O legado da guerreira Luiza Bairros: firmeza e lucidez

Luiza Bairros é luz pura energia renovadora - Foto: Ângela Moreira/ Rio, dezembro de 2010
Luiza Bairros é pura luiz e energia renovadora – Foto: Ângela Moreira/ Rio, dezembro de 2010
por Sulamita Esteliam

O Brasil perdeu Luíza Bairros, nesta terça-feira, 12 de julho, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, de câncer de pulmão. Uma mulher iluminada, de energia incomum, firmeza e lucidez invejáveis. É o seu principal legado.

Quis o Universo que seu encantamento, aos 63 anos – completados em 27 de março – se desse exatos dois meses após o afastamento da presidenta legítima, Dilma Rousseff. Bairros foi sua ministra da Igualdade Racial, a primeira à frente da Seppir com status de Ministério.

Tive o privilégio de conhecê-la, há pouco mais de cinco anos, durante o Mulher e Mídia 7, no Rio de Janeiro. Exercia o cargo de secretária de Promoção da Igualdade no governo Jaques Wagner (PT), na Bahia.

Gaúcha da capital,nasceu Luiza Helena de Bairros. Migrou para Salvador em 1979, e foi na Bahia que Bairros iniciou militância no Movimento Negro e também no de Mulheres. Doutora em Sociologia pela Universidade de Michigan, tem no racismo e no sexismo/gênero, base de sua atuação política, seus principais objetos de estudo e escritos.

Reflexões essenciais para a compreensão e ação política para a igualdade de gênero e raça, eis a herança reconhecida pelos movimentos sociais.

Na administração pública, no exercício do Ministério, Luiza Bairros criou o Sinapir – Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Ferramenta que acreditava fortalecer e institucionalizar órgãos, conselhos, ouvidorias permanentes e fóruns voltados para a temática nos estados e municípios.

Dizia ela, e o portal Geledés relembra com precisão, a respeito do papel de cada nível do Estado nas politicas públicas:

“Não existe qualquer possibilidade de uma política pública ser bem-sucedida se o trabalho não for desenvolvido com os entes federados, porque é dessa maneira que se consegue que a política chegue às pessoas. Os resultados desse esforço vão depender também do empenho de governadores e prefeitos na compreensão da política de PIR.”

Coerência é para pouc@s.

Lembro-me a forte impressão que me causou quando assumiu a palavra na mesa que discutia A Mídia e as Mulheres no Poder naquele encontro de 2010. Era a temática central daquele encontro organizado pelo Instituto Patrícia Galvão, com apoio da Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres, do então governo Lula, e da Unifem – Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher.

A pernambucana Ana Veloso, jornalista e professora de Jornalismo, hoje na UFPE, debatedora, trouxe para a mesa a discussão sobre o imperativo da democratização da mídia como forma de evoluir a perspectiva sob a qual são tratadas a mulher e as relações de poder.

Era dezembro de 2010 e Dilma Roussef acabara de ser eleita a primeira mulher presidenta da República do Brasil. E Luiza Bairros ainda não havia sido indicada ministra. Assumiu a palavra com  vigor de quem tem conhecimento de e luta pela causa:

“Não há definição de mulher como poderosa. Aquelas que o exercem são taxadas como sargentão, grossas, autoritárias”.

Trata-se de uma constatação, não de professia. A presidenta Dilma Roussef que o diga. Imagina se fosse negra.

E Luiza Bairros seguiu em frente com o discurso pé-no-chão, que esta escriba traduziu, à época, aqui no A Tal Mineira, e que agora replica com pequenas atualizações no contexto e na forma. Assim mesmo, sem aspas nem itálico, porque fixei-me na apreensão do sentido, não no textual, e, desta feita, me autoplagio:

O poder é masculino. A política é masculina. A imprensa é masculina. Todos os três estão em xeque. E  há reações “perturbadas”, de homens – e de mulheres, também, infelizmente – com a ascensão feminina nesses espaços da sociedade. Ainda que tardia.

Transformações lentas para nós, mulheres – e homens, raros – que lutam pela liberdade e pela igualdade de oportunidades, ou a apóiam. Aceleradas para quem se vê obrigado a conviver sem a acomodação do “cada um no seu lugar”, conforme a jornalista Laura Capligione, então na Folha de São Paulo – hoje na coordenação do coletivo Jornalistas Livres.

A campanha, sórdida, e a eleição de Dilma Roussef para a Presidência da República, a primeira na história deste país, fez aflorar os instintos mais obscuros da sociedade brasileira.

Instintos que se aprofundaram no decorrer do primeiro mandato, na campanha da reeleição, na tentativa de impedir a posse, na sabotagem do segundo governo – erros da gestão à parte -, na traição golpista. E ora, no desmonte do Estado pelo usurpador no desfrute do poder interino, provisório e ilegítimo.

Caiu a máscara da gentileza hipócrita que, mal e porcamente, encobria nosso conservadorismo. Abriu-se a tampa do esgoto.

Sobreveio o fundamentalismo religioso e o destempero que supura preconceitos, vários: machistas, misóginos, racistas, homofóbicos, regionais, de classe.

Melhor que venham à tona; fica menos difícil combatê-los.

Luíza não tinha dúvidas de que o exercício de poder pelas mulheres tem que ir além da mera ocupação de cargos:

“Se não for na perspectiva da mudança, de empoderar e mudar a vida de outras mulheres, não teremos uma definição de poder que caiba em nosso próprio exercício”.

Faz todo o sentido.

Descanse em paz, guerreira.


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