Dilma à RBA: política não é o uso da coisa pública em benefício próprio

A presidenta Dilma Rousseff recebe o carinho do povo em Taboão da Serra, SP, em visita ao Condomínio João Cândido e ato em defesa do Minha Casa Minha Vida Entidades e contra o golpe, sexta passada - Foto: Roberto Stuckert Filho/PR/Fotos Públicas
A presidenta Dilma Rousseff recebe o carinho do povo em Taboão da Serra, SP, em visita ao Condomínio João Cândido e ato em defesa do Minha Casa Minha Vida Entidades e contra o golpe, sexta passada – Foto: Roberto Stuckert Filho/PR/Fotos Públicas
por Sulamita Esteliam

Está de parabéns a equipe da Rede Brasil Atual pela entrevista publicada hoje no portal agência. Consegue aprofundar, e tornar apetecíveis, questões que já foram tratadas nas entrevistas – uma dezena, senão mais – que a presidenta legítima concedeu nesses dois meses de afastamento, que se completam nesta terça-feira, 12.

Experiência e sensibilidade inquestionáveis do trio de repórteres formado por Hilda Cavalcanti, Marilu Cabañas e Paulo Donizetti, este último também editor da Revista do Brasil, que integra RBA – e que tem Dilma na capa da edição de julho.

Melhor, sem descuidar do necessário e desejável tom de humanidade que deve pautar o bom Jornalismo. Enfoque indispensável à compreensão da complexidade da personagem Dilma Vana Rousseff.

Prestam excelente serviço ao mostrar que a presidenta legítima se mantém confiante em conseguir virar o jogo no processo de impedimento que corre no Senado, e retomar seu mandato conquistado nas urnas.

Mais: que está atenta e envolvida, e empenhada, ao seu estilo, em todo o processo político. Que, diga-se, pode resultar num Brasil que se afirma como Nação soberana, menos desigual e partícipe, ou como País de segunda classe, quintal dos interesses predadores – nacionais e multinacionais.

Presidenta legítima, afastada por um golpe parlamentar-jurídico-midiático, que ela própria traduz, reiteradamente  e com veemência, como sendo “injustiça” para si e para com a democracia, engatinhante, mas duramente conquistada.

Andam forçando a barra a propósito do compromisso de convocar o plebiscito ou consulta popular para o povo se manifestar sobre novas eleições. Ao que consta, senadores o exigem como troca dos votos, seis, que Dilma precisa para barrar o impeachment.

O argumento é de que o Brasil se tornaria ainda mais ingovernável nos dois anos e meio que lhe restam de mandato, conquistado nas urnas.  E quem governa com esse Congresso, sobretudo a Câmara, que aí está?

Por acaso os senhores e senhoras senadores/as, incluindo os autores da proposta, concordam em abrir mão dos seus mandatos em prol do Brasil?

E os atuais e futuros candidatos a prefeitos, a deputados, a senadores, à Presidência da República, concordariam em abrir mão dos votos conquistados, porque alguém acha que merece mais do que você o mandato que lhe foi confiado?

E os partidos que se alinham à esquerda, e que hasteam a bandeira da vontade popular, creem que poderiam se dar bem numa eleição no caos que restará com ou sem o afastamento definitivo da presidenta Dilma?

O nome é disso é pacto? Só se for tipo caracu.

Afinal, corrige-se o desrespeito à Constituição e ao voto popular com um remendo que já se aplica roto, é isso!?

Na entrevista, Dilma deixa clara sua visão sobre o “fazer política”:

“Eu não acho que política é o uso da coisa pública em benefício próprio. É o contrário, se faz política tentando atender à necessidade de representação da maioria. Agora sempre há um risco, num momento de crise política como o nosso. A história do Brasil demonstra isso – a eleição de salvadores da pátria não deram muito certo.”

Sem apontar dissensos, a presidenta eleita, e afastada pelo golpe, é firme ao resumir o que é consenso no amalgama de setores que a apoiam; e que deveria ser razão suficiente para os senadores votarem contra o impedimento:

“Queremos restabelecer a democracia, fazer o Brasil voltar a crescer e restabelecer todos os direitos e as ameaças a direitos, tanto as efetivas como as ameaças virtuais, aquelas que ainda vão ocorrer”.

E mais adiante, sobre o golpe parlamentar-jurídico-midiático:

“É um processo grave. Feriu-se a Constituição. Eu sempre falo daquela imagem: é como se você tivesse, se você imaginar que a democracia é uma árvore, no caso do golpe militar você derruba a árvore. Então, se derruba o regime democrático e o governo. No caso desse tipo de golpe que se chama ou golpe branco, ou golpe parlamentar, ou golpe frio, essa árvore é atacada por parasitas.”

Para ela, se o problema é o sistema político, ouvir a sociedade é essencial, e a consulta popular ou plebiscito passa, necessariamente, pela reforma política, pela construção do que ela chama de “unidade nacional”, respeitado o mandato que lhe foi conferido pelas urnas:

“(…) Para o final do meu mandato faltam dois anos e meio. 

E nós vamos ter de reconstruir os processos democráticos, até porque não é possível você supor que os presidentes deste país vão conviver com essa fragilidade, que de repente, alguém discorda de uma eleição decidida por 54 milhões e meio de votos, de pessoas que aprovaram um plano de governo e tentam impor outro.”

Nesse capítulo, é bem interessante o que Dilma levanta na entrevista:

“Há primeiro uma certa consciência de que, se você olhar o processo é muito provável que a consulta popular coincida com a eleição em 2018. Você tem que aprovar o plebiscito, depois aprovar o processo eleitoral e em seguida executar o processo eleitoral.”

Há quem a acuse de anorexia política, de ser geniosa, arrogante, de preocupar-se com a própria biografia. Ultimamente, até “mal-agradecida” se tornou.

Ora, ora… E quem, com sua trajetória, não estaria preocupada em se preservar num cenário em que impera a lama?

E olhe que a acidez da crítica – que pretende capacidade analítica – parte de colegas que frequentam o lado de cá. E que têm, sem perder o veio informativo, desempenhado inestimável contraponto à narrativa da mídia venal, como se sabe, a serviço da plutocracia golpista.

Tudo, por quê? Dilma se recusa a praticar politicagem, a oferecer rapapés e se prestar a troca de favores com congressistas que querem ver sua caveira, e enterrar o Brasil junto.

Volto a perguntar: estaria errada a presidenta Dilma, a legítima, quando se recusa ao toma-lá-dá-cá que tem caracterizado a política brasileira, para ficarmos em nosso território?

Arrisco-me a ser acusada de miopia política ou de falar com o coração de militante. Pouco se me dá.

O que nela apontam como defeito, esta reles blogueira e velha jornalista vê como qualidade, honradez e coragem – aquilo que o velho Rosa define como exigência da vida.

Certamente, se Dilma fosse homem, tais atributos seriam valorizados como devem.

E Dilma cita “a tal frase de Guimarães Rosa” – “O que a vida exige da gente é coragem”  – quando os colegas perguntam se vai escrever um livro, ao fim de tudo isso.

Antes, quando questionam “como ela tem suportado tanta pressão”, graceja: “Couro duro”.

E, adiante, segue o diapasão para falar sobre o papel da família na travessia da turbulência:

” É só um lugar de acolhimento, amizade, carinho. E isso é muito importante. Todo mundo sabe que a vida é dura e cada um faz o seu papel. E eu escolhi o meu.”

Leia a íntegra da entrevista, que fala, detalhadamente, sobre o impacto do desmontes das política sociais e as contradições da farra fiscal que o desgoverno provisório e ilegítimo do usurpador Temer tem praticado.

 

Boa semana de trabalho para nós.

 

 

 

 

 


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s