Violência digital e garrote jurídico: o jornalismo independente sob ataque

por Sulamita Esteliam

Clara e inaceitável ameaça à liberdade de expressão e de imprensa o que acontece com a Repórter Brasil e com o colega Luís Nassif e seu GGN.

O site da organização está sob ataque cibernético que tentam tirá-lo do ar. E ameaças chantagistas para remoção de reportagens determinadas no período de 2003 a 2005.

Começou no dia 6 de janeiro, quando ficou sem acesso durante alguns horas, e novamente no dia 11. Não faltou tentativa de invasão à sede da organização, em São Paulo, e ameaças, via email anônimo, acenando com a continuidade dos “problemas técnicos”, caso a exigência não seja atendida.

Naturalmente que uma organização do naipe da Repórter Brasil não cogita de ceder a chantagem, criminosa sob todos os aspectos. Ao par das providências policiais e de segurança física e digital, segue cumprindo a missão a que se propõe, com ameaças com tudo.

Para quem não sabe, a Repórter Brasil reúne jornalistas, cientistas sociais e educadores desde 2001, completa portanto 20 anos. Nasceu e vive para combater o trabalho escravo, a agressão ao meio ambiente e promover a consciência sócio-política em torno dessas chagas que agridem a dignidade humana.

A foto que abre esta postagem, por exemplo, é sobre repercussão internacional de relatório-reportagem recente sobre monitoramento do trabalho escravo na agropecuária de pindorama: saiu no britânico The Gardian e nas agências estadunidenses Bloomberg e Reuters Foundation.

É referência mundial nessas questões cruciais. E sabe muito bem lidar com a truculência do assédio e tentativa de coerção à autocensura, de constrangimento ilegal.

Deixo os links para a denúncia e as repercussões ao pé da postagem.

A violência digital é uma das armas utilizadas nesses tempos de protagonismo da web. Este blogue, mesmo, tem sido alvo em diferentes ocasiões, sobretudo nos últimos dois anos – e nem de perto tem a importância do site da Repórter Brasil.

O garrote jurídico é outra arma, que redunda em bloqueio econômico e derrocada financeira. Particularmente nos veículos alternativos de maior porte.

É o que estão tentando fazer, há algum tempo, com o Luís Nassif, um patrimônio do jornalismo brasileiro, e seu Jornal GGN. Ambos estão sob pressão de bloqueios jurídicos de suas contas.

Não é só questão de sobrevivência individual, mas coletiva: sem dinheiro não se paga equipe nem fornecedores – no caso, renovação e manutenção de equipamentos, provedores e que tais.

Sorte é que ainda há gente e ações solidárias. Uma cadeia de apoios, não apenas de jornalistas, tem-se formado para denunciar a perseguição e buscar alternativas de sustentação enquanto se desenrola a batalha jurídica.

Nassif é patrimônio do jornalismo brasileiro e o portal informativo que ele dirige é fundamental na guerra da informação e de narrativas que enfrentamos.

Entretanto, promove-se também o necessário debate sobre os ataques à liberdade de expressão e do direito à informação no país.

Enquanto isso, há várias formas de contribuir. Uma delas é tornar-se membro da TV GGN, o canal do portal de notícias no Youtube. Lá tem uma lista das diferentes formas de apoio – linco mais abaixo.

Houve um tempo em que cabeças de jornalistas eram pedidas, e com frequência entregues na bandeja aos caçadores da liberdade de imprensa – desde que não fosse contra o anunciante.

Quem é jornalista e pratica o jornalismo por excelência, alimentado pela verdade dos fatos e o compromisso com a humanidade e com a coisa pública, sabe disso.

Houve um tempo em que o poder inquisidor mandava empastelar as rotativas, quando a presença do censor nas redações não era o suficiente para impedir a circulação da notícia.

Há algum tempo os mecanismos se sofisticaram, ainda que tenha se tornado moda esculhambar jornalistas, quando a maioria cumpre exatamente o que lhe pede o patrão, muitas vezes com requintes de vassalagem.

É um misto de truculência e covardia, que ataca a parte acessível e mais fraca. Até porque, sabe-se que, na hora agá, os donos da mídia servem de infantaria para garantir-lhes o naco que lhes cabe do poder.

De qualquer forma, em certos casos, o ofício de lambe-botas é muito bem remunerado, e a dignidade da profissão que se lasque!

As exceções confirmam a regra, e sobra para elas os estilhaços das balas perdidas no ventilador.

O mesmo se dá com quem, não raro aos trancos e barrancos, trata a informação com independência e viés crítico, sem desprezar os fatos.

Custa caro, muitas vezes a morte do veículo. Aconteceu com o Conversa Fiada, durante anos dirigido pela irreverência audaz, feroz e divertida do saudoso Paulo Henrique Amorim.

Processo atrás de processo, o garrote apertou de vez com a aposentadoria forçada de PHA da TV Record. Queira-se ou não a visibilidade bombeava combustível para a sustentação financeira do blogue.

O coração do velho repórter não aguentou o baque. Sem sua presença, a equipe do Conversa Afiada resistiu, bravamente, um ano.

Por aqui, a gente vai remando contra a maré. Às vezes forte, às vezes fragilmente, mas a gente vai levando, enquanto braços, cabeça e coração aguentarem.

Fontes citadas:

Repórter Brasil

Repórter Brasil é alvo de ataques exigindo que reportagens sejam apagadas

Relatório da Repórter Brasil sobre trabalho escravo na agropecuária tem repercussão internacional

Fenaj condena ataques cibernéticos e ameaças à Repórter Brasil

Jornal e TV GGN

Veja como apoiar a necessária resistência do Jornal e da TV GGN

Nota do Observatório da Democracia em solidariedade ao jornalista Luís Nassif

Congresso em Foco

Ataques virtuais a veículos e jornalistas aumentaram 140% em 2020

 

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