Valter Pomar: ‘ Não podemos deixar O medo vencer a esperança’

por Sulamita Esteliam

Muito boa a análise de Valter Pomar, historiador que integra os quadros da esquerda do PT. Pontos fundamentais na reflexão e quem acredita que é possível retomar o Brasil rumo ao futuro.

Transcrevo:

Notas sobre a conjuntura

por Valter Pomar – em seu blogue

Para compreender melhor a conjuntura, é preciso levar em conta o período em que esta conjuntura se insere.

O período começou na crise de 2008, que entre outras alterações, mudou a relação entre EUA e China e levou os Estados Unidos a desencadearem uma batalha para reconquistar o território perdido para governos progressistas e de esquerda na América Latina e Caribe.

Esta batalha tinha e tem dois objetivos: 1/garantir o alinhamento geopolítico, ou seja, ter na região mais governos aliados aos EUA na luta contra a China; 2/ garantir o alinhamento geoeconômico, o que significa retomar e aprofundar as políticas neoliberais que vinham dos anos 1980. Os governos Obama, Trump e Biden têm diferenças de estilo, mas estão unidos na batalha por reconquistar a América Latina e Caribe.

Para atingir estes objetivos no caso do Brasil, era preciso afastar o PT e recolocar a “aliança democrática” (PSDB, MDB e DEM) no governo. Esta “aliança democrática”, a famosa “direita gourmet”, é a expressão tradicional da classe capitalista brasileira. Classe que está de acordo em fazer do Brasil uma sociedade baseada no agronegócio exportador, na mineração e na especulação financeira. Foram estes os objetivos do golpe de 2016 e foram estes os objetivos da prisão, condenação e interdição eleitoral de Lula em 2018.

Acontece que os de cima podem e planejam muito, mas não podem e não planejam tudo. Vide o Afeganistão.

O fato é que, mesmo com Dilma golpeada e Lula preso, a chapa Haddad e Manu caminhava para vencer as eleições de 2018. Foi nesse contexto que a aliança Estados Unidos/classe dominante brasileira teve que fazer um gambito parecido com o que fizeram em 1989.

Em 1989 apelaram para um filhote da ditadura, Collor, que se apresentou como “o cara” dos descamisados e do combate aos marajás. Em 2018 apelaram para outro filhote da ditadura, Bolsonaro, que também se apresentou como “o cara” do povão e contra a política tradicional.

Bolsonaro “venceu” aquelas eleições fraudadas e desde então vem entregando o produto, ou seja, mais submissão; mal estar social; desigualdade; autoritarismo; subdesenvolvimento.

Como é óbvio, isto tudo tem um custo, que vem sendo pago pelos pequenos e médios capitalistas, pelos trabalhadores pequenos proprietários rurais e urbanos, pelos trabalhadores assalariados e, dentre estes, principalmente pelos mais pobres, pelos negros e negras, pela juventude, pelas mulheres e pelos moradores de periferia.

A ação do governo bolsonarista e neoliberal gerou uma reação que começou ainda em 2019 e teve no tsunami da educação um de seus marcos. É provável que em 2020 tivéssemos ainda mais lutas e fosse o ponto da virada, mas o vírus veio em socorro de Bolsonaro.

Pois a pandemia permitiu fazer a boiada passar com mais facilidade; além de terreno fértil para o discurso e a prática de Bolsonaro, a pandemia empurrou parte da esquerda para uma “semiclandestinidade” sanitária e contribuiu para a vitória da direita nas eleições municipais de 2020.

Mas em 2021 começou uma nova onda de lutas: por conta de um conjunto de motivos (entre os quais a catástrofe de Manaus, a libertação de Lula, o avanço ainda que lento da vacinação etc._ parte da esquerda começou a sair  da semiclandestinidade e retomar o ânimo.

Desde 8 de março de 2021, vivemos uma situação contraditória, que possui pelo menos quatro dimensões:

1/a boiada segue passando com tudo;

2/as mobilizações sociais recomeçaram, mas numa escala insuficiente para deter a boiada e conseguir o Fora Bolsonaro/impeachment;

3/todas as pesquisas dizem que se a eleição fosse hoje, Lula venceria, mas a eleição é daqui há um ano;

4/no plano político-eleitoral, os diferentes setores da classe dominante estão divididos sobre o que fazer.

Não há, na classe dominante, nenhum setor relevante disposto a embarcar de verdade na candidatura Lula. Aliás, cá entre nós, este tipo de engajamento – não apenas de indivíduos, mas de frações do empresariado – só ocorreu de fato em 2010 e mesmo assim com um pé em cada canoa.

Na classe dominante há várias posições, mas duas são principais.

Uma parte (liderada pela direita gourmet) está convencida de que é preciso cavar espaço para uma “terceira via”, pois acham que Bolsonaro tende a perder para Lula.

Outra parte (liderada pela extrema direita bolsonarista) está decidida a ganhar as eleições custe o que custar, mesmo que o custo for não ter eleições.

Com este objetivo, Bolsonaro está fazendo dois movimentos.

Por um lado, segue operando na política institucional tradicional, mobilizando as instituições que lhe são favoráveis (parlamentares, governadores, prefeitos, militares, algumas igrejas, setores do empresariado, o próprio governo federal e seus aliados).

Por outro lado, Bolsonaro mobiliza sua base social.

Este segundo movimento não tem como objetivo, neste momento, “dar um golpe”. Aliás, como o próprio Bolsonaro já disse, quem está no governo não dá propriamente um “golpe”. Sem falar que “vivemos em estado de golpe”: o que ocorreu em 2016 é parte de um processo, um golpe permanente, continuado, em prestações.

Óbvio, entretanto, que a movimentação das tropas bolsonaristas no dia 7 de setembro é um “exercício” golpista. Mas o objetivo principal deste tipo de movimentação é mais político do que militar. No dia 7 Bolsonaro quer:

1/demonstrar que tem força, que não está isolado (e neste caso está fazendo isto numa data simbólica e literalmente movimentando tropas) e sinalizar para seu pessoal o que ele pode vir a fazer se necessário for;

2/atemorizar a direita gourmet (para que a direita que faz oposição a Bolsonaro maneire no STF, na CPI da Covid, nas investigações contra   Bolsonaro etc.);

3/tirar a esquerda das ruas e reocupar as ruas.

Para quem acha que a próxima eleição presidencial será uma campanha normal, nos tirar das ruas no dia 7 de setembro pode parecer pouco. Mas para quem acha que vamos colher nas urnas o que plantarmos nas ruas, ficar ou sair das ruas é decisivo, seja no dia 7, seja depois.

Para usar uma imagem militar, é como se as ruas fossem uma colina onde posicionamos a artilharia para disparar contra o adversário. Se eles nos tirarem das ruas no dia 7, eles obtêm três objetivos ao mesmo tempo: 1/se livram dos nossos “tiros”; 2/usarão a colina para atirar contra nós; 3/terão a certeza de que basta uma ameaça para nos tirar das ruas durante a campanha eleitoral.

Ou seja: descobrirão que não precisa de golpe, basta fazer “buuu” e as ruas serão deles. Mas atenção: se não sairmos da ruas dia 7, pode ser que eles passem da teoria à prática. Não devemos subestimar a violência de Bolsonaro e dos seus apoiadores. Mas tampouco podemos nos deixar dominar pelo medo.

A alternativa é mais organização e mais presença de massa. É preciso participar de forma muito organizada e isto servirá inclusive como treino para os próximos meses, inclusive para a campanha eleitoral, que não vai ser “normal”.

Teremos que ganhar, tomar posse e criar as condições para governar. Para isso é preciso ter clareza sobre o que está em jogo (crise mundial, crise nacional, extrema direita raivosa, parcelas do povo da esquerda confundidos); é preciso ter clareza sobre nossos inimigos (o governo dos EUA, o conjunto da classe capitalista, a direita gourmet, a extrema direita e… o medo); é preciso definir nossa estratégia e programa, tendo claro que nosso objetivo é chegar ao governo para desmontar tudo o que eles fizeram desde 2016 (reverter contrarreformas, reestatizar o que foi privatizado, anular leis golpistas etc.); é preciso definir nossas alianças (uma frente popular de esquerda, uma aliança com o povo e com quem se dispuser a defender nosso programa antibolsonarista e antineoliberal; é preciso implementar uma tática eleitoral que permita não apenas ganhar a presidência, mas também espaços importantes no Congresso nacional e nos governos estaduais (e para isso é preciso ter campanhas de esquerda muito fortes em estados decisivos, ao invés de fazer acordos prematuros com supostos aliados e/ou inimigos supostamente arrependidos); é preciso uma campanha de massas e uma campanha segura (que proteja em especial o Lula).

Por fim, mas não por último: um traço fundamental do período e da conjuntura é a instabilidade. Por isso, erra quem acha que o impeachment é impossível. É preciso manter a pressão pelo Fora Bolsonaro e não deixar o medo vencer a esperança. A começar pelo dia 7 de setembro.

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