Ruy Sarinho escreve: ‘Por que Marília Arraes?’

por Ruy Sarinho*

Na campanha eleitoral de 1962 ao Governo de Pernambuco, ainda uma criança com apenas 10 anos de idade, fui me descobrindo um apaixonado pela Política. Digo com mais alma, meu encantamento desabrochou pela propaganda de Arraes, uma decalcomania, uma decalco, (eram assim que se chamavam os adesivos de hoje, naquela época bem mais grossos e menos burilados), que mostrava uma parede ainda sem reboco sendo levantada, com o desenho de uma mão e uma colher de pedreiro.
A propaganda estava num vidro de um balcão da TebaS Lanches, um cubículo na entrada para o elevador do Edifício Tebas, do meu saudoso Tio Samuel, um comunista de verdade, num daqueles bequinhos desaparecidos da memória recifense para a abertura das Avenidas Dantas Barreto e Nossa Senhora do Carmo. A partir dali, passei a ser um apaixonado, nem sabia o que diabo era militante, pelas lutas de Miguel Arraes de Alencar.
Era a corrida para o Palácio do Campo das Princesas entre Miguel Arraes de Alencar e João Cleofas de Oliveira, que depois ficou conhecido como João Três Quedas, pelas sucessivas derrotas acumuladas. E olhe que meu pai, que foi fundador do PSB em Pernambuco, décadas antes, Paulo Travassos Sarinho, era então funcionário das empresas do adversário de Arraes, como economista e contabilista com sala no terceiro andar do Edifício Pirapama, do então patrão, à Avenida Conde da Boa Vista.
Amava ir naquele bequinho, ouvir aquele barulho efervescentemente político das conversas de Tio Samuel com os vendedores de sapatos que lotavam o espaço em barraquinhas toscas, mas cheias de vida, de lutas, de sonhos. Ali, só dava Arraes! E aquilo me fascinava. Nunca saiu da minha visão aquela foto histórica de Miguel Arraes agarrado a um daqueles antigos postes das ruas do Recife, acenando para o povo, depois de eleito. Aprendi com Tio Samuel a gostar e admirar Arraes.
Graças a Tio Samuel, nunca engoli o sangrento golpe de 1964. Chorei as prisões e deposições de Arraes, de Jango, as perseguições a Brizola, a Juscelino e a tantos outros brasileiros que lutavam para desatar o nó das mordaças com que o Tio $AM sempre nos dominou.
E na volta, depois da mais bela campanha de que participei nas ruas, em 1986, atuei no Governo de 1987 a 1989, incialmente como jornalista/repórter do Jornal Mural Primeira Página (Serviço de Imprensa de Pernambuco) comandado por estrelas como Ricardo Leitão, Jodeval Duarte, Ronildo Maia Leite, Zé Maria Andrade e Gervásio Campos, seguindo dali para o setor de imprensa da então Cohab Pernambuco, com Joana D’Arc Lima, Jô.
E ainda tive a felicidade de dirigir o guia de Rádio da Frente Popular de Pernambuco, comandada por Arraes, na eleição de 1994, assumindo em seguida a diretoria de Radio e de Imprensa da então Secretaria de Imprensa de Pernambuco, de 1995 a 1998.
Meu lado, portanto, sempre foi o mesmo. Nunca fiquei em cima do muro. Muito pelo contrário, em 1991, recusei assumir uma assessoria de imprensa de um órgão de um governo com o qual eu era totalmente antagônico.
Nunca torci pela Diana dos Pastoris Religiosos, como os da Rua do Bonfim, em Olinda, ou da Praça Vitória Régia, em Casa Forte. Vibrei sempre com o Cordão Encarnado! Por que, então, agora estaria eu ao lado da Diana na atual disputa pelo Palácio do Campo das Princesas? Uma Diana que tem lado, sim, por baixo dos panos. O lado dos preconceitos, o lado dos simpatizantes das milí$$ias exportadas do Rio de Janeiro, responsáveis pela morte de mais de 600 mil pessoas vítimas da Covid 19, o lado contra a ciência, o lado de um despresidente Desumano.
Estou sim, com Marília Arraes, justamente pelo seu DNA Político.
E aqui, lembro um momento de muita emoção, na Missa pelo Sétimo Dia do Encantamento de seu avô, o Nosso Eterno Governador Arraes. Naquele momento, ao final da celebração, uma menina linda de apenas 21 anos de idade leu uma Carta de Despedida ao seu Mestre Avô, fazendo com que lágrimas escorressem pelo meu rosto. Aquilo me tocou até mesmo mais do que a homilia do Padre Edivaldo de Casa Forte.
Procurei saber quem era aquela menina: era Marília Arraes!
Hoje, aos 70 carnavais bem vividos, estou nas ruas do Recife, de Olinda, com minha La Ursa Branca Aloprada Pela Democracia 77 e com o Meu Bode Lulinha 13, virado num mói de coentro, buscando votos, sonhando com mais Vida, com Amor, para o nosso Pernambuco e o nosso Brasil.
Sem Medo de Ser Feliz: com muita disposição e energia para sairmos dessa noite tenebrosa em que o País foi mergulhado, nas mãos de milicianos e de milícias. Para que o pobre, o negro, o homossexual, o quilombola, o índio e o povo trabalhador voltem a sorrir, a sonhar, e a fazer desse sonho de esperança uma nova Realidade, para Pernambuco, para o Brasil.
É Lula 13, Lá; Marília 77, CÁ!

* Ruy Sarinho é jornalista e radialista. Criador e diretor do Projeto Banco de Feira/Violência, Zero! de rádio ao vivo, itinerante por mercados, feiras e praças do Recife e entorno sobre cultura popular, literatura e direitos humanos.

Euzinha integro a equipe multitarefas, como apresentadora do Violência, Zero!, dentre outras funções. Somos sete pessoas, além de nós dois: professor Eutróprio Édipo, co-criador do projeto e apresentador eventual do VZ; Zefinha Paridera/ personagem do publicitário e artista Carlos Amorim, que divide com Ruy a apresentação do Banco de Feira; os jornalistas Vitor Silva e Rodrigo Lambert, o dublê de cinegrafista e forrozeiro, Daniel Bento.

O projeto vem de meados dos anos 80. Euzinha cheguei em 2010, a convite do Ruy. Em 2022 tem o apoio do Funcultura/Fundarpe/Secretaria de Cultura/Governo do Estado de Pernambuco.

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