Sobre ausências, dores e abusos políticos

por Sulamita Esteliam

Retomo as atividades do blogue às vésperas do aniversário de 12 anos, e depois de afastamento forçado de 10 dias: mais uma crise de tendinite, desta vez no ombro e cotovelos esquerdos. Fazia tempo não sentia tanta dor.

Odeio tomar remédio, mas me entupi de anti-inflamatório ao longo de uma semana. Tive que imobilizar nos primeiros dias, e cheguei a precisar de ajuda até para me vestir.

Nos últimos dias, ensaiei ligar o portátil algumas vezes, mas as ideias também estavam bloqueadas, o que agudiza a sensação e inutilidade, o mais terrível.

Passei ao largo das ruas no 7 de setembro, o que mexe com meu humor. O maridão está se recuperando de uma cirurgia bucal e não me senti segura de ir sozinha. Não por medo da súcia verde-amarelo, embora devesse; mas por andar mareando, talvez por conta da medicação, talvez por somatizar todo o processo.

Inevitável, porém, regugitar o espetáculo misógino, de abuso eleitoral e de poder, de improbidade admnistrativa, ato prevaricador do ser que suja a cadeira presidencial. Para além da absoluta indigência para com a liturgia do cargo.

Justo no ano do bicentenário da Independência – embora seja preciso perguntar para quem? Como ecoam os movimentos sociais, no Grito dos Excluídos, país afora, alto e bom tom: “Independência é não passar fome, é ter dignididade para todos”.

A despeito da mobilização inegável país afora, mas sobretudo no Distrito Federal, no Rio de Janeiro e em São Paulo, o Coisa-Ruim não fura a bolha dos seus 30%; o que é muito no eleitorado de 156 milhões.

Todavia, a julgar pelas sondagens pós-pantomima, o títere provocador deu-se mal. Aliás, apesar do barulho estridente: tiro no pé é a sua especialidade.

Crime eleitoral, peculato – desvio do bem público em benenefício próprio ou de terceiros – são assuntos para o TSE e para a Suprema Corte.

O Coisa-ruim, obviamente, está ciente, e desafia as instituições. É chantagem explícita, escudado nos milicos que se locupletam do poder e o manipulam, mas tipo briga de rua: “Vem me pegar, se for capaz!”.

A pergunta é: tomar-se-á a atitude necessária? Ou, a bem da “paz democrática”, vai-se passar pano como se fez com os criminosos dos 21 anos de ditadura sangrenta pós-1964?

Os partidos de oposição já cumpriram seu papel de provocar a Justiça. Dever do Ministério Público Federal, que seria intransferível, caso a Procuradoria Geral da República não agisse ao largo de sua responsabilidade.

Fato é que a sensação de impotência não ajuda em nada; antes, provoca ansiedade, e  tudo junto vira uma bola de neve. Se ao menos conseguisse chorar…

Perdemos uma vizinha de apartamento na segunda-feira: dona Maru, uma senhorinha de seus 87 anos, em processo avançado demência: teve um AVC isquêmico, passou uma semana na UTI, e não resistiu. Misericórdia do livramento.

Morte e vida severinas.

Fomos ao velório, Euzinha e o maridão, porque ela gostava da gente. Deixou isso claro nas poucas vezes em que, em três anos de vizinhança, fomos instados a ajudar a flha-cuidadora a descer ou subir com ela o lance de escadas, por exemplo. Ou compartilhava uma comidinha diferente para quebrar a dieta, severa mas necessária.

É nosso exercício de convivência pacífica com as diferenças: a filha, quiçá a família, que aparece vez por outra, é da trupe do Inominável. Política não entra em nossas raras conversas.

Não ficamos para o sepultamento. Para Julio, é um processo complicado e, para mim, tornou-se um flagelo nos últimos tempos. Ambos carregamos um baú de perdas acumuladas. Minha energia cai a níveis quase vitais.

Ontem voltamos a pôr a cara na rua: Euzinha e o maridão fomos até a praia, enfiar o pé na areia e tomar um pouco de sol. Caminhamos cerca de 5 quilômetros, três deles na preamar, o que para nós é a antessala do paraíso.

A maré começava a encher, o que no Recife significa piscinas deliciosas, embora o rigor do inverno ainda não favoreça a temperatura da água, normalmente tépidas. O banho me revigorou; deixei lá a ziquizira.

Estamos de volta, devagarinho… para permanecer na trilha.

Obrigada pela compreensão.

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Linco quatro matérias com a repercussão do vexame nacional no Dia da Pátria:

Tijolaço: Uso do 7 de setembro, jurdicamente, é corrupção

Jornal GGN: Crimes de prevaricação e peculato de Bolsonaro no 7 de setembro viram notícias-crime no Supremo

Revista Fórum: DataFolha: gritaria do 7 de setembro não rendeu nada a Bolsonaro

Carta Capital: TSE dá 5 dias para Bolsonaro apresentar defesa sobre abuso de poder no 7 de setembro

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Postagem revistae atualizada em 12.09.2022, às 19h27: correção de erros de digitação e inclusão de palavras para dar mais clareza ao texto.

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