O risco de feminicídio é permanente na sociedade de cultura machista

por Sulamita Esteliam

Entra ano, sai ano e a realidade é que a vida de boa parte das mulheres continua sob risco permanente. Sempre em nome do amor.

Até porque a cultura da relação de posse entre os casais, sobretudo do homem sobre a mulher, é que retroalimenta a dominação e a abusividade.

O rigor da lei não consegue eliminar o que a educação familiar, social, não trabalha desde o berço. Educação de gênero, sim, senhoras e senhores.

Isso se chama machismo patriarcal, secularmente denunciado pelo feminismo como fonte da violência contra as mulheres.

E que é potencializado pela incapacidade masculina de lidar com a rejeição, e que transforma o que deveria ser amor em ódio, em misoginia.

Assim, o que deveria ser uma relação amorosa se torna uma ratoeira, uma armadilha para a mulher, do tipo se correr o bicho pega, se ficar o bicho come…

Escrevi um livro a respeito: Em Nome da Filha, a história de uma morte anunciada, uma história real (contato: sesteliam@gmail.com).

Uma em cada 10 mulheres adultas já foram ameaçadas de morte por parceiro ou ex. Uma em cada seis brasileiras já sofreram tentativa de feminicídio por parceiro ou ex. 

Administrar um relacionamento abusivo é impossível, a mulher pode não sobreviver a ele. Se toma atitude e se afasta, pode se tornar alvo da fúria do abandonado, mesmo quando denuncia e pede proteção. 

O curioso é que essa percepção é clara na sociedade, e está detectada em vários levantamentos, ao longo dos anos.

Dados citados a partir da mais recente pesquisa sobre o assunto, uma parceria do Instituto Patrícia Galvão e a Locomotiva, com apoio do Fundo Canadense.

Números reveladores:

    • 57% das pessoas entrevistadas, o equivalente a 91,2 milhões de pessoas, conhecem uma mulher que foi ameaçada de morte pelo parceiro ou ex; 37%, que representam 65,6 milhões de pessoas, conhecem uma vítima de tentativa ou de feminicídio íntimo – quando o algoz convive intimamente com o alvo.
    • Nove em cada 10 pessoas ouvidas estão convencidas de que o lar é o local de maior risco de assassinato da mulher por parceiro ou ex.
    • A ameaça de morte é uma forma de violência psicológica tão ou mais grave que a violência física para 93% dos entrevistados.
    • Para 97%, mulheres que permanecem em relações violentas correm risco de serem mortas; e para 87%, terminar a relação é a melhor forma de acabar com o ciclo da violência doméstica e evitar o feminicídio.
    • Já 49% veem no rompimento o maior risco da mulher que sofre violência doméstica do parceiro, enquanto 28% acreditam que o momento é qualquer um.
    • Dentre as mulheres vítimas de ameaças de morte ouvidas, 57% terminaram o relacionamento, mas 12% não tomaram qualquer atitude ou ignoraram.

A Agência Patrícia Galvão publica o resumo da pesquisa.

O relatório completo pode ser visto aqui.

Informações necessárias todos os dias, ainda mais no Dia Internacional de Combate à Violência contra as Mulheres, o 25 de novembro.

A data foi definida pela ONU para homenagear as irmãs Pátria, Minerva e Maria Tereza Mirabal, Las Mariposas, ativistas mortas pela ditadura de Rafael Leônidas Trujillo, na República Dominicana, em 1960.

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