Povo cigano: “holocausto silencioso” sob a invisibilidade do preconceito

por Sulamita Esteliam
Vicent Van Gogh: The Caravans - Gypsy Camp near Arles - capturada no Wikipédia

No segundo dia do meu ano real, de trabalho, falemos de coisas desagradáveis. Mais incômodas do que uma pedra no sapato, ou “a ponta de um torturante band-aid no calcanhar”, com licença do poeta. Falemos de racismo, preconceito e discriminação, que impõem a miséria e a exclusão social. E que os fazem invisíveis aos olhos da gente e do Estado, adormecidos. Um “holocausto silencioso”, que dizima mulheres e crianças, homens e velhos, desde antanho. Falemos do povo cigano.

Quem me provoca é Bernadete Lage Rocha, professora mineira – de idiomas, em comentário neste blogue, a propósito do texto-balanço e de boas-festas. Na verdade, escolheu ao léu, tão somente para divulgar a causa da qual se dedica, num trabalho de formiguinha, desde maio de 2011.

Com algumas pequenas, mas significativas, colheitas: como em São Paulo, onde a Coordenadoria da População Negra e Indígena trabalha, desde maio de 2011, a inclusão de ciganos naquele estado. É o que comunica resposta da Ouvidoria da Justiça, há poucos meses, à professora Bernadete Lage.

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Pedi, por correio eletrônico e em mensagem pública no blogue, autorização para reproduzir o texto do comentário e fotos para publicar. Acabo de falar com ela, que me ligou lá de Viçosa, Zona da Mata de Minas. A expressão “holocausto silencioso” é dela: “Sempre que me aproximo deles, peço desculpas pela estupidez humana”, confessa.

Uma estupidez, registre-se, que vem de tempos imemoriais, nos quatro cantos do Planeta. E permanece, injustificavelmente, no chamado “primeiro mundo” ocidental , no Leste Europeu e no Oriente -vide episódios recentes na França e na Itália – e onde quer que estejam. No Brasil, que detém uma das maiores concentrações de ciganos do mundo, não é diferente. Leia o manifesto e vai entender por quê.

Alô, alô, senhora presidenta da República do Brasil, Dilma Roussef! Alô, alô ministra Luiza Bairros, da Sepir – Secretaria de Políticas para Igualdade Racial! Alô, alô, ministra Maria do Rosário, da SeDH – Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos Humanos! Alô, alô ativistas do MNDH – Movimento Nacional de Direitos Humanos!

Temos mais uma frente de batalha.

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Eis a mensagem-manifesto:

A Toda Sociedade Brasileira.
Abaixo, manifesto nacional por melhoria da condição de um povo com o estigma doloroso de vidas – 800.000 pessoas, 90% analfabetos, segundo o IBGE – relegadas ao abandono e à execração pública diária. Resolvemos apelar para a compaixão e a responsabilidade civil de todos os segmentos da sociedade, por puro cansaço de anos de tentativa inglória de amenizar a dor do despertencimento.

Estamos enviando-lhes este manifesto de pedido de socorro imediato ao Povo Cigano, para que todos se sensibilizem e interfiram junto aos órgãos competentes, para incluí-los nas políticas públicas de saúde, educação, erradicação da miséria e de comportamentos preconceituosos que causam tanto sofrimento a esses seres à margem da vida. O momento é este, já que nosso governo tem se ocupado em diminuir a miséria em nosso país.

Nós, voluntários do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente, APAC, Casa de Passagem, e na cidade de Viçosa, Minas Gerais, além do Forum Mundial Social – Mineiro e diversas outras entidades requeremos as medidas emergenciais de inclusão destes brasileiros, que já nascem massacrados pelo fardo vitalício da dor do aviltamento e segregação atávica em nossa sociedade, desabrigados que são da prática do macroprincípio da dignidade da pessoa humana, telhado da Constituição.

Cliquem no link abaixo, no artigo da SEPPIR, que confirma a situação deles. E, por favor, leiam o anexo.
http://noticias.r7.com/brasil/noticias/falta-de-politicas-publicas-para-ciganos-e-desafio-para-o-governo-20110524.html

Se nosso país tornou-se referência em crescimento econômico, certamente conseguirá sê-lo também em compaixão e acolhimento dessa causa universal.


DE GENTE ESTRANHA, em caravana.
Dolorosamente incômoda.
Ciganos.

Descobrimos, perplexos, que suas famílias são excluídas dos programas de bolsa-família, saúde, educação, profilaxia dentária, vacinas etc. Sua existência se torna mais dramática, pois não conseguem os benefícios do governo por não terem endereço fixo. Segundo o IBGE, são cerca de 800.000, 90% analfabetos.

Há seis anos, resolvemos visitar um acampamento em Teixeiras, perto de Viçosa. E o que vimos foi estarrecedor: idosas, quase cegas, com catarata. Pais, silenciosamente angustiados, esperando os filhos aprenderem a ler em curto espaço de tempo, até serem despejados da cidade. Levamos ao médico crianças que “tinham problema de cabeça”. E eram normais. Apenas sofriam um tipo diferente de bullyng, ignoradas, invisíveis que são. Chefes de família com pressão altíssima e congelados pelo medo de deixarem os seus ao desamparo.

Vida itinerante. Numa bolha, impermeável. Forasteiros no próprio país. Dor sem volta. Passamos a visitar todos que aqui vem. E a conviver com o drama de mulheres grávidas, anêmicas e sem enxoval. Crianças analfabetas aos dez, onze anos.

Sugeriram-nos que eles precisam se organizar e reivindicar. Ora, alguém já viu seqüestrado negociar com sequestrador? Como pessoas reféns do analfabetismo, execradas publicamente todos os dias de suas vidas, amordaçadas pelo preconceito e com filhos para alimentar conseguirão lutar por algo? Vide a Pirâmide de Maslow. Quem tem que gritar somos nós. Para eles não sobra tempo de aprender o ofício da libertação, já que são compulsoriamente nômades – sempre partem porque os donos dos terrenos ou algum prefeito pressionado expede a ordem de saída.

A gente descobre, atordoada, que desde a primeira diáspora, quando passaram a viver à deriva, sempre expulsos, eles vivem numa cápsula do tempo. Conservam os mesmos hábitos daquela época, ou seja, sociedade patriarcal, vestuário, casamento prematuro, a prática de escambo e a mesma língua dos antepassados. Tudo isto PORQUE NÃO PARTICIPAM DAS TRANSFORMAÇÕES DA CIVILIZAÇÃO. Jamais têm acesso às benesses das pesquisas tecnológicas e científicas, aos programas governamentais de erradicação da miséria, às celebrações civis agregadoras ou sequer a proposta de, ao menos, um olhar de compaixão.

E, então, “civilizados” que somos, cristãos ou não, que gritamos por nossos direitos, que votamos a favor ou contra, que existimos, continuaremos a dormir em paz?

Agradecemos a todos que se sensibilizarem com a causa.

Respeitosamente,

Profª.Bernadete Lage Rocha
l.bernadete@yahoo.com.br
031-88853369
Voluntariado:
APAC – Viçosa-MG
Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente
Conselho de Segurança Alimentar
MULHERES PELA PAZ
PASTORAL NÔMADE

3 comentários

  1. Um terrivel constato mesmo. Em relação aos ciganos na França, os que vivem e trabalham no territorio francês, tem os mesmos direitos que toda a população, porém existe um problema com os Roms da Romenia ou da Ungria que chegam nos paises ricos da Europa e se organizam em uma verdadeira mafia que explora crianças sexualmente, mendingos em cada esquina e jovens adolecentes que se organizam em bandos pra roubar turistas no metrô e nos principais pontos turisticos da capital. Isso infelizmente é uma realidade, ai o governo os expulsa do territorio francês com 300 euros de presente pra que eles fiquem em seus paises, mas eles acabam voltando porque é mais lucrativo roubar e ser expulso. O problema esta realmente polêmico pq a politica de imigração aqui esta ficando cada dia mais dura, não sei como vai terminar tudo isso, so espero que nas proximas eleições presidenciais o FN (Frente Nacional, partido de extrema direita tendência fascista), não seja o vencedor.
    Tenha um feliz ano de 2012.

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