por Sulamita Esteliam
João Pedro (nome fictício) estava eufórico naquele domingo de meados de agosto. Não cabia em si de ansiedade. Afinal, seria sua primeira vez num campeonato de verdade, defendendo as cores do PEC – Paraíso Futebol Clube, o time onde pai e mãe, recentemente, o colocaram para treinar, em comunidade vizinha ao Bairro Saudade, Zona Leste da capital mineira.
Seria o jogo de estreia pelo campeonato Mineiro Academy da All League (assim mesmo, em inglês), pelo Sub-14 e Sub-13, enfrentando o poderoso Arena7, no campo do adversário, no Alípio de Melo, Região da Pampulha, Zona Norte de Belo Horizonte. A tarde prometia.

Garoto ágil, embora novato e pequeno para a idade, João Pedro tinha visão de jogo, como cabe a todo volante, e estava bem feliz com a escalação de primeira. Que menino não alimenta o sonho de vir a ser um grande jogador de futebol, afinal?
A família inteira – pai, mãe e avó – foram prestigiar o talento da casa e a partida, como de resto pais e mães de todos os seus colegas, e também da equipe adversária. É obrigação afetiva, e é o que manda a lei, configurada a partir do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente.
O que não poderiam imaginar é que seus filhos viriam a ser personagens de um circo de horrores, bem aos moldes de tempos recentes em nossa sociedade.
O deslumbre com a estrutura da Arena 7, se transformou rapidamente em frustração. Para começo de conversa, as equipes do Paraíso foram impedidas de usar os vestiários. As crianças tiveram que trocar de roupas no banheiro masculino e deixar suas mochilas ao léu.
– Quase chorei quando fui ao bebedouro renovar a água da garrafa e vi as mochilas dos meninos amontoadas no chão ao lado – diz a mãe, que é técnica em enfermagem, indignada.
– Os meninos foram discriminados da pior forma. Não deixaram que eles usassem o vestiário, como se não fossem dignos de usar o mesmo local que os filhos dos alunos da Arena 7. Por mim, teria tirado meu filho de campo na hora, mas não podia fazer isso com ele, todo entusiasmado – completa o pai, trabalhador de aplicativo de transporte.
A verdade é que deu tudo errado naquela tarde de domingo, e isso refletiu no resultado dos jogos: 11 x 0 para o Sub-14 e 7 x 0 para o Sub-13, uma verdadeira lavada. O Paraíso, de tantas conquistas, esteve irreconhecível.

Foi como se tivessem quebrado sua espinha dorsal. A humilhação inicial jogou o moral dos atletas do Paraíso para debaixo das travas das chuteiras. E o placar refletiu o que a alma tentava esconder.

Apesar de tudo, o primeiro jogo, do Sub-14, correu sem problemas, para além da goleada, conta o técnico Daniel, de apenas 20 anos, ex-jogador do Paraíso. No segundo jogo, ele foi aquecer os goleiros e o auxiliar, João Victor, ficou com o time Sub-13.
Quando a partida começou, tudo estava normal, uma entrada mais dura aqui e ali, coisa de jogo. Até que tudo desandou.
– Eles começaram a bater sem bola, e o juiz ignorava. Um jogador nosso levou um amarelo por conta de um carrinho, e a partir daí uma “chuva de amarelos” para nossos meninos e nenhum cartão ou advertência para os donos da casa, nem quando o número 8 deles deu um soco na cara de um dos nossos menino – conta Daniel.
O relato é confirmado pelo auxiliar técnico, que aponta simulação do jogador adversário no embate que resultou na expulsão do atleta do Paraíso. Segundo ele, o tranco mais violento foi quando um jogador do Arena 7 caiu em cima de um atleta visitante e deixou a chuteira no rosto dele, rasgando a boca com a trava.

À essa altura dos acontecimentos, os pais estavam enlouquecidos no alambrado, e da parte da casa, segundo o técnico do Paraíso, com xingamentos de toda ordem:
– O que mais se ouvia era “macaco”, “favelado”, “time de várzea”…! Um pai, de camisa amarela, falou: “É nisso que dá entregar um time de meninos para gente preta, desqualificada”. Doeu muito em mim, futebol não é isso, é desumano.
Terminado o jogo, mesmo derrotado e com todas as agressões verbais, Daniel fez o que manda o espírito esportivo: levou sua equipe para cumprimentar o adversário vitorioso. Então viu que algo mais o esperava:
– O homem que estava filmando – moreno mais claro, estatura média, cabelos encaracolados mais soltos, e que usava a camisa da casa -, não deixou que o menino da equipe deles tocasse em minha mão e na mão dos nossos atletas. Disse: “Não toque nele, é gente negra, favelada, time de várzea!”
Nessa hora, Daniel desabou. Seu pranto foi acompanhado por seus atletas-mirins, que choraram todo o percurso de volta para casa. O menino João Pedro também chorou, e fez questão de acompanhar os colegas até a sede do Paraíso; pai e mãe o buscaram lá.
– Meu filho ficou jururu na segunda e terça-feiras. Chegava da escola e se fechava no quarto, não queria conversa com ninguém. Só melhorou na quarta-feira, quando voltou a treinar. Ele tem TDHA e TOD, está sob tratamento, e jogar futebol, além do sonho, é terapêutico – diz a mãe.
Esta mãe diz que vai fazer Boletim de Ocorrência na DPCA. Só não o fez ainda porque adoeceu. Daniel foi até o posto policial se informar sobre a possibilidade de denunciar o racismo sofrido, mas os policiais lhe disseram que precisava do nome do agressor, e ele não sabia, acabou deixando para lá.
Um verdadeiro suco racista, espetáculo antiesportivo, vamos combinar. E um péssimo exemplo de supremacismo, a começar pelos pais. E que em nada contribui para a formação de crianças e adolescentes cidadãos e respeitosos.
Formado no “terrão” e hoje jogador do Ponte Preta, Arthur Henrique postou sua indignação sobre o episódio de racismo em seu perfil no Instagram:

Importante observar que relato dos integrantes da comissão técnica presentes na partida do domingo, 18 de agosto, na Arena 7 BH, é corroborado pela nota publicada pela All League em seu perfil no Instagram:
A nota repercutiu amplamente, mas foi retirada duas horas após a postagem, diz Romulo Costa, vice-presidente do Paraíso, e enfermeiro por profissão. Ele não estava presente no jogo, porque, segundo informa, estava acompanhando outra equipe em outro jogo.
Quando lhe pergunto pelo Boletim de Ocorrência sobre os atos racistas e a denúncia de violência moral aos atletas adolescentes na DPCA, ele admite que a providência deveria ter sido tomada por quem da comissão técnica estava presente – além do técnico maior de idade, o presidente do PEC. O que não aconteceu.
Segundo ele, a All League tentou reunião de alinhamento entre as direções das equipes envolvidas, mas a Arena 7, através de seu coordenador Esportivo, Diogo Nunes, não deu retorno. De acordo com Romulo, pais que postaram ou comentaram denúncias foram intimidadas pelo diretor do clube adversário, embora ele próprio também não estivesse presente no dia do jogo.
O Paraíso, segundo o vice-presidente, levou a denúncia das agressões ao Conselho Tutelar, a quem cabe fiscalizar impropriedades em escolinhas esportivas e, se for o caso, tomar providências junto ao Ministério Público e ao Juizado de Menor Idade. E retirou o time do campeonato Mineiro Academy.
O A Tal Mineira deixou mensagem no privado do perfil da All League e no WhatApp questionando o porquê de a liga ter apagado a nota do Instagram, mas não houve resposta. Caso venha a acontecer, será agregada nesta postagem.
Quanto o Arena 7 BH, o contato com Diogo Nunes, via privado do Instagram, foi gentil, mas acompanhado do nome e telefone do advogado Dany Livingstone, da DL Advogados – Advocacia Empresarial e Esportiva.
Ele nega todas as denúncias de agressão moral, física e de racismo por parte da equipe ou qualquer funcionário do clube: “Isso não seria admissível,e se houver provas do que aconteceu, é caso de demissão imediata. Além do mais, não está na súmula”.
Garante que o Arena 7 BH é um projeto vitorioso e respeitado por seus resultados na formação de atletas, hoje espalhados por diversos clubes profissionais do país. “Nenhum deles têm problemas de disciplina ou ética”.
– São coisas da internet, que aceita tudo. As pessoas reproduzem sem checar.
Informo ao distinto que tenho 45 anos de profissão e registro profissional, e pergunto qual o seu tempo de OAB. Ele se irrita e responde: “Não é da sua conta”. Só pude rir.
O advogado me assegura que a “reunião de alinhamento não houve porque enviamos uma nota privada para a All League”, negando que tenha havido tentativa de intimidar comentários ou depoentes via redes sociais.
Diz, também, que conversou individualmente com vários dos pais de atletas do Arena 7 presentes ao jogo do domingo, 18 de agosto:
– “Nenhum declarou ter ouvido qualquer xingamento ou atitude racista por parte de quaisquer deles ou mesmo de funcionários da Arena 7”.
Pergunto se posso concluir que mentem todos os pais, mães e profissionais do clube adversário que relatam as ocorrências de humilhação e racismo no jogo do Arena 7 contra o Paraíso. Fica bravo e me acusa de estar fazendo pré-julgamento.
Lembro a ele que não se faz Jornalismo sem uso do contraditório, é meio para apurar os fatos, assim como o advogado de defesa ou de acusação se vale dessa ferramenta no tribunal do juri para colheita de provas, por exemplo. O outro lado é sempre uma versão possível.
Então ele volta a falar sobre as virtudes do projeto Arena 7 BH, que não se dedica apenas a formar alunos de classe média alta, a maioria branca, que podem arcar com o valor da mensalidade:
– Também somos um projeto social, que reserva parte de seus quadros por critério de alto desempenho e também por carência.
Quero saber se havia funcionário ou diretor responsável pelo Arena 7 no dia do jogo contra o Paraíso. O advogado diz que sim, e diz o nome quando pergunto: um certo “Calixto”.Diz que vai consultar sobre a possibilidade de a gente conversar, mas fica por isso mesmo.
Por fim, Dany Livingstone quis saber do meu interesse “em defender” o Paraíso. Explico que a notícia me chegou pelo privado do Instagram e, ao longo da semana, procurei checar todas as informações, como cabe a qualquer repórter que se preze.
E por que Euzinha, a dois mil e quinhentos quilômetros de distância, você também se perguntaria, fui acionada e não outro jornalista de veículo da terrinha? Porque meu neto já treinou e foi campeão com o Sub-15 do Paraíso, embora não seja da comunidade e agora esteja afastado. Euzinha compareci a alguns treinos e até a jogos, quando de eventuais estadas na terrinha.
Admiro a tentativa de trabalho social do Paraíso, que existe, resiste e persiste desde 1968, com conquistas importantes. A despeito das dificuldades de patrocínio, ou mesmo reconhecer alguma deficiência operacional ou no jogo político e uso das ferramentas disponíveis de incentivo ao esporte, tanto no plano municipal como estadual. Obviamente não é o que ocorre com projetos como o Arena 7.
Deixo o acesso à vaquinha ativa do projeto PEC, onde se pode obter todas as informações a respeito e contribuir para a causa.
Fotos: Reprodução de imagens do campeonato Mineiro Academy, publicadas pela All League no perfil do Instagram: @alleague.us
Mais crônica emocionante, ainda que acabe por consolidar minhas convicções sobre a deficiência sociológica dos branquelentos e seus sucessores e herdeiros.
Surge uma nova espécie, os homo non-sapiens.
Muito triste, Gustavo. Obrigada pela presença e pelo comentário estimulante