Artigo traduz o tal do comunismo: ‘Utopia e modos de produção’

por Sulamita Esteliam

O Universo é bom cúmplice quando você faz a coisa certa. Ainda na semana passada, recebi o artigo que transcrevo abaixo, da lavra de um antigo vizinho, que se tornou amigo.  Achei muito interessante, porque troca em miúdos, em linguagem simples, o tal do famigerado comunismo.

Detalhe curioso é que o autor é geólogo, já aposentado, e consegue uma proeza com a tradução da essência do pensamento marxista. Enviou-me pelo zap-zap e pedi para publicar.

A tal da cumplicidade universal se corporifica na charge do querido Aroeira – não me canso de agradecer – a propósito do #BrequeDosAPPs, marcada para esta quarta-feira. Em todo o país, os entregadores em domicílio vão parar por melhores condições de trabalho e remuneração.

Nada mais justo. A atividade é a moderna, digamos assim, tradução do que significa trabalho precarizado – essencial, mas sem direitos, mal remunerado e arriscado, sobretudo em tempos de pandemia.

Jogo de sorte, esforço hercúleo, risco e azar de estar num país onde as oportunidades se perdem no desgoverno. A meritocracia, tão cara aos empreendedores, sobretudo nas classes médias, não resiste ao desmantelo.

Aí um dia, a pessoa percebe que é explorado, e se junta para tentar mudar o rumo das coisas.

Utopia e modos de produção

por Nilton Queiroz*

Segundo o Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 3.0, utopia é qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade. Um outro conceito, também contido no dicionário citado, define utopia como um projeto de natureza irrealizável.

O conceito de utopia que esposo é o primeiro citado porque ele não descarta a possibilidade da concretização da utopia; seria, portanto, aquilo que alguns autores definem com ‘a utopia do possível’.  Melhor dizendo, hoje  é impossível realizarmos determinadas façanhas, mas amanhã, devido ao surgimento de novas condições, é possível realizá-las.

Por exemplo, Karl Marx subiu nos ombros da História, olhou para o passado e projetou o futuro. No passado ele viu uma sucessão de modos de produção: comunismo primitivo, escravidão, feudalismo e capitalismo. Ora, raciocinou ele, se todos os modos de produção ruíram e, dessa forma, cederam lugar a outro, por que então com o capitalismo não aconteceria o mesmo? Por que ele seria eterno? Ou seja, se essa tendência permanecesse, o capitalismo desapareceria.

Foi com base nesse pressuposto que  ele idealizou o comunismo, ou seja uma volta ao comunismo primitivo, porém em outro patamar; porque agora o homem evoluiu sua capacidade de produzir bens materiais, especialmente bens alimentícios e assim o fantasma da fome, que destruiu o comunismo primitivo, não voltaria.

O comunismo, segundo ele, seria um modo de produção em que a sociedade exigiria ‘de cada qual de acordo com a sua capacidade’ e daria ‘a cada qual de acordo com suas necessidades’.

Acontece que, se você fala a uma pessoa menos avisada – que convive com o mundo capitalista extremamente desumano, desigual, individualista, que exige das pessoas aquilo que elas não têm para dar e não dá a elas aquilo que elas precisam –  ela vai pensar que você está sonhando muito alto, e aí vem à sua mente a ideia da utopia, segundo a segunda definição, acima exposta.

Acontece que Marx  pensou uma saída para esse impasse, que ele denominou de socialismo. Ou seja, uma longa transição até ao comunismo. E, nessa transição, o lema seria ‘de cada qual de acordo com sua capacidade e a cada qual de acordo com sua produção’.

Ao fim e ao cabo dessa transição, as pessoas estariam livres do lixo cultural capitalista e prontas para adotar o comunismo. Seria possível despertar nelas  sentimentos amorosos e fraternos, de tal sorte que elas seriam capazes de fazer o seguinte raciocínio: fulano produz menos que eu porque a natureza dotou-lhe de menos energia, mas nem por isso ele deixa de merecer que suas necessidades sejam atendidas e, dessa forma, ele pode ganhar o que eu ganho ou até mais se suas necessidades forem maiores do que as minhas.

Assim sendo, os indivíduos não precisariam depender da sorte para serem felizes.

Porque hoje, na maior parte do mundo, inclusive no Brasil, se o indivíduo é um sortudo nasce no seio de uma família de classe média alta e vai ter um trampolim para a vida, representado por boa alimentação, moradia adequada, somente vai precisar trabalhar após concluir um curso universitário, dentre outras vantagens comparativas.

E, se é um azarado vai vir ao mundo negro, pobre, aleijado, gay, em uma favela violentíssima, filho de uma prostituta mal demandada e um  ajudante de traficante de drogas. Ainda na infância será obrigado a vender água mineral na rua para ajudar na sustentação da família, dentre outras coisas.

Destarte, percebe-se que as ideias de Marx , nessa questão central do comunismo, estão muito próximas do ‘amar o próximo como a ti mesmo’, professado pelo cristianismo.

Porém é inalcançável no modo de produção capitalista porque, este, ao cindir a sociedade em patrões e trabalhadores, cria a guerra de todos contra todos: patrões contra trabalhadores, trabalhadores em oposição direta a trabalhadores e patrões em combate a patrões.

* Nilton Queiroz é geólogo aposentado e membro do Comitê Lula Livre Justiça e Luta em Pernambuco

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E por falar em trabalho precarizado e greve dos entregadores, vale conferir matéria de fôlego sobre a árdua labuta cotidiana desses trabalhadores, que chegam a passar 12 horas por dia sobre duas rodas, para ganhar o pão diário. Reportagem de Lu Sodré para o Brasil de Fato.

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