O poder é masculino, e está em xeque

Fotos Cláudia Ferreira, Agência Patrícia Galvão
Por Sulamita Esteliam

O poder é masculino. A política é masculina. A imprensa é masculina. Todos os três estão em xeque. E  há reações “perturbadas”, de homens – e de mulheres, também, infelizmente – com a ascensão feminina nesses espaços da sociedade. Ainda que tardia. Transformações lentas para nós, mulheres – e homens, raros – que lutam pela liberdade e pela igualdade e de oportunidades, ou a apóiam. Aceleradas para quem se vê obrigado a conviver sem a acomodação do “cada um no seu lugar”, conforme analisa a jornalista Laura Capligione, da Folha de São Paulo.

A campanha, sórdida, e a eleição de Dilma Roussef para a Presidência da República, a primeira na história deste país, fez aflorar os instintos mais obscuros da sociedade brasileira. Caiu a máscara da gentileza hipócrita que, mal e porcamente, encobria nosso conservadorismo. Abriu-se a tampa do esgoto. Sobreveio o fundamentalismo religioso e o destempero que supura preconceitos, vários: machistas, racistas, homofóbicos, regionais, de classe. Melhor que venham à tona; fica menos difícil combatê-los.

Tais reflexões permearam o primeiro dia de debates do Mulher e Mídia 7, encontro que este ano tem como tema Mídia, Mulher e Poder. A organização é do Instituto Patrícia Galvão, de cidadania da mulher, em parceria com a SPM – Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres, do governo federal e com apoio da Unifem – Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher.

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Presentes, Mulheres feministas dos quatro quantos do país

Acontece no Rio, desde o dia 02. O filme ”Reze para que o Diabo Volte ao Inferno”, exibido no Cine Odeon, na Cinelândia de tantas histórias, fez o abre-alas, com debate e coquetel na sequência. Encerra-se no final da tarde deste sábado. Reúne cerca de 250 mulheres de todos os cantos do país.

Alguns homens também participam, convidados para a mesa. Um ou outro é repórter em cobertura para a mídia alternativa. Há quem integra a equipe da SPM ou quem acompanhe suas parceiras; há homens trabalhando para suas ONGs-entidades, outros para o próprio evento.

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Rodrigo Vianna, do blogue Escrevinhador e repórter da TV Record, compôs a primeira mesa. Luiz Felipe Miguel, professor do Instituto de Ciência Políticas da UNB, a segunda. Homens de uma geração que acompanha, meio que estupefatos, a “revolução silenciosa” (falo disso na próxima postagem) das mulheres brasileiras.

Vianna falou sobre o preconceito contra a mulher na política, reforçado pela mídia, sobretudo na última campanha eleitoral. Lembrou que as batalhas no campo da cultura e da mentalidade são muito mais longas. E sugeriu que “a masculidade precisa ser reiventada, e a mulher precisa retirar de dentro dela que não dá conta”.

A “mulher pode, sim”, disse a presidenta eleita em seu primeiro discurso público pós-resultado das urnas. Leia crônica desta escriba, postada em outubro neste blogue.

Luiz Felipe apresentou dados de pesquisa sobre a presença da mulher na mídia, trabalho em conjunto com a professora Flávia Pirolli, da UNB. O estudo se deu em cima do acompanhamento das notícias durante três meses  antes e após a campanha eleitoral de 2006. Constatação: a pouca visibilidade da mulher na mídia.

A proporção é de nove homens para cada mulher. Se se retira as populares, que asseguram cor local ao noticiário, sobra muito pouco. Se, ainda, exclui-se destaques da época, como Heloísa Helena, candidata do PSol à Presidência da República; Dilma Roussef e Marta Suplicy, ministras de Estado, não sobra quase mulher nenhuma no noticiário.

“O mundo da política é refratário às mulheres, e a mídia é muito ativa na reprodução e naturalização desse estado de coisas”, observa o professor-pesquisador.

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De Pernambuco, direto da Unicap, onde leciona Comunicação Popular, Ana Veloso foi debatedora. E trouxe para a discussão o imperativo de democratizar a mídia, dentre outros assuntos. Na mesa, despontou Luíza Bairros, socióloga e secretária de Promoção Racial da Bahia (aqui, a programação completa).

Mídia, mulher e poder: Luíza Bairros, Ana Velosos, Maria Betânia Ávila, Rodrigo Vianna e Laura Capriglione, repórter especial da Folha SP

É dela a definição de poder como masculino e sobre as “reações perturbadas” à ocupação de espaço pela mulher, ainda que pequeno, que perpassaram todo o debate sobre A Mídia e as Mulheres no Poder. As diferenças como desigualdades?, no segundo dia do encontro:  “Não há definição de mulher como poderosa. Aquelas que o exercem são taxadas como sargentão, grossas, autoritárias”, aponta.

Luíza não tem dúvidas de que o exercício de poder pelas mulheres tem que ir além da mera ocupação de cargos: “Se não for na perspectiva da mudança, de empoderar e mudar a vida de outras mulheres, não teremos uma definição de poder que caiba em nosso próprio exercício”. Faz todo o sentido.

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Nilcéa Freire, da Secretaria de Políticas para as Mulheres, da Presidência da República; Jacila Melo, do Instituto Patrícia Galvão e Júnia Puglia, da Unifem/ONU-Mulheres, anfitriãs, compuseram a mesa de abertura. Lá, também Benedita da Silva, deputada federal (PT-RJ), a também deputada federal, Sandra Rosado (PSB-RN) e Inês Pandeló, deputada estadual (PT-RJ).

O encontro-seminário nasceu na gestão da ministra, embora ela própria não se considerasse feminista quando foi convidada, na verdade intimada, por Lula a assumir a pasta: “É menos complicado do que a Universidade”, tranquilizou-a o presidente durante a primeira e única conversa. A solenidade de posse já estava preparada e, mimutos depois, Nilcéa tornou-se ministra.

A ministra Nilcéa Freire, ao microfone, tranquiliza as participantes do encontro sobre o futuro das políticas públicas para as mulheres no governo Dilma

A sétima e última edição do Mulher e Mídia sob sua batuta ocorre no momento em que Nilcéa, agora feminista declarada, se prepara para deixar o ministério.  “Os badulaques do poder não me seduzem”, garante. Confessa que precisa de tempo e distanciamento, mas um dia vai escrever “sobre o que significou, para mim, ser ministra do presidente Lula, e ver o Brasil pelos olhos das mulheres brasileiras”.

Nilcéa Freire deixa o posto, exatamente, quando assume a primeira presidenta da República. Não se trata de qualquer mulher, mas de “mulher  da qualidade de Dilma Roussef. Que passou por tudo que passou, sem se acovardar, e teve sua coragem testada ao limite, quando aceitou o convite do presidente Lula para ser sua candidata”, pondera a ministra.

A exemplo de Lula, ela procura tranquilizar as hesitações de setores do movimento quando ao futuro das políticas públicas para mulheres nas mãos de Dilma:  “Tenham certeza de que ela vai continuar e avançar nas políticas públicas para mulheres. E eu vou ajudá-la no que for preciso, dentro ou fora do governo.”

Não obstante, dado as circunstâncias de que tratamos na abertura desta postagem, alerta: “Não vai ser fácil, e ela vai precisar de todas nós”.


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