Quem ama, educa. E grita!

Por Sulamita Esteliam
Baner arrastado do blogue Dialógico: dialogico.blogspot.com/

Não se pode compactuar com a violência de qualquer natureza. Mas a agressão doméstica e familiar machuca mais profundamente, porque parte das pessoas que amamos. Agride o corpo, a consciência e a alma. Você pode superar, e até perdoar, mas não pode esquecer. Para que não se repita.

Ainda menina, vi meu pai espancar minha mãe, e ela revidar como podia. O pau quebrava lá em casa, desde sempre. Não era exclusividade da nossa família. Menina já bem crescida, procurava desculpas para atenuar a responsabilidade de meu pai naqueles episódios, que jamais saíram de dentro de mim.

Amava muito meu pai, e o perdi muito cedo, ainda pirralha. Cresci lutando entre o amor e a memória. E o meu amor, e minha meninice, me impediam de dimensionar a realidade.

Naquele tempo, não havia delegacia específica, e não haveria por anos a fio. Não havia, também, movimento de mulheres nem campanhas anti-violência. Nem lei que, bem ou mal, se reportasse ao assunto. Muito menos notícia no jornal. O poder familiar ao macho pertencia, e a ele cabia dispor de sua fêmea como bem se lhe aprouvesse.

Certo dia, após mais uma sessão de agressões verbais, psicológica e pancadaria, minha mãe resolveu dizer BASTA! Foi até a delegacia mais próxima e denunciou meu pai. Apresentou-se ao delegado usando uma fralda da filha mais nova, ainda bebê, para estancar o sangue da orelha quase decepada na luta corporal com o marido. Estava grávida de sete meses, do quarto filho. Essa imagem, com certeza, foi decisiva para a autoridade policial meter a colher. O ano era 1958.

Meu pai foi preso. Passou alguns dias no xilindró, para esfriar a cabeça e refletir sobre os próprios atos de covardia.

Jamais me esqueci da cena de meu pai atrás das grades. Pois minha mãe decidira ir-se embora com os filhos, e nos levou para nos despedirmos dele. Na minha cabeça de menina, aquilo era um acontecimento. Em certo sentido o era, mesmo, naquele tempo e lugar.

Só muito mais tarde pude compreender a gravidade daqueles fatos, e a importância dos gestos, e atitude, todos, de minha mãe. Aprendi que amor e resistência não são incompatíveis, ao contrário, se complementam. Amor com dor é uma rima pobre e de mau gosto. Medo se supera. Recusa, compaixão e afeto podem andar juntos com a dignidade e o respeito.

Minha mãe amou meu pai até o último suspiro. Morreu viúva, 40 anos depois que ele partiu. Mas jamais esqueceu. Jamais se omitiu ou escondeu sua história. Era sua maneira de nos educar.

Certamente, boa parte da mulher à qual me tornei se deve à força dessas lembranças. À coragem e a capacidade de amar, que ela sempre nos transmitiu. O resto, a vida fez – para o bem ou para o mal.

Foi preciso que uma socialite mineira, Ângela Diniz, fosse assassinada pelo amante, em 1975, para que a sociedade brasileira acordasse para a luta anti-violência contra a mulher. Doca Street, um playboy paulista caça-dotes, abateu a Pantera Mineira com quatro tiros, no penúltimo dia do ano, na Praia dos Ossos, em Búzios/RJ, porque ela não o queria mais. Foi absolvido, e ela condenada. Mas, então, o movimento feminista gritou, a luta saiu do gueto para ganhar a visibilidade da mídia e a agenda dos movimentos sociais. “Quem ama, não mata”. Nascia a primeira campanha. Só depois o cara pegou cana.

Muitas vezes se aprende errando, mas a educação é a base da consciência. A Lei Maria da Penha, 11.340/2006, chega 30 anos depois. É uma conquista de anos e anos de luta, ao longo dos quais a mulher vem aprendendo a superar o medo, a gritar por socorro. É preciso que cada mulher, em cada canto do país, saiba da sua existência e conheça o seu alcance. Mas não é o bastante. É preciso perder o pudor. É preciso educar nossas filhas e nossos filhos para que não reproduzam, perpetuamente, o jogo da vítima e do algoz.

Baner arrastado do blogue Dialógico

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