O chamado da ciência ao Brasil desconectado

por Sulamita Esteliam

Já temos a variante bem brasileira do Coronavírus, ene vezes mais agressiva, e que não tem preconceito de idade nem estado de saúde. Tem gente na faixa de 40 a 56 anos, clinicamente saudável, morrendo de Covid-19.

A chamada “variante Manaus” se espalhou pelo Brasil – e até já atravessou fronteiras. Boa parte do mundo fechou os aeroportos para vôos egressos de Pindorama. Por aqui, o que se vê é a total desconexão das autoridades centrais e da vida mesma cotidiana com a realidade pandêmica.

As autoridades científicas dignas do nome são unânimes em prever um março sombrio diante do avanço da peste e do colapso sanitário. Sem vacina em quantidade suficiente para imunização rápida de maior número de pessoas, com as UTIs transbordando na maioria dos estados, não há outra saída que não fechar tudo de novo.

Há quem tenha urticária à menção de retorno à quarentena total. Pois vai se coçar por muito tempo.

Por mais que o capiroto que ocupa a Presidência da República siga praticando a negação, e a chantagem para levar a diante seu projeto de genocídio. Pior, com o auxílio luxuoso de certa parte de médicos que se alinha com a carnificina. Criminosamente.

Não basta receitar tratamento precoce, comprovadamente ineficaz e danoso à saúde por seus efeitos colaterais. Inacreditável, mas agora os doutores se manifestam, até, contra, o distanciamento social, como fez em nota pública o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal esta semana.

Desde o fim do ano, cientistas do nível de um Miguel Nicolelis, e médicos Dráuzio Varella, têm se manifestado a respeito: a absoluta necessidade de manter não só as medidas de higiene, o distanciamento social, o uso de máscaras; ou mesmo o imperativo de fechar as atividades econômicas, que não as essenciais.

Nicolelis, que coordenou o Comitê de Combate ao Coronavírus no Nordeste defende o fechamento total por, no mínimo, 21 dias para brecar a nova onda, conter o avanço da pandemia. Em várias entrevistas na última semana, o cientista vem alertando para o colapso inevitável do sistema de saúde – público e privado.

A atividade econômica não pode estar acima da luta pela vida. Até porque, morto não trabalha nem consome, a não ser de dor e saudade a quem fica.

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Manifesto Abrasco-RJ – Foto: reprodução

 

Neste primeiro de março, o Conass – Conselho Nacional de Secretários de Saúde divulgou sua Carta à Nação Brasileira clamando por medidas rigorosas de restrição do convívio social em nível nacional. Antes, no sábado, a Sociedade Paulista de Infectologia também divulgou manifesto pelo chamado lockdow.

No sábado, a Abrasco – Associação Brasileira de Medicina Coletiva, sediada no Rio de Janeiro, também se manifestara a respeito. Pediu a criação de Comitê de Salvação Nacional, com representação dos três níveis de governo, mais o SUS e representantes da comunidade científica para tentar “superar a negligência e a desorganização imposta pelo governo federal no enfrentamento à pandemia”.

O A Tal Mineira publica a íntegra da Carta do Conass providências inadiáveis para conter a crise sanitária provocada pelo Covid-19, e deixa o link para os demais manifestos ao pé da postagem:

CARTA DOS SECRETÁRIOS ESTADUAIS DE SAÚDE À NAÇÃO BRASILEIRA

Publicado em |1 mar 2021

O Brasil vivencia, perplexo, o pior momento da crise sanitária provocada pela COVID-19. Os índices de novos casos da doença alcançam patamares muito elevados em todas as regiões, estados e municípios. Até o presente momento, mais de 254 mil vidas foram perdidas e o sofrimento e o medo afetam o conjunto da sociedade.

A ausência de uma condução nacional unificada e coerente dificultou a adoção e implementação de medidas qualificadas para reduzir as interações sociais que se intensificaram no período eleitoral, nos encontros e festividades de final de ano, do veraneio e do carnaval. O relaxamento das medidas de proteção e a circulação de novas cepas do vírus propiciaram o agravamento da crise sanitária e social, esta última intensificada pela suspensão do auxílio emergencial.

O recrudescimento da epidemia em diversos estados leva ao colapso de suas redes assistenciais públicas e privadas e ao risco iminente de se propagar a todas as regiões do Brasil. Infelizmente, a baixa cobertura vacinal e a lentidão na oferta de vacinas ainda não permitem que esse quadro possa ser revertido em curto prazo.

O atual cenário da crise sanitária vivida pelo país agrava o estado de emergência nacional e exige medidas adequadas para sua superação. Assim, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) manifesta-se pela adoção imediata de medidas para evitar o iminente colapso nacional das redes pública e privada de saúde, a saber:

a)Maior rigor nas medidas de restrição das atividades não essenciais, de acordo com a situação epidemiológica e capacidade de atendimento de cada região, avaliadas semanalmente a partir de critérios técnicos[1], incluindo a restrição em nível máximo nas regiões com ocupação de leitos acima de 85% e tendência de elevação no número de casos e óbitos. Para tanto, são necessárias:

    • A proibição de eventos presenciais como shows, congressos, atividades religiosas, esportivas e correlatas em todo território nacional;
    • A suspensão das atividades presenciais de todos os níveis da educação do país;
    • O toque de recolher nacional a partir das 20h até as 6h da manhã e durante os finais de semana;
    • O fechamento das praias e bares;
    • A adoção de trabalho remoto sempre que possível, tanto no setor público quanto no privado;
    • A instituição de barreiras sanitárias nacionais e internacionais, considerados o fechamento dos aeroportos e do transporte interestadual;
    • A adoção de medidas para redução da superlotação nos transportes coletivos urbanos;
    • A ampliação da testagem e acompanhamento dos testados, com isolamento dos casos suspeitos e monitoramento dos contatos;

b) O reconhecimento legal do estado de emergência sanitária e a viabilização de recursos extraordinários para o SUS, com aporte imediato aos Fundos Estaduais e Municipais de Saúde para garantir a adoção de todas as medidas assistenciais necessárias ao enfrentamento da crise;

c) A implementação imediata de um Plano Nacional de Comunicação, com o objetivo de reforçar a importância das medidas de prevenção e esclarecer a população;

d) A adequação legislativa das condições contratuais que permitam a compra de todas as vacinas eficazes e seguras disponíveis no mercado mundial;

e) A aprovação de um Plano Nacional de Recuperação Econômica, com retorno imediato do auxílio emergencial.

Entendemos que o conjunto de medidas propostas somente poderá ser executado pelos governadores e prefeitos se for estabelecido no Brasil um “Pacto Nacional pela Vida” que reúna todos os poderes, a sociedade civil, representantes da indústria e do comércio, das grandes instituições religiosas e acadêmicas do País, mediante explícita autorização e determinação legislativa do Congresso Nacional.

Carlos Lula
Presidente do Conass

[1] Sugere-se utilizar o “Instrumento para apoio à tomada de decisão na resposta à Pandemia da COVID-19 na esfera local” (https://www.conass.org.br/documento-auxilia-estados-e-municipios-na-definicao-de-acoes-de-resposta-a-covid-19/ ), publicado pelo Conass e Conasems.

Outros manifestos citados:

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