A ‘Cosmologia’ de Brennand, segundo Jomard de Britto

por Sulamita Esteliam
O Marco Zero, com o Parque das Esculturas ao fundo -  PCR/Turismo
O Marco Zero, com o Parque das Esculturas ao fundo – PCR/Turismo

Sempre que alguém vem nos visitar no Recife, se é a primeira vez, levamos para conhecer o Antigo, a partir do Marco Zero. E apresentamos, do outro lado do estuário, o Parque das Esculturas de Francisco Brennand, com seu falo voador, suas ninfas vigilantes, pássaros, ovos, serpentes e outras figuras paleontológicas. É imagem que impressiona.

A chegada por terra entre o rio e o mar
A chegada por terra entre o rio e o mar

Mas, se a pessoa ou o grupo tem boas pernas, e razoável disposição, costumamos fazer uma proposta indecorosa: caminhar pela praia, logo cedinho, atravessar o Pina, ganhar Brasília Teimosa pela orla, cruzar o Buraco da Veia, em meio à fumaça dos churrasquetos, sem pejo. Com direito a pausa para água de coco ou suco de cevada – combustíveis para vencer mais dois dos cerca seis a sete quilômetros de caminhada desde Boa Viagem, margeando o paredão que ancora o mar; e tomando respingos das ondas que estouram no dique de pedras.

Parte das esculturas do parque, d'onde se avista o Porto do Recife - Foto: PCR
Parte das esculturas do parque, d’onde se avista o Porto do Recife – Foto: PCR

Tudo para ver de perto, e tocar, a arte de Brennand, no mesmo Parque das Esculturas. E, de cá, apreciar o Marco Zero e o Recife Velho, do lado de lá. É impagável.

A Casa de Banho  vista da água - Foto: Hugo, capturada em seu sítio de mergulhador: www.
A Casa de Banho vista da água – Foto: Hugo, capturada em seu sítio de mergulhador: http://www.skyscrapercity.com

O retorno, quase sempre, nos pega com o sol, indo a pino. Boa desculpa para, quando a manhã caminha para a tarde, uma parada estratégica no simpático restaurante da antiga Casa de Banho; que só funciona a partir das onze.  Suspenso sobre as águas do estuário, tem um pier que recebe os visitantes que chegam de barco vindos do continente, onde tudo começou. Ali se come frutos do mar e um peixinho, honestos, servidos com fartura, e com preços que não assombram.

Claro, tudo regado à cervejinha básica, bem gelada. Quem aprecia, pode pedir cachaça, que a casa dispõe de algumas boas marcas das Geraes – de Pernambuco e da Paraíba, também. Em qualquer dos casos, melhor avisar que não se quer gelada. É hábito da terra servir pinga de geladeira. Euzinha, mesmo, detesto.

Acabei soltando os dedos e viajando no meu passeio favorito nestes quase 16 anos de Recife. Mas a intenção primeira era postar mais um atentado poético que recebo de Jomard Muniz de Britto e sua generosidade grandiosa. Com autoridade e perspicácia, traduz Brennand e sua arte para nós pobres mortais incultos. No mote de documentário sobre o artista, dirigido pela sobrinha-neta, Mariana Brennand, lançado nesta sexta, só para convidados; por enquanto.

A Oficina Brennand, no bairro da Várzea, é uma galeria a céu aberto - Foto capturada  no sítio do artista
A Oficina Brennand, no bairro da Várzea, é uma galeria a céu aberto – Foto capturada no sítio do artista

COSMOLOGIA além dos tremores

Jomard Muniz de Britto, jmb
A majestosa Torre de Cristal
A majestosa Torre de Cristal e o Parque das Esculturas celebram os 500 anos de Brasil

Numa tarde clara, conversando com a poeta

Deborah, entre amigos muito mais raros,
sugeri que o tempo-espaço das criações
de Brennand era existencialmente cosmológico.
Jamais seria apenas cronológico.
Nem a mais longa nem as mínimas durações
poderiam capturá-lo. Convencionalmente.
COSMOLÓGICO na desmedida em que,
através dele – F. B. – o horror dialogava com o
esplendor, o belo irradiante.
Corpos fraturados, deuses e deusas profanados,
mitos em profusão. Mitologias onipresentes.
Longe, muito longe dos esteticismos, regionais
ou mesmo universais, Brennand mergulha
nos abismos da invenção,
Nada se reproduz realisticamente.
Tudo em transfiguração entre o sombrio e
a mais fulminante luminosidade.
Seres cortados assumem o gesto de uma
grandeza entre o barro e o cristal.
Tempo da eternidade do Pai.
Relembro pessoas da mais sutil
intelectualidade que se diziam surpresas
com a virilidade multiplicante no
Tempo/Templo/Accademia da VÁRZEA.
Aqueles falos. Aquelas protuberâncias.
Aqueles desregramentos da percepção.
Hoje ninguém mais se admira e muito menos
é assombrado com o monumento que reina no
MARCO ZERO do RECIFE: tão amado quanto?
Essa atmosfera cosmológica, em ritmo de atenção
compreensiva, não poderia ter sido melhor
cinematografada senão pela câmera de
Walter Carvalho sob a direção cúmplice de
Mariana Brennand Fortes.
E a voz aveludada de Hermila Guedes?
Eis um filme que talvez possa nos redimir
das ganâncias politiqueiras e dos derrames
e devassas mercadológicos.
Salvação e perdição irremediavelmente
cosmológicas, porque assim relemos
um poema de Deborah, ESCUTA:
Antes da brisa, escuta o que eu digo:
de tufos de capim nasce a cinza,
e as folhas deliram, com a fúria dos pássaros.
Sem pejo, as nuvens mostram cicatrizes,
aranhas tecem os véus mortais das rosas
e, se acaso amarrar almas, o tempo corta a fita.
Quando Francisco interpreta a si mesmo,
nenhuma caricatura paira no ar.
Porque ele sabe ver, ouvir, tocar, dizer
a cosmologia de nossas cosmoAgonias.
Recife, março de 2013.

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