Um dia movido à energia agathiana; ou para me salvar da eloquência do silêncio…

por Sulamita Esteliam

A quarta-feira foi dia de faxina e de avó. Minha neta caçula desembarcou em nossa casa no início da tarde, de mochila e cuia. Anunciou que vinha para ficar um mês. O irmão mais novo a trouxe. A mãe estava no trabalho presencial.

“Na verdade”, sua expressão favorita depois de “sabia que eu te amo…?”, já havia me avisado, na noite anterior. Ao retornar ligação de vídeo da mãe, constatei que a pirralhinha é quem havia ligado.

Queria mostrar que estava arrumando a mala para vir dormir comigo, ela mesma. A mãe estava numa ligação profissional e não nos falamos.

– Posso dormir na sua casa, vovó? Mas vou ficar um mês.

Respondi que seria muito bem-vinda, se a mãe concordasse. E ela cumpriu o dito e o rito.

Agatha Luna tem 3 anos e 7 meses. É dona de energia propulsora, de uma vivacidade e esperteza impressionantes para sua tenra idade.  “Plugada no 220”, como diz a mãe.

Fala pelos cotovelos, tem sempre uma resposta na ponta da língua e exige atenção permanente, como toda criança que cresce em meio a adultos. Tem dois irmãos e 15 anos menos que o mais jovem.

Deveria estar na escolinha, onde poderia conviver com outras crianças, mas a pandemia retardou a experiência tão necessária. Vida com saúde é mais importante.

Aprender não é problema para ela: identifica as cores e conta até 10, em português e inglês; canta versos inteiros de músicas variadas, segura o lápis como se deve e já escreve o próprio nome soletrando ela mesma as letras.

Suas visitas incendeiam a casa. Hoje, como sempre, manteve-se firme ao longo de toda a tarde. E quando a mãe ligou para saber se estava tudo bem, confirmou o propósito das “férias com a vovó Sula”.

Quando ela chegou, anunciando a temporada, mochila nas costas, boné na cabeça, empunhando o tablete e empurrando o patinete, o vovó Júlio brincou, perguntando onde ele iria passar “o mês…”. E ela não titubeou:

– Você vai para a casa da minha mãe, vovô.

E a tarde fluiu à vera: jogos nos aplicativos, cantoria e dança nos intervalos, vovó para lá, vovó para cá… Paola para lá, Paola para cá – a filha de Júlio, minha de coração,  que veio nos visitar.

A chuva impediu o passeio no parque, mas sobrou risada, altos papos e o  banho de chuveiro, que sempre é uma diversão a mais.

Comilança, com direito a tomatinhos a rodo no macarrão parafuso à parisiense. Adora a “comida muito gostosa da vovó”. Paçoquinha de sobremesa, banana no intervalo, batata palha e vitamina (fruta batida com leite) de manga com banana no lanche da noitinha… Recusou a sopa de legumes, não cabia mais…

O avô brincou que ia montar um berço para ela no quartinho de serviço, para fazer companhia ao gato. Indignou-se:

– Não sou bebê para dormir em berço. Minha mãe diz que eu sou mocinha! E não vou dormir com o gato porque ele vai me arranhar…

Pegou o mote da brincadeira para revelar o que já ia por sua cabecinha e coração, ao cair da noite.

Como sempre acontece quando passa o dia com a gente, o anoitecer carrega borboletas divinas e aflitas a balançar suas certezas de menina…

A determinação de passar a longa temporada se quebrou. Pediu-me que ligasse para a mãe vir buscá-la.

– Uai, você não ia passar o mês com a vovó!?

– Na verdade, estou com saudade da minha mãe…

Abriu um sorrido cândido, assim, quase constrangido, para completar:

– Foi só uma brincadeirinha…

Minha neta caçula salvou o meu dia e aconchegou minha noite.

Deixei ao largo o eloquente silêncio do depoente Carlos Martins, ex-Wizard, reforçado 50 vezes às dezenas de perguntas disparadas por integrantes da CPI do Genocídio.

Enquanto isso, as redes sociais fervilhavam com a demissão do funcionário denunciado propineiro, responsável pelo setor de compras do Ministério da Saúde.

Aquele que teria exigido um dólar por cada dose de vacina Astrazeneca que lhe foi ofertada, lá pelo mês de fevereiro – e nem queria rimar.

Tempo em que a gente de Pindorama morria, como seguiu morrendo, como formigas.

Caiu de podre, em novo atestado de culpa do desgoverno. Mais explícito, impossível.

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