Blogo, blogas, bloguemos

Sulamita Esteliam* 

Uma coleguinha da Rede Brasil Atual fez esta foto

No #2BlogProg – 2º Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, em Brasília, junho último – aqui no blogue -, Geórgia Pinheiro aponta a câmera na minha direção e clica uma, duas vezes. Tiro os olhos do meu computador portátil, encaro a lente e sorrio. Ela aciona o botão mais uma vez, baixa a máquina e se dirige a mim:

– Sulamita, não é?

– Isso mesmo – respondo, me levantando para cumprimentá-la.

– Você falou, lá, no Encontro de Pernambuco. Achei sua história muito interessante.

Agradeço, ela anota meu nome completo, o nome do blogue e vai continuar seu trabalho, desejando-me “boa sorte”.

A moça, boa de foco e de memória – claro que meu indefectível chapéu ajuda -, é também boa de conta. Trata-se da jovem, e competente, companheira de Paulo Henrique Amorim, dublê de jornalista televisivo e blogueiro. É ele o piloto do Conversa Afiada, um dos endereços mais polêmicos da blogosfera. Mas é ela quem garante a captação de recursos, as finanças do blogue. É verdade que o sítio ostenta milhares de acessos diários – 5,6 milhões em setembro de 2010, auge da campanha presidencial.

E, anote-se, também alvo de dezenas de processos judiciais. Já são 37 contabilizados, dentre os quais uma dúzia movidos por Daniel Dantas, o banqueiro pego na Operação Satiagraha, do ex-delegado e hoje deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), mas livrado pelo STF de Gilmar Mendes e que tais. Como diz PHA, “diz-me quem te processa e eu lhe direi quem tu és”.

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Há blogues e blogues, entretanto. Tem os grandes, pilotados por jornalistas de renome, que se alinham na blogosfera alternativa. Estruturados e autosustentáveis. Tem os médios, mas caminhando em ritmo acelerado rumo à autosustentação, conduzidos, não necessariamente, por jornalistas. E tem os nanicos: a grandessíssima maioria no “nosso campo”. Presentes no encontro de Brasília éramos mais de 400 dos mais de 600 inscritos. O número, entretanto, é muito maior.

O A Tal Mineira, o blogue que eu piloto, é um nanico que se orgulha de beirar, recentemente, mil acessos semanais. E temos menos de um ano em atividade – desde 11 de setembro de 2010. É atualizado diariamente, cinco vezes por semana. E tem esta cabeça e estes braços a dirigi-lo e sustentá-lo, pois que a equipe sou Euzinha e patrocínio não há, ainda.

Há quem, como eu, opte por abrir trilhas, individualmente, somando no essencial: a razão de blogarmos. Alguns se ancoram em redes, como Teia Livre, Rede Liberdade, Terceiro Setor, Blogueiras Feministas, dentre outras.

É uma opção de fortalecimento, via coletivo. Tanto na perspectiva da obtenção de patrocínios pela multiplicação de acessos – é o número de acessos que torna um blogue palatável para anúncios. Como no aspecto da proteção jurídica e, até, física: PHA não é o único blogueiro a quem tentam calar pelo bolso. O Cloaca News, que tem o PIG – Partido da Imprensa Golpista como seu alvo preferencial, chega a publicar o número do IP bem visível, e desafia: “Processe o Cloaca News”.

Só que advogados custam dinheiro, e a maioria “não é artista de televisão” – conforme PHA – que pode arcar com tais ônus. Um fundo está sendo criado para garantir a defesa daqueles que não podem bancar os custos de demandas desta natureza. O lastro inicial virá de sobras dos recursos de patrocínios do #2BlogProg, às quais serão agregadas contribuições de associados ou cooperados. O Centro de Estudos de Mídia Barão de Itararé, que organiza a Blogosfera Progressista, vai gerir o fundo.

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Blogueiro é também profissão perigo, assim como jornalista. Recentemente, foi assassinado Ednaldo Filgueira, de 36 anos, blogueiro do Jornal Serrano; segundo consta, por questionar as contas da Prefeitura de Serra do Mel, RN. Ele também presidia o PT local. Há blogueiro sob ameaça no Ceará e no Pará. Mas não precisamos ir longe. Há quem teve que abandonar sua cidade, no interior de São Paulo para salvar a pele. No Espírito Santo, Antuérpio Petersen Filho, do Grito Cidadão, está com a vida sob ameaça, por denunciar o delegado de polícia, Júlio César de Oliveira Filho, como remanescente do Esquadrão da Morte.

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O que nos une

Lula da Silva, na abertura do #2BlogProg, em Brasília - Sulamita Esteliam

A blogosfera é feito coração de mãe: cabe tudo e todo mundo – para o bem e para o mal. Mesmo na parcela alternativa, que se convenciona chamar progressista, ou “suja”, como a rotulou o então adversário de Dilma Roussef nas eleições presidenciais de 2010, o Zé Bolinha-de-papel-demolidora.

Luiz Inácio Lula da Silva, aliás, se referiu ao episódio ao agradecer os blogueiros “sujos” pelo papel que desempenharam na manutenção da democracia brasileira. Estrela da abertura do #2BlogProg, Lula estava com a corda toda; do jeito que o diabo gosta e a mídia nativa abomina:

“Como ex-presidente, eu sei bem o que vocês fizeram para o país. Não vou me esquecer nunca o papel que vocês tiveram na  defesa da liberdade de expressão neste país. Durante os oito anos do meu governo e, sobretudo, na eleição do ano passado. Vocês evitaram que a sociedade brasileira fosse manipulada, como foi por muito tempo. Vocês evitaram que os chamados falsos formadores de opinião pública que, às vezes, não convencem nem quem está em casa assistindo, ditassem regras.”

O que une a blogosfera progressista é a luta pela democracia na comunicação, entendida como direito humano – como o são a saúde, educação, terra, o trabalho, a moradia. Significa, entre outras coisas apontadas na Carta de Brasília:

1)    Marco Regulatório que contemple o fim da propriedade cruzada dos meios de comunicação privados no Brasil.

2)    PNBL – Plano Nacional de Banda Larga que atenda ao interesse público, com  internet de alta velocidade para todos os brasileiros. Apoio total à PEC da Banda Larga que tramita no Congresso Nacional.

3)    Contra qualquer tipo de censura ou restrição à internet. No Legislativo, tramita projeto do senador tucano Eduardo Azeredo (MG) de controle e vigilância sobre a internet – batizado de AI-5 Digital. Ao mesmo tempo, governantes e monopólios de comunicação intensificam a perseguição aos blogueiros em várias partes do país, num processo crescente de censura pela via judicial.

4)    Marco Civil da Internet, a ser encaminhado pelo Poder Executivo ao Congresso Nacional.

5)    Fortalecer o movimento da blogosfera progressista, garantindo o seu caráter plural e democrático.

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Por que blogamos

Blogar é trabalhoso, requer tempo, dedicação e responsabilidade. Se a escolha é a informação – há blogues de outra natureza – ela é trama delicada, que precisa ser bem tecida. E na blogosfera, ganha velocidade impensável e poder de fogo multiplicador – vide as chamadas primaveras – árabe, espanhola e que tais.

Como diz Lula, “o sucesso dos blogueiros independentes e livres é a seriedade. Temos que ganhar deles (da velha mídia e acólitos) na imagem que a sociedade vai ter da gente.”

Cada postagem exige pesquisa e checagem de assunto e/ou imagem, seja na rede, seja na rua. Mais ainda se você não se restringe a reproduzir o que é publicado aqui, acolá ou alhures. Mesmo se não se limita a uma temática ou apenas ao umbigo.

Por isso, só comecei a blogar depois que me tornaram, por razões políticas, aposentada-desempregada. Ainda que o meu namoro com a blogosfera tenha se iniciado muito antes, por força da profissão e do trabalho, e por força da trilha que escolhi para caminhar profissionalmente. Sobretudo, a partir de 2005, quando a crise político-midiática, que tentou levar o governo popular do Brasil ao impedimento, obrigou à escolha de lados.

Alinhei-me, de pronto, com a resistência na rede. Fosse escrevendo para sítios alternativos, com o La Insígnia, Forum, Carta Maior. Fosse me rendendo ao Orkut, Twitter e, mais recentemente, ao Facebook. Foi nesta condição que participei do 1º Encontro de Blogueiros, em São Paulo, no final de agosto do ano passado. Fui aprender a blogar. Dez dias depois, botei A Tal Mineira no ar.

Mas, alguns estarão a perguntar: se não rende dinheiro, então, por que blogas?

Blogo porque sou palpiteira por natureza. Blogo porque sou jornalista e me acostumei a dar notícias. Blogo porque gosto de, e preciso, escrever. Blogo porque estou viva e quero me manter e sentir útil. Blogo para ter um espaço onde possa militar, sem censura, pelo de sempre e pelo que me aponta o nariz: política, comunicação, direitos humanos, saúde, meio ambiente, cultura, educação, cidadania.

Blogo porque existo. Para sobreviver faço freela.

*Texto escrito para O Cometa Itabirano, em 06.07.2011

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