No contrapé do preconceito

por Sulamita Esteliam

Tudo cessa quando um valor maior se levanta. Já usei esta frase aqui no blogue, em livre citação de Camões, ano passado, em outro contexto. Forçoso é retomá-la – emergindo a cabeça do trabalho, em meu retiro belohorizontino, provocada que fui pelo alerta  da filha Carol, parceira das lides na comunicação. Trata-se da polêmica disseminada nas redes sociais em torno de anúncios homofóbico e anti-aborto, suprema criatividade do Instituto Pró-Vida PE, publicada em jornais pernambucanos.

Embarco, não obstante, noutro viés: situar as atitudes diversas dos jornais, pegos no contrapé pela reação social aos dois anúncios, publicados à guisa de alerta ao voto nas próximas eleições. Ambos aceitos por seus departamentos comerciais, e cada qual publicado, o homofóbico na edição da última segunda-feira da Folha de Pernambuco; o anti-aborto na edição do domingo, 02, do Diário de Pernambuco.

Primeiro, os anúncios, para quem não viu:

Anúncio publicado na Folha de Pernambuco, dia 03.09.2012
Anúncio publicado pelo Diário de Pernambuco, no domingo 02.09.2012

Como se observa, as duas propagandas fazem apologia ao preconceito, à intolerância, à discriminação, e trazem a assinatura do Pró-Vida PE, ONG religiosa com atuação em todo o país. Tudo em nome da propalada liberdade de expressão, como costumo dizer, essa rameira que a todos serve e a tudo justifica. Em nota divulgada em seu sítio, nesta terça, a organização prefere denominar seu ato de “exercício do contraditório” – aqui.

Em tempos de comunicação em tempo real, natural que os dois anúncios tenham repercutido, negativamente, nas redes sociais – uma vez que absurdos. Mas cada veículo respondeu à polêmica de maneira particular: a Folha PE, pediu desculpas públicas pela publicação, ressalvando que o jornal “sempre se pauta pelo respeito aos direitos humanos”, e mantém “diálogo constante com a comunidade LGBT” – aqui, inclusive na página do jornal no Facebook e no Twitter.

Já o Diário, o matutino mais antigo da América Latina, optou por repercutir a reação da ONG Leões do Norte – que se manifestou a partir do pipocar nas redes, e vai denunciar o Instituto Pró-Vida ao Ministério Público. Entretanto, passou, olimpicamente, ao largo da publicação comercial da sua edição de domingo – aqui.

Instado a se manifestar pela reportagem do G1  – olhem só! -, portal da Globo, o jornal disse que “o anúncio foi submetido e aprovado” por seu departamento jurídico. Simples assim. Não há, até a hora que escrevo, manifestação das organizações feministas e de defesa dos direitos das mulheres.

O outro periódico cotidiano de Pernambuco, o Jornal do Commercio, também repercutiu a história, associando-a à campanha, da Prefeitura do Recife, Pernambuco te quer, parodiada às avessas pelo Pró-vida – aqui. O que não deixar de ser surpreendente, uma vez, que os donos de jornais costumam se proteger – a ponto de botar jornalista na rua, quando este ou aquele ousa publicar as mazelas da “concorrência?” – ou, em outras palavras, exercitar o jornalismo.

Clique para ler postagens correlatas neste blogue sobre jornalismo e liberdade de imprensa e de expressão, aborto e homofobia: Aqui e aqui, aqui, aqui, por exemplo.

 

 

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