Sobre Carnaval, violência e a morte dos nossos jovens

por Sulamita Esteliam
Caboclo de lança, personagem-símbolo do maracatu rural, um dos ritmos tradicionais do carnaval pernambucano - foto: Brasilira

Carnaval é tempo de alegria, de soltar a criança que existe dentro da gente, botar o bloco na rua e brincar. Nestes trópicos, costuma-se dizer que o ano só começa depois que Momo joga coroa, cetro e manto no baú da fantasia – até o próximo reinado. Mas Carnaval é, também, tempo de excessos de toda sorte. A catarse coletiva é boa terapia. Entretanto, é preciso cuidado para não estragar a festa e os bons efeitos que ela provoca em cada um de nós, foliões e foliãs inveterados, e no todo que nos cerca .

Quarta-feira de Cinzas comporta ressacas, mas é melhor que não caiba tristezas que impeçam a vida de seguir seu rumo.

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A propósito, as notícias da semana passada acentuam nossas preocupações com o galopar da barbárie em terras brasileiras, que assume proporções de guerra civil. Leia o que diz a BBCBrasil. Evidentemente, que não se trata do Carnaval, apenas. Acontece que a violência costuma escancarar-se em períodos onde a celebração deveria ser a tônica.

Falo dos resultados do Mapa da Violência 2011, divulgados na quinta-feira, 24. Nossos jovens, continuam morrendo, feito formiga – de morte matada, acidente de trânsito ou suicídio. E é preciso dar um basta em tudo isso, ainda que tenha se tornado cultural.

Não com palavras e manifestação de intenções – o inferno anda cheio de bons ditos. Diagnósticos, somente, não bastam. Urge políticas públicas consistentes, que não premiem a impunidade, mas que contemplem educação, emprego, geração e distribuição de renda equânimes; cultura, lazer, opotunidades. Numa palavra, cidadania.

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Foto capturada na Galeria do Leley/Flickr, sem crédito do autor ou autora

O estudo do Instituto Sangari, em parceria com o Ministério da Justiça, não deixa dúvidas sobre é preciso fazer algo a respeito: de 1980 a 2008, a taxa de mortes violentas subiu 76%. Em 28 anos, a taxa de óbitos por grupo de 100 mil habitantes pulou de 30% para 52,9% indivíduos entre pessoas na faixa etária de 15 a 24 anos. No período, o número total de homicídios cresceu 17,8%, ao passar de 41,9 mil para 50,1 mil. Aqui a cobertura da Agência Brasil. Leia, também o Blog do Planalto.

Os homicídios são responsáveis por nada menos que 39,7% das mortes de jovens brasileiros, sobretudo na faixa de 19 a 23 anos, aponta o coordenador da pesquisa, sociólogo Júlio Jacobo Waiselfisz. E se esse tipo de violência vem caindo, pouco, nas capitais e regiões metropolitanas, cresce no interior, constata o estudo.

Em alguns estados, mais da metade dos jovens morre assassinada. A taxa de homicídio juvenil mais alta é do estado de Alagoas, 125,3. O Espírito Santo vem em segundo lugar, com 120, seguido por Pernambuco, 106,1, Distrito Federal, 77,2 e Rio de Janeiro, 76,9.

Não se trata de números. Trata-se de vidas. É futuro do país que se perde na estupidez humana e na cegueira da nossa sociedade e do poder público.

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Sobre o assunto, leia a crônica-artigo Em situação de risco, desta escriba, publicada por Carta Maior em julho do ano passado.


8 comentários sobre “Sobre Carnaval, violência e a morte dos nossos jovens

    1. Taí uma pergunta difícil de responder, Natálya, e faz dias, dada a incidência de pesquisa a respeito no blogue, e acontecimentos paralelos, venho pensando a respeito para poder escrever. Primeiro, na minha opinião, é preciso perguntar se a violência durante a folia é maior do que em outros períodos do ano, ou, no mínimo em outras épocas de festas que resultam em grande aglomeração de pessoas, de diferentes índoles, e que podem induzir a excessos de toda natureza, a começar pelo consumo exagerado de álcool. E sempre haverá gente disposta a aproveitar-se das circunstâncias. Afinal quem brinca carnaval é da raça humana, com todas nossas qualidades e nossos defeitos.

      Mas se você pesquisar na rede, vai verificar que, em Pernambuco, por exemplo, onde o Carnaval tem características bem próprias, de povo na rua, no estado inteiro, o número de ocorrências classificadas como violentas durante o período de Momo vem se reduzindo ano a ano. Pelo menos é o que mostram os balanços apresentados pelas prefeituras, sobretudo do Recife e de Olinda, onde o volume da festa é maior.

      Isso porque o poder público, nos planos estadual e municipal – as autoridades – têm cumprido seu papel, aumentando a vigilância: com mais polícia na rua, melhor treinada para lidar com foliões e com multidões; câmeras de segurança ao longo dos focos da brincadeira; postos de atendimento e informação em locais estratégicos dos circuitos carnavalescos; transporte coletivo específico e mais ágil, interligando os polos; campanhas educativas que estimulam a alegria, as tradições e a cultura da paz.

      Creio que é por aí. Espero ter ajudado.

      Quando postar o texto no blogue, mando o link para seu correio eletrônico.

      Boa sorte, e obrigada por visitar este sítio.

      Xêros.

      Sulamita Esteliam

    1. Oi, Sterfanny!
      Que tal vc falar sobre assédio na folia, de como esse tipo de violência macula a alegria do Carnaval. Tem material farto na internet. Inclusive, tem um grupo de mulheres em Belo Horizonte, que lançam nesta segunda, 20, campanha de combate ao assédio nesse período. Vai ser no Sindicato dos Jornalistas (www.sEstá no Facebook: http://www.facebook.com/events/2142453423811293/?ti=icl.

      Boa sorte e obrigada pelo acesso e comentário.

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