acordei com meu primo-irmão Wanderlei na cabeça. Lembranças de passado remoto, quando éramos criança, em Caetanópolis, no grande tabuleiro roseano das Gerais, e frequentávamos a mesma escola e a mesma sala de aula, no primeiro e segundo anos do então primário, no Grupo Escolar Cel Caetano Mascarenhas.

Vi, nitidamente, o menino de calças curtas azul marinho, e camisa de botão branca, com a toalha azul turquesa pendurada no pescoço. Representava Marcelino Pão e Vinho, na cena alusiva ao filme, em que o menino lava as mãos para se alimentar. Um coral de meninas e meninos, Euzinha no meio, cantava uma estrofe da canção-título.

“Marcelino pega a toalha, 
 o sabão-e vai se lavar…
 come, come, come muito,
 como frei Donato,
 limpa todo prato,
 come muito pão”

(…)

A música é parte da trilha sonora do filme espanhol, sucesso popular mundial, Brasil incluído, durante anos após o lançamento em 1955.  Dirigido por Ladislao Vajda, em roteiro baseado no livro do mesmo nome, escrito por José María Sánchez Silva.

Um meninozinho órfão, deixado no convento, recusado em ene tentativas de adoção, e finalmente criado pelos frades. Peralta, sem conviver com crianças, inventava brincadeiras de toda sorte, tinha um amigo imaginário de nome Manuel, e penalizava-se com o “moço bonito pendurado na cruz”.  Resolve alimentá-lo com pão e vinho. E o braço direito do Cristo se desprega da cruz para receber o alimento.

A criança conversa com o crucificado, até que um dia uma voz pergunta o que ele mais gostaria que lhe acontecesse, e o menino diz que queria “ver a minha mãe, e depois a sua mãe…” – dele, da voz que ele imagina ser da imagem…

Então, a voz lhe diz que ele precisa dormir para ver a mãe. No dia seguinte um frade encontra o menino morto na cadeira ao lado do crucifixo. E na mão direita da imagem do senhor crucificado, um naco de pão.

Claro que a história se espalha e, na data, o local passa a ser alvo de romarias de toda a gente do povoado pelo milagre do menino Marcelino.

Esses detalhes busquei no pai internético, pois não me lembrava mais do filme, que assisti no antigo cine daquele lugarejo do interior onde vivi três anos da minha infância. Para quem quiser conhecer, tem algumas cenas disponíveis no Youtube. Há uma versão em desenho animado, adaptação em 26 episódios, exibidos no Brasil pelo SBT no programa Bom Dia & Companhia, conta o Wikipédia.

Nosso tempo era, talvez, 1960/61. Não me lembro mais se cursávamos o primeiro ou o segundo ano primário quando da apresentação teatral.

Meu pai havia morrido de maneira trágica, em novembro de 1958, e a família rebocara mamãe e as crias para a casa materno-paterna no interior mineiro.

Tia Ercília
Wanderlei jovem

Minha tia Ercília, mãe do Wanderlei, morava com sua numerosa prole – 10, então, alternando meninas e meninos – numa casa imensa na esquina entre a rua onde residiam meus avós e outra que ia em direção à praça da Matriz, a principal da cidadezinha. Praticamente uma de frente para a outra, na diagonal.

E transitávamos para lá e para cá, em tertúlias infantis permanentes, traquinagens e brincadeiras infindas. Formávamos um bando de oito a dez meninas e meninos de 6 a 12, talvez 14 anos, que driblávamos o rigor dos Gonçalves Coelho para aprontar poucas e boas.

O núcleo familiar do Wanderlei ainda sofria o luto da morte do meu tio Silvino, que partira aos 43 anos, de infarto, no início do mesmo ano em que meu pai foi assassinado, aos 28 anos, em Belo Horizonte; e alguns meses antes em que se encantou, também, o bebê recém-nascido da casa, Márcia.

Neste tempo do agora, a lembrança daqueles tempos aqueceu meu coração. Fui para a cozinha preparar o café, e ri ao recordar de outra representação, na mesma época, em que formamos dupla em cena: ele, o cravo, eu a rosa.

Premonitório.

Nos amamos como dois irmãos, e brigamos a vida inteira. Na infância, por picuinhas. Na adolescência, por ciúmes. Mas, sobretudo, na idade adulta – nunca por futebol, pois somos amantes do Galo -, mas por razões estritamente político-ideológicas.

Somos dois frutos do dia 28; ele de junho, Euzinha de dezembro do mesmo ano de 1953. Duas carnes de pescoço.

Meu primo se fez por esforço próprio, trocou o curso de matemática na UFMG por representação comercial, ainda nos anos 70. Com isso cresceu e tornou-se empresário de sucesso, adquiriu patrimônio e engajou metade das quatro crias, que gerou com a prima-irmã Lourdes, nossa Lurdeca, com quem se casou ainda jovem, nesse projeto de vida.

Ganhou respeitabilidade familiar e no mercado, exemplo para muita gente no trabalho e na família. Os empregados o têm “como um pai”. Soa estranho, mas garantem que sim.

A tal da meritocracia sempre calou fundo nele, como de resto em boa parte da rede familiar, de origem rural e proletária. Do tipo que zomba da ideologia, como se a centro-direita que escolheu militar, direito seu, não fosse ideológico.

Continuamos a nos frequentar, mesmo depois que deixei Minas. Ele e a família nos visitaram em Brasília e em Fortaleza. Um dos filhos ficou em nossa casa, já no Recife, em um dos carnavais em que minha filha Carol trouxe a galera amiga para desfrutar da melhor folia do mundo.

Todos nós gostamos de festa, de cantar, dançar, reunir nossa gente e comer, e beber, horas a fio. Nem precisamos de data para nos juntar e celebrar a vida com alegria. Wanderlei e Lurdeca sempre receberam muito bem, e sempre estiveram presentes nos eventos familiares, de riso e de choro.

A generosidade, o acolhimento, a solidariedade é um traço que confirma a natureza familiar.

Convescotes independem das diferenças de pensamento, escolhas e trilha sócio-política divergentes explicita e, quase sempre, civilizadamente.

No nosso caso, vêm desde o início da redemocratização, quando, definitivamente, me alinhei à esquerda. Por razões óbvias, só fizeram se aprofundar nos caminhos tortuosos da história recente do país.

Afastei-me, sem alarde.

Só não deixei de rebater eventuais provocações em redes sociais. No mais, o que tenho a dizer, digo no blogue, para a geral, arquibancada e cadeiras. Aqui é o meu território.

Foto: Carlos Alvarenga

A última vez que nos vimos foi em abril do ano passado, em Belo Horizonte. Wanderlei e Lurdeca foram ao lançamento do meu último livro, Em Nome da Filha, na Casa do Jornalista, o que me deixou muito contente.

Em maio, ele me ligou entusiasmado com a matéria de página inteira no caderno Pensar, do jornal Estado de Minas, sobre o livro. E sugeriu que eu fizesse contato com Túlio Gadelha, do PDT, deputado federal por Pernambuco, para conseguir uma deixa no programa da Fátima Bernardes, sua namorada.

Ri muito, e agradeci a intenção.

Na manhã da terça-feira, véspera de São João e do aniversário do maridão, Júlio, acabara de servir o desjejum quando soou o celular. Vi que era minha irmã Lili, e meu coração congelou.

Pensei, lá vem a notícia ruim que Euzinha esperava desde a noite da quinta-feira da semana anterior. Sofri dor dilacerante na parte lateral do pescoço, que não poderia resultar do torcicolo que há anos não me acometia. Entre lágrimas e gemidos, comentei com Júlio, que me socorria com massagem de unguento e anti-inflamatório: vem merda por aí… só pode ser!

Veio à memória, como relâmpagos, os sonhos ruins que tivera nas derradeiras noites mal-dormidas. Em segundos, entendi a razão de acordar com Wanderlei na mente. Só achei que fosse algo com a prima, que desde há muito não tem boa saúde.

Estava enganada.

Wanderlei saiu de casa pela manhã, após o café. Avisou à Lurdeca que ia usar o carro dela para ir à Casa Branca, um condomínio em Brumadinho, região de cachoeiras, antes de ir para a empresa. Ele tem um lote ali, há décadas. Resolvera que ia construir uns equipamentos de lazer para o casal de netos desfrutar, já que as crianças adoram o lugar. Queria preparar uma surpresa.

Por volta das 9 horas, o filho Bruno, preocupado com a demora do pai em chegar ao trabalho, ligou para a mãe, que lhe contou o motivo do atraso. Bruno então ligou para o celular do pai, várias vezes. Até que alguém atendeu e se identificou como policial rodoviário. Tinha havido um acidente, e eles estavam no socorro, aguardando o Corpo de Bombeiros para o resgate.

O filho, que também é graduado em Jornalismo, além de administrador, ligou o rádio, e ouviu a notícia do desastre, e da morte do pai.

Nunca se saberá o que de fato aconteceu. O tempo entre a saída de casa e a hora do acidente indicam que Wanderlei não chegou ao destino. Imagina-se que ele sentiu-se mal no percurso da ida, e pegou o primeiro retorno para Belo Horizonte.

No meio do caminho tem um viaduto, o traiçoeiro Mutuca, em Nova Lima, 470 metros de extensão por 115 metros de altura, cenário de acidentes incontáveis. O carro bateu na mureta, numa reta, violentamente. Wanderlei ficou preso nas ferragens, e não resistiu.

Onde estiver, se já acordou para sua nova condição, meu primo-irmão deve ter amado as manchetes do noticiário sobre sua morte: “Homem de 50 anos bate na mureta do viaduto Mutuca e…”

Com o primo Paulinho, que aniversaria dia 29, celebrando juntos em 2008

***

Além da família, do trabalho e de futebol, Wanderlei gostava da vida, de cultura, de música, de livros. Era vaidoso, cuidava da saúde do corpo e da mente.

A dona morte escolhe a hora sem combinação prévia.

O dia era 23 de junho de 2020, data do aniversário da tia Ercília, mãe do Wanderlei, que já é estrela há décadas, e a cinco dias do seu aniversário de 67 anos.

Ele foi sepultado no Bosque da Esperança, em Santa Luzia, na tarde da quinta, 25, dia em que meu pai faria 90 anos, se vivo fosse.

Soube que choveu flores no velório, curto e sob todos os protocolos, dentro do possível, desses tempos de pandemia.

Descanse em paz, querido! Muita luz para você.

Até um dia, até talvez, até quem sabe…! (Até quem Sabe: João Donato e Lysias Enio/1973)

*******

Postagem revista e atualizada para pequenos ajustes no texto.


6 comentários sobre “No meio do caminho, tinha um viaduto…

  1. Meus sentimentos a prima Lourdes e seus demais parentes e amigos.
    A dor da perda demora mas passa o que jamais passa é a saudades, pois é o fruto de uma convivência de muitos anos de alegria e paz.
    Descanse em paz Wanderlei…

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