A Marisa Letícia, com carinho

Por Sulamita Esteliam
Lula e Marisa recebem Dilma e Temer, no alto da rampa do Palácio do Planalto, para a cerimônia da transmissão do cargo presidencial. Foto: Roberto Stuckert Fº,

Quem assistiu a cerimônia de transmissão da faixa presidencial, dia 1º, no Parlatório do Palácio do Planalto, certamente percebeu a forte carga de emoção que permeou a solenidade, sobretudo da presidenta Dilma Roussef, do ex-presidente Lula e da ex-primeira dama, Marisa Letícia. Pode ver, também, ao vivo e em cores, a cumplicidade do casal Lula-Marisa, quando o marido acalenta a esposa, cingindo-a com o braço esquerdo, aconchegando-a, carinhosamente.

Marisa Letícia é mulher de primeira grandeza, em sua discrição e simplicidade ímpar. E é outra mulher do mesmo naipe, a corajosa Hildegard Angel, que lhe faz homenagem mais do que merecida,  que me chegou pela Rede Mulher e Mídia, e que transcrevo mais abaixo.

***************************************

Aliás, a coragem está no DNA de Hildegard. Ela, que é filha da lendária estilista Zuzu
Angel, pioneira da moda com a cara do Brasil. É irmã do ex-militante político Stuart Angel Jones, assassinado nos porões do DOI-CODI na década de 70. O corpo, como centenas de outros, jamais foi encontrado.

A luta de Zuzu, nascida Zuleika, virou filme, estrelado por Patrícia Pilar. Fotos: reprodução

Zuzu, mineira de Curvelo, criada em Belo Horizonte, nasceu para o mundo no Rio de Janeiro, para onde se mudou na década de 50 e projetou sua carreira de estilista. Ousou enfrentar os coturnos, em plena ditadura, à procura do corpo do filho. Usou seu prestígio internacional, e a nacionalidade norte-americana do ex-marido, pai de seus filhos, para denunciar o terror de Estado. Pagou com a vida:um acidente de carro na Estrada da Gávea, à saída do Túnel Dois Irmãos, no Rio, a levou, na madrugada de 14 de abril de 1976 -em circuntâncias muito mal esclarecidas, até hoje.

Hildegard Angel apresentou Dilma Roussef a Lili Marinho, viúva de Roberto Marinho, das Organizações Globo, falecida esta semana. Em pleno tiroteio da mídia, sobretudo do império de comunicação comandado por seus enteados, dona Lili organizou um almoço para a candidata do PT. Ao contrário do que aconteceria nos tempos de seu marido, não convidou os demais candidatos presidenciais para convescote semelhante. Pelo gesto, no mínimo de independência, aproveito a postagem para registrar, também, aqui e aqui a homenagem que Hildegard faz a Lili, sua amiga pessoal, falecida dia 05, e enterrada nesse Dia de Reis.

****************************************

5/01/2011 – ARTIGO

Marisa Letícia Lula da Silva: palavras que precisavam ser ditas

Hildegard Angel*- do Blog da autora
Marisa Letícia: singeleza engajada na valorização do artesanato brasileiro. Foto capturada no Blog da Hildegard Angel

Foram oito anos de bombardeio intenso, tiroteio de deboches, ofensas de todo
jeito, ridicularia, referências mordazes, críticas cruéis, calúnias até. E sem
o conforto das contrapartidas. Jamais foi chamada de “a Cara” por ninguém, nem
teve a imprensa internacional a lhe tecer elogios, muito menos admiradores
políticos e partidários fizeram sua defesa. À “companheira” número 1 da
República, muito osso, afagos poucos.

Dirão os de sempre, e as mordomias? As facilidades? O vidão? E eu rebaterei: E
o fim da privacidade? A imprensa sempre de olho, botando lente de aumento pra
encontrar defeito? E as hostilidades públicas? E as desfeitas? E a maneira
desrespeitosa com que foi constantemente tratada, sem a menor cerimônia, por
grande parte da mídia? Arremedando-a, desfeiteando-a, diminuindo-a? E as
frequentes provas de desconfiança, daqui e dali? E – pior de tudo – os boatos
infundados e maldosos, com o fim exclusivo e único de desagregar o casal, a
família?

Ah, meus queridos, Marisa Letícia Lula da Silva precisou ter coragem e estômago
para suportar esses oito anos de maledicências e ataques. E ela teve.

Começaram criticando-a por estar sempre ao lado do marido nas solenidades. Como
se acompanhar o parceiro não fosse o papel tradicional da mulher mãe de família
em nossa sociedade.

Depois, implicaram com o silêncio dela, a “mudez”, a maneira quieta de ser. Na
verdade, uma prova mais do que evidente de sua sabedoria. Falar o quê, quando,
todos sabem, primeira-dama não é cargo, não é emprego, não é profissão?

Ah, mas tudo que “eles” queriam era ver dona Marisa Letícia se atrapalhar com
as palavras para, mais uma vez, com aquela crueldade venenosa que lhes é
peculiar, compará-la à antecessora, Ruth Cardoso, com seu colar pomposo de
doutorados e mestrados.

Agora, me digam, quantas mulheres neste grande e pujante país podem se
vangloriar de ter um doutorado? Assim como, por outro lado, não são tantas as
mulheres no Brasil que conseguem manter em harmonia uma família discreta e
reservada, como tem Marisa Letícia.

E não são também em grande número aquelas que contam, durante e depois de
tantos anos de casamento, com o respeito implícito e explícito do marido, as
boas ausências sempre feitas por Luís Inácio Lula da Silva a ela, o carinho
frequentemente manifestado por ele. E isso não é um mérito? Não é um exemplo
bom?

Passemos agora às desfeitas ao que, no entanto, eu considero o mérito mais
relevante de nossa ex-primeira-dama: a brasilidade.

Foi um apedrejamento sem trégua, quando Marisa Letícia, ao lado do marido
presidente, decidiu abrir a Granja do Torto para as festas juninas. A mais
singela de nossas festas populares, aquela com Brasil nas veias, celebrando os
santos de nossas preferências, nossa culinária, os jogos e brincadeiras.
Prestigiando o povo brasileiro no que tem de melhor: a simplicidade sábia dos
Jecas Tatus, a convivência fraterna, o riso solto, a ingenuidade bonita da vida
rural. Fizeram chacota por Lula colar bandeirinhas com dona Marisa, como se a
cumplicidade do casal lhes causasse desconforto.

Imprensa colonizada e tola, metida a chique. Fazem lembrar “emergentes” metidos
a sebo que jamais poderiam entender a beleza de um pau de sebo “arrodeado” de
fitinhas coloridas. Jornalistas mais criteriosos saberiam que a devoção de
Marisa pelo Santo Antônio, levado pelo presidente em estandarte nas procissões,
não é aprendida, nem inventada. É legitimidade pura. Filha de um Antônio
(Antônio João Casa), de família de agricultores italianos imigrantes, lombardos
lá de Bérgamo, Marisa até os cinco de idade viveu num sítio com os dez irmãos,
onde o avô paterno, Giovanni Casa, devotíssimo, construiu uma capela de Santo
Antônio. Até hoje ela existe, está lá pra quem quiser conferir, no bairro que
leva o nome da família de Marisa, Bairro dos Casa, onde antes foi o sítio de
suas raízes, na periferia de São Bernardo do Campo. Os Casa, de Marisa Letícia,
meus amores, foram tão imigrantes quanto os Matarazzo e outros tantos, que
ajudaram a construir o Brasil.

Outro traço brasileiro dela, que acho lindo, é o prestígio às cores nacionais,
sempre reverenciadas em suas roupas no Dia da Pátria. Obras de costureiros
nossos, nomes brasileiros, sem os abstracionismos fashion de quem gosta de
copiar a moda estrangeira. Eram os coletes de crochê, os bordados artesanais,
as rendas nossas de cada dia. Isso sim é ser chique, o resto é conversa fiada.

No poder, ao lado do marido, ela claramente se empenhou em fazer bonito nas
viagens, nas visitas oficiais, nas cerimônias protocolares. Qualquer olhar
atento percebe que, a partir do momento em que se vestir bem passou a ser uma
preocupação, Marisa Letícia evoluiu a cada dia, refinou-se, depurou o gosto,
dando um olé geral em sua última aparição como primeira-dama do Brasil, na
cerimônia de sábado passado, no Palácio do Planalto, quando, desculpem-me as
demais, era seguramente a presença feminina mais elegante. Evoluiu no corte do
cabelo, no penteado, na maquiagem e, até, nos tão criticados reparos estéticos,
que a fizeram mais jovem e bonita.

Atire a primeira pedra a mulher que, em posição de grande visibilidade, não fez
uma plástica, não deu uma puxadinha leve, não aplicou uma injeçãozinha básica
de botox, mesmo que light, ou não recorreu aos cremes noturnos. Ora essa,
façam-me o favor! Cobraram de Marisa Letícia um “trabalho social nacional”,
um projeto amplo nos moldes do Comunidade Solidária de Ruth Cardoso. Pura
malícia de quem queria vê-la cair na armadilha e se enrascar numa das mais
difíceis, delicadas e técnicas esferas de atuação: a área social.

Inteligente, Marisa Letícia dedicou-se ao que ela sempre melhor soube fazer:
ser esteio do marido, ser seu regaço, seu sossego. Escutá-lo e, se necessário,
opinar. Transmitir-lhe confiança e firmeza. E isso, segundo declarações dadas
por ele, ela sempre fez. Foi quem saiu às ruas em passeata, mobilizando
centenas de mulheres, quando os maridos delas, sindicalistas, estavam na
prisão. Foi quem costurou a primeira bandeira do PT. E, corajosa, arriscou a
pele, franqueando sua casa às reuniões dos metalúrgicos, quando a ditadura
proibiu os sindicatos. Foi companheira, foi amiga e leal ao marido o tempo
todo.

Foi amável e cordial com todos que dela se aproximaram. Não há um único relato
de episódio de arrogância ou desfeita feita por ela a alguém, como
primeira-dama do país. A dona de casa que cuida do jardim, planta horta, se
preocupa com a dieta do maridão e protege a família formou e forma, com Lula,
um verdadeiro casal. Daqueles que, infelizmente, cada vez mais escasseiam.
Este é o meu reconhecimento ao papel muito bem desempenhado por Marisa Letícia
Lula da Silva nesses oito anos.

Tivesse dito tudo isso antes, eu seria chamada de bajuladora. Esperei-a deixar o
poder para lhe fazer a Justiça que merece.

*Hidegard Angel é colunista social no Rio de Janeiro, filha da estilista Zuzu
Angel e irmã do ex-militante político Stuart Angel Jones; trabalhou como atriz
no cinema e na televisão na década de 1970, dedicou-se ao colunismo social no
jornal O Globo e desde 2003 no Jornal do Brasil.

3 comentários

  1. Sula,

    Adorei o seu blog. Nao conhecia e a Elminha, quem eu amo de paixao, me passou. Nao sei se vc ainda se lembra de mim, mas sou mineirinha, como vc, morando em NY h’a quase 10 anos. Tenho muita saudade do nosso tempo. Me lembro de quando estive em Recife com vc. Quem sabe a gente nao se encontra novamente? Quem sabe vc nao vem a NY algum dia e fica aqui em casa? Estou com a minha pequena no meu colo, depois escrevo mais.

    saudade,
    Vilma

    1. Vilma, confesso que me deu branco. Mas, definitivamente, isso é passageiro e não é motivo para que nós nãos nos reencontremos – aliás já o estamos fazendo, ainda que virtualmente, né não…? NY tá difícil, mas obrigada pela oferta de hospitalidade. Quem sabe vc não vem matar as saudades desses trópicos, trazer sua pequena para um banho de mar e sol? Obrigada pela palavras calientes, e mantenhamos contato. Xêro

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s