Venezuela deve eleger Maduro para suceder Chávez

por Sulamita Esteliam
La lucha sigue! - Foto capturada em Vermelho.orgh
La lucha sigue! – Foto capturada em Vermelho.org

Neste domingo, 14, o povo venezuelano escolhe o sucessor de Hugo Chávez. A julgar pelas pesquisas,  Nicolás Maduro será o eleito, a despeito da tentativa da oposição em confundir o eleitorado – aqui e aqui  e de colocar sob suspeição o processo.

Transcrevo, abaixo, texto que escrevi para a edição de abril da Revista dos Bancários, bem como entrevista com o consul da Venezuela no Nordeste, Néstor Chirinos, para a mesma publicação:

A Venezuela sem Chávez

Eleições definem o sucessor dia 14 e misturam luto com luta pela manutenção do governo bolivariano

A Venezuela vai às urnas em 14 de abril para escolher seu novo presidente, após a “perda física” do seu comandante, Hugo Chávez, morto em 05 de março. Honrar o legado do líder da revolução bolivariana é o que move os chavistas, que detêm o candidato favorito nas pesquisas. O presidente nomeado interino, Nicolás Maduro (PSUV) – o vice que se tornou herdeiro político designado por Chávez ainda em vida – tem de 14 a 18 pontos de vantagem sobre o opositor Capriles Radonski, do PJ (Primero Justicia), mostram as últimas medições.

O início oficial da campanha eleitoral, se deu no dia 02 deste mês. Contudo, nas ruas, na mídia e no cotidiano dos venezuelanos, respira-se política, muito antes do calendário oficial entrar em vigor. Do lado chavista, a preparação para a batalha democrática, inclui a renovação do compromisso massivo do chamado “núcleo duro” do chavismo, através do Juramento das Unidades de Batalha, que coloriram de vermelho os ginásios de basquete de três cidades do oriente venezuelano, na última semana de março. Militares empenhados na tarefa “Um por Dez”: cada militante deve conseguir 10 votos. A meta do Partido Socialista Unido da Venezuela, é crescer dos cerca de 8 milhões de votos, conquistados nas presidenciais de 2012 (55,25%), para 10 milhões em 2013, informa Carta Maior.

Evidentemente, não faltam provocações de parte a parte, como em todo embate eleitoral. Particularmente da oposição, que se esforça para apropriar-se das políticas e da simbologia chavista, embora, contraditoriamente, não as reconheçam. Capriles, que foi derrotado por Chávez nas eleições de outubro do ano passado, tenta desqualificar o candidato do PSUV, por sua origem humilde  de motorista de ônibus, o acusa de usar a imagem do presidente morto, e empenha-se em grudar-lhe a máxima de que “Maduro não é Chávez”, dentre outras coisas. Para o candidato oposicionista, a disputa eleitoral “é o embate do bem contra o mal”, e é claro, ele, Capriles encarna o bem.

O preconceito de sempre, permeando as velhas práticas das elites. Matéria da Revista Fórum, a partir de perfil publicado pelo La Jornada, explica quem é  Nicolás Maduro: “Faz parte da nova geração de líderes latino-americanos que, como o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva  ou o cocaleiro Evo Morales, entrou para a política a partir das trincheiras das lutas sociais de oposição.” Sob a aparência do homem robusto de 1,90m, com bigode negro e espesso, está um revolucionário socialista que migrou de uma formação ortodoxa para se unir ao heterodoxo furacão da revolução bolivariana.

É um homem de esquerda, que traz a política no sangue: seu pai fundou o partido socialdemocrata Accion Democrática (AD). Durante mais de sete anos, dirigiu ônibus pelas ruas de Caracas – e o faz, agora, para mobilizar-se na campanha presidencial -, foi chanceler outros seis anos e tornou-se colaborador fiel de Hugo Chávez, a ponto de tornar-se seu herdeiro.

Observadores avaliam, por outro lado, que a humanização da política e a vinculação aos sentimentos populares nestas eleições antecipadas pelo luto abrem uma distância que parece insuperável pelos adversários do “filho de Chávez”. A despeito das manobras de marketing de Capriles, o favoritismo de Maduro é avassalador. No coração e na mente do povo, é preciso fazer prevalecer a independência, a soberania e a pátria socialista. “Chávez vive, la lucha sigue”, é o bordão da campanha situacionista.

Fato é que, após 14 anos de combate agressivo e de derrotas sucessivas para o chavismo, os opositores já não ousam questionar em público a figura de Chávez, e tentam fazer valer o discurso da continuidade de políticas sociais, por exemplo. Até batizaram seu comando de campanha como Símon Bolivar, e ameaçaram lançá-la na cidade natal do ex-presidente, Barinas, na mesma data e lugar do comício inaugural de Maduro. Recuaram diante da acusação do candidato chavista de que a oposição buscava o conflito. Nicolás Madurou alertou seus seguidores para não caírem na “provocação que visa desestabilizar a democracia do país”.

A identidade do “eleito” por Chávez para sucedê-lo com a causa bolivariana parece assegurar vitória nas eleições presidenciais com relativa facilidade. O grande desafio, porém, segundo analistas da política internacional, é assegurar a estabilidade política no longo prazo.

Para Eric Nepomuceno, articulista de Carta Maior, por exemplo, “Nicolás Maduro tem pela frente o árduo desafio de consolidar sua liderança no imenso vazio deixado pelo presidente morto.  Para isso, terá de buscar novos equilíbrios, conquistar lealdades, procurar um consenso delicado, não apenas junto a seus pares, mas também junto à população deixada orfã”. Mais: “Fazer tudo isso num país radicalmente polarizado, com profundos problemas de violência urbana, no abastecimento, na economia”.

Nepomuceno lembra que não se pode esquecer que Capriles enfrentou Chávez, em outubro passado, e saiu das urnas com quase 45% dos votos. Significa que, à época, havia uma expressiva parcela da população disposta a buscar nas urnas uma alternativa ao governo. Parece óbvio que Nicolás Maduro não detenha o carisma de Hugo Chávez. Entretanto, a um mês da morte do líder, revela-se promissor que Maduro, aparentemente, tenha obtido o apoio decidido das múltiplas correntes que integram o chavismo, tanto políticas como militares. Da mesma forma que mantém o elo com os movimentos populares. “Chávez te lo juro, mi voto es para Maduro”.

Não obstante a conscientização das massas, via programas sociais, a sociedade venezuelana está fraturada, também por isso. Lá, como no Brasil, as elites não aceitam repartir o bolo com as camadas populares. E se tentaram o golpe contra Chávez, não tentariam sem ele?

Às incertezas políticas internas da Venezuela, soma-se o risco permanente da “vingança do império”, como observa o embaixador  brasileiro na Venezuela, Samuel Pinheiro Guimarães. Em entrevista a Carta Maior, publicada em 10 de março, ele fala sobre a tendência dos Estados Unidos de retaliar, com invasões ou financiando golpes de estado, quem ousa negar-se aos seus interesses, como fez Hugo Chávez:

“A Venezuela foi uma província petroleira dos Estados Unidos durante décadas. Na II Guerra foi a maior fornecedora dce petróleo dos aliados. Tudo isso deu origem a uma classe dominante muito ligada ao negócio petroleiro e a Washington. Colômbia e Venezuela são fundamentais para o sistema norteamericano, no Mediterrâneo americano. Chávez acabou com tudo isso. Deu as costas aos Estados Unidos e se voltou ao Brasil, ingressou no Mercosul e rechaçou a Alca. Isso, para os Estados Unidos, é imperdoável.”

Para o embaixador, Brasil e Argentina desempenham papel fundamental na estabilidade política do país vizinho, no longo prazo. E o equilíbrio da Venezuela impacta todo o continente latino-americano. “É importante que Brasil e Argentina estejam vigilantes”. 

***************************************

ENTREVISTA/NÉSTOR CHIRINOS

‘O Projeto Bolivariano não pertence a um grupo político, é do povo’

Néstor Chirinos, juventude a serviço da causa - SE
Néstor Chirinos, juventude a serviço da causa – SE

Quem, eventualmente cruzar com Néstor Chirinos em qualquer local público, não imagina que está diante do consul da República Bolivariana da Venezuela no Nordeste. A juventude expressa nos traços latinos, entretanto, não expõe o nível de preparo do cientista político, formado pela Universidade Central da Venezuela, e que chefia o Consulado, com sede no Recife, desde janeiro deste ano, mas onde trabalha há cerca de cinco anos. A Revista dos Bancários conversou com Chirinos sobre o processo eleitoral venezuelano e as perspectivas políticas, sociais e econômicas da Venezuela sem Chávez.

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Uma curiosidade, que já deve ser recorrente para você: como uma pessoa tão jovem assume a responsabilidade de um consulado?

NÉSTOR CHIRINOS – Não sou tão jovem, tenho quase 30 anos…

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Sim, em tempos atuais, nesta idade se está saindo da adolescência, pelo menos no Brasil… É uma característica da Revolução Bolivariana colocar jovens em cargos políticos importantes?

NÉSTOR CHIRINOS – Há vários jovens em cargos de direção no Governo do comandante Hugo Chávez, inclusive ministros de Estado. Nosso ministro das Relações Exteriores, Elias Jaua Milano, tem pouco mais de 40 anos e já ocupou vários postos desde 1998, inclusive o de vice-presidente, antes de Nicolás Maduro. Sou de 1983, um ano marcante. Minha geração nasceu e cresceu em meio à crise, que denominamos Viernes Negro (Sexta-feira Negra). Foi o início da época da debacle econômica e política, com a queda nos preços internacionais do petróleo, desvalorização da moeda frente ao dólar, e endividamento público. Todos os jovens que nasceram nessa época cresceram em meio a todas as dificuldades da crise, e viram, ademais, como o sistema era corrupto e de exclusão das massas, a despeito da riqueza petrolífera.

Já não havia partidos de esquerda banidos, nem torturas, como durante o regime de Pérez Jiménez, que gerou a guerrilha. Mas a partir de 1958, derrubado Pérez, prevalece o que chamamos de Pacto del Punto Fijo, que garante ao país uma estabilidade institucional, porém uma falsa democracia por quatro décadas. A alternância no poder passa a ser bipartidária: o AD (Ação Democrática) se reveza com o Copei em práticas políticas que fazem perpetuar a desigualdade social e mantém a riqueza nas mãos da oligarquia petrolífera.

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Chávez chega para colocar essa parcela que ficou excluída, inclusive no poder…?

NÉSTOR CHIRINOS – Sim, Chávez é eleito em 1998 e, a partir de 1999, tudo muda. Criou-se ministérios para assegurar a participação popular, como por exemplo, o Ministério dos Povos Indígenas; as missões bolivarianas, para combater a miséria, o analfabetismo, a mortalidade infantil. A melhoria dos indicadores sociais é evidente. Em 14 anos os investimentos sociais somam 500 bilhões de dólares – na saúde, educação, moradia, transporte público, cultura… A educação básica, que no Brasil se chama fundamental, foi universalizada, assim como a educação técnica; acabamos com o analfabetismo.

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Nas eleições de outubro do ano passado, a oposição, representada por Capriles, obteve cerca de 45% dos votos, e foi contra Hugo Chávez. Para alguns observadores, significa que a sociedade venezuelana mantém-se fraturada. Agora, Capriles enfrenta Nicolás Maduro. O chavismo resistirá?

NÉSTOR CHIRINOS – O Projeto Bolivariano se institucionalizou, não é de um grupo político. Nas eleições presidenciais de outubro tivemos 55% dos votos. Lá o voto é opcional e 96% dos cidadãos em idade de votar estão cadastrados, quase 19 milhões de eleitores dos 28 milhões de venezuelanos. Você deve ter acompanhado: o sepultamento de Chávez levou milhares de pessoas às ruas para acompanhar o líder que se foi. O funeral teve a presença de chefes de Estado de todo o mundo. O reconhecimento da liderança do Comandante Chávez não se restringe à Venezuela…

REVISTA DOS BANCÁRIOS – O próprio Capriles tenta se apropriar das políticas e dos símbolos do chavismo…

NÉSTOR CHIRINOS – Sim, na verdade age para confundir. Antes, se perguntava às pessoas o que seria da Venezuela sem Chávez. Hoje já se sabe que o projeto bolivariano está institucionalizado. A atitude da oposição é uma mostra disso. Obviamente que as classes econômicas altas não gostam da palavra redistribuição, por que ela vai contra o status quo a que se acostumaram anos a fio…

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Então, se não vai pelas urnas, no curto prazo, não iria pelo golpe de Estado, no longo prazo, particularmente com toda a mídia contra e a ajuda providencial dos Estados Unidos? Tentaram com Chávez, mais de uma vez. Não tentariam com Maduro?

NÉSTOR CHIRINOS – Em 2002, quando do golpe político, as massas cercaram o Palácio Miraflores para defender o governo. E o teriam invadido se a Guarda de Honor não tivesse resgatado o comandante Chávez da prisão e o reconduzido ao Palácio. Para você ter uma ideia, até meu pai – que não ocupa qualquer cargo político no governo – foi às ruas. Em dezembro do mesmo ano, houve a sabotagem econômica, através da greve dos petrolíferos. Provocaram desabastecimento, cessou a exportação, o PIB caiu, mas conseguimos superar. Há, sim, setores apátridas, como define Nicolás Maduro, que só pensam  em si, não na Pátria. Mas a maioria do povo venezuelano tem a consciência conectada com o Projeto Bolivariano que, como disse, está institucionalizado. Além do mais, a própria oposição viu que a tentativa de golpe ficou desmoralizada. O setor mais democrático da oposição vê as urnas como o melhor caminho.


Um comentário sobre “Venezuela deve eleger Maduro para suceder Chávez

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s