O muro social da educação

por Sulamita Esteliam
Charge capturada em academiae.wordpress.com

Sou da época em que o ensino público era a mola-mestra da educação brasileira. Mas o acesso às melhores escolas, nas grandes cidades, já então, privilegiava os bem-nascidos, moradores de áreas centrais. A periferia ficava alijada.

Ainda assim, o nível de ensino não estava aquém do que era oferecido nas particulares que o bolso dos pobres suportava bancar. Digo porque frequentei os dois lados do balcão – na meninice e na adolescência. Somadas, as experiências – e alguma dedicação – permitiram-me o acesso à universidade pública, sem passagem por cursinhos, filão estabelecido já no início dos anos 70.

A coisa não mudou de figura, desde então. Minhas crias estudaram em escolas particulares, exceção de uma temporada de três anos em Brasília, anos 90 em curso. Migrada para a classe média, não tive coragem de colocá-los nas escolas do Estado disponíveis no entorno da nossa casa, embora não vivéssemos, mais, em áreas tão periféricas.

Decisão individual que, no aspecto coletivo, tornou-se política. Inegavelmente, nós, os pais classe-média com atitude semelhante, contribuímos para o ensino público descer ladeira abaixo. Hoje reconheço.

Entretanto, a escola pública permanece em descrédito nos dias atuais. A revista CartaCapital, edição 675, traz reportagem a respeito da qualidade de ensino e cita pesquisa recente do DataPopular: constata que 57% das famílias das classes C, D e E creem que o ensino público tem piorado. E por isso tendem, quando podem, matricular os filhos em escolas particulares – que nem sempre oferecem o que vendem.

Ainda que a Educação seja prioridade das famílias, e dos discursos de nossos políticos, o Brasil aplica menos de 5% do PIB no setor. Há o compromisso do governo em elevar os investimentos em 2012, mas o Congresso fixou em 8% a meta do PNE – Plano Nacional de Educação para 2020. Estudos da Associação Nacional de Pesquisa em Educação indicam que o mínimo para avançar seria 10%, já.

A propósito, CartaCapital da semana passada, 677, traz entrevista interessante sobre o assunto, com o presidente da referida associação, professor José Marcelino Rezende, da USP Ribeirão Preto. Ele diz que a proposta do Congresso deixa o PNE no papel. De novo.

A realidade não inspira vacilos. Leio no Correio do Brasil, notícia Agência Brasil, que a taxa de analfabetismo entre jovens de 15 anos, que vivem em favelas brasileiras, é de 8,4%. É o dobro da observada em áreas urbanas onde estão inseridas tais comunidades, e apenas um pouco abaixo do índice para o país como um todo, que é 9,6%.

Tais números são ainda mais perversos em algumas regiões. Em Alagoas, por exemplo, onde 26,7% das pessoas que moram em favelas ou assemelhados são analfabetas; na Paraíba, 21,3% e no Rio Grande do Norte, 16,3%.

Esse extrato, jovem e desletrado, tem 27,9 anos, em média, comparados aos 32,7 anos médios de quem vive em áreas urbanas ditas normais. É parda em mais de 55%, que somados aos 12,9% de pretos, formam a maioria gritante de negros. Ganha de meio a um salário mínimo (34%), enquanto nas habitações regulares o percentual é de 26%; apenas 4,6 destes moradores favelas tem renda superior a dois salários mínimos, para 27,1% quem vive nas áreas urbanas ditas normais.

São dados de recorte do Censo Demográfico 2010, do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, divulgado na quarta, 21, com o sugestivo título Aglomerados Subnormais – Primeiros Resultados. Submoradias onde vivem  6% da população, 11,4 milhões de brasileiros e brasileiras.

Convergem para outro estudo, este da Unicef, divulgado em 30 de novembro, segundo o qual um quinto dos jovens de 15 a 17 anos está fora da escola – o percentual para a faixa de 6 a 14 anos, é de 3%. Obviamente, esses jovens vivem em família de extrema pobreza, sujeitos, também, a toda sorte de violência, inclusive assassinato e abuso sexual.

Números que dão a medida de quem são os humilhados. É o retrato em preto e branco do muro social que faz recrudescer as desigualdades a alimentar a reprodução de cidadãos e cidadãs de segunda classe no Brasil.

E que refletem as dificuldades de acesso às salas de aulas e as deficiências do ensino. Ainda hoje. A despeito dos avanços, pois que 500 anos de desmandos e quatro décadas de abandono do sistema público deixam marcas indeléveis.

Daí que não fica difícil entender quem está na universidade pública, por exemplo: se é aluno, reclama da qualidade do ensino, que teria caído a níveis críticos; se é professor, reclama das condições de trabalho, e se espanta com o baixo nível e a dificuldade de aprendizado dos alunos egressos, particularmente, das escolas públicas.

Alegam que a abertura em massa de vagas, via Enem – Exame Nacional do Ensino Médio, não tem sido acompanhada do devido investimento na formação e no salário dos professores, por exemplo. E olha que a abertura de vagas ainda é insuficiente. O buraco, certamente, é mais embaixo.

De qualquer modo, retirada a carga de preconceito que as críticas, fatalmente, carregam, a imagem que fica é a de um cachorro correndo atrás do próprio rabo.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s