Poesia e amizade, chamas que não se apagam

por Sulamita Esteliam

Até o Apagar da Velha Chama_nFeliz demais com a possibilidade de publicar, aqui no blogue, o convite para o lançamento do livro do amigo jornalista e poeta, Nilton Eustáquio: Até o Apagar da Velha Chama. É no próximo sábado, 27, às dez e meia da matina, a sessão de autógrafos – no Café Book, em Santa Efigênia, Beagá. Pena que estou a milhas e milhas de distância, e só posso me fazer presente em espírito…

Nilton Eustáquio é conterrâneo querido, de cidade e de bairro – o velho BDI-Ferrugem, na região operária da “cidade cordial”. Companheiro de militância na juventude, nos anos 70, e de batalha nas redações, a partir nos 80. Para nós, contemporâneos, era simplesmente Niltinho. Bons, velhos e custosos tempos, mas que guardamos na memória do coração.  A “velha chama” da amizade não se apaga.

Jamais li um poema da sua lavra, mas recomendo de olhos fechados; conheço a prosa que flui da pena do autor. Se duvidam, leiam o que escreve o também jornalista e escritor, Manoel Hygino dos Santos, imortal da Academia Mineira de Letras.

Pedi a Niltinho uma sinopse, e ganhei o prefácio. Luxo em dose dupla.

Compartilho:

Fruto de longa gestação. Assim se definiria o volume de poemas com que Nilton Eustáquio nos presenteia. As tentativas de publicação remontam a 1996, mas a retardança se deveu também a seu persistente labor na ourivesaria dos versos, objetivo em que foi sumamente feliz. Trata-se de obra de apurado gosto e pertinácia, elaborada entre as buliçosas horas nas tarefas frenéticas do jornal e os afanosos esforços para refinamento do texto. O autor é um perfeccionista, que confessa não desejar conspurcar o panorama das letras na Capital. “A minha possível vaidade de beletrista ficou no caminho, junto com os sonhos de juventude, os amores vãos, a experiência adquirida com a idade adulta, a idade da desdita”.

Após a semeadura, com exaustivos cuidados durante a germinação e a colheita, logrou-se uma coleção de poesias de evidente qualidade estética. Há dois momentos perfeitamente distintos: o primeiro, o poema principal e mais extenso, em que o autor revela seu conhecimento humanístico, inclusive da mitologia, e em que resgata símbolos para construir o seu universo; o segundo, compreendendo criações de várias épocas, sobretudo da mocidade, tão pródiga em esperanças, sonhos e aspirações. E decepções, também, por que não?

Nilton Eustáquio escreve bem e, com razão, Eduardo Almeida Reis, homem de letras de excelente gabarito, membro da Academia Mineira, o classifica como “um poeta do texto”. Com este volume, tem-se à mão tanto o poeta do texto, quanto o texto do poeta, em que se abre o verso à grandeza da solidão, seu tema preferido. Em um de seus recentes artigos, aliás, comentou ele os dias presentes, em que o homem se ilha em seu apartamento, perdido na cidade ou no bunker do eu-mesmo, inferno dos outros, avançando pelos desfiladeiros do estar só, olhos cerrados, coração chumbado ao solo do egoísmo.

Nilton Eustáquio, na estreia, apresenta uma poesia que praticamente não mais se faz. Aquela estudada por Latino Coelho, em que o autor “deixa em pedaços a sua alma, excruciada pelas terrenas e passageiras amarguras”. Terrenas, sim, passageiras nem sempre. Delas resta o testemunho oral transmitido às gerações, desde os cantores da Idade Média, ou o escrito, de que permanecem fragmentos expressivos de muitas épocas.

Nilton é o trovador, bem convive com a lírica e nela produz com proficiência.

Evidentemente versos que não se acompanhariam ao som da lira, posterior a Homero. Aristóteles e Platão, aliás, sequer definiram a rigor o que era a lírica. Com o tempo, avançou o subjetivismo. Benedito Croce viu-a como a atitude estética em geral e classificou como lírica a disposição íntima de que surge a poesia, a passionalidade, o ímpeto sentimental, o personalismo, que pode existir em qualquer arte. Evidentemente, a poesia deste livro não é mais a ser cantada ao som da lira ou da harpa, ou do alaúde, da viola, da cítara ou da gaita de foles, como já se fazia em tempo medievo.

O autor abeberou-se, parece, na grande lírica de nossa civilização, a provençal, que tratou tantos temas, mas se foi restringindo à celebração da mulher, a expressão da paixão amorosa intelectualizada, ambiciosa de refinamentos formais. A cuidadosa elaboração elevou Provença a modelo de todo o lirismo europeu. Transformou-se na consagração do amor cortês, que em Nilton se exalta sem o aparato da composição musical e sem a contribuição do cantor.

Na peça principal e mais extensa, Nilton excele. Sua poesia, porque poesia, não cabe nos limites do real, qualquer que fosse sua vastidão, profundeza e altura, como disse alhures Hernani Cidade. Daí, os mitos, em que o sonho poético transfigura a realidade e a beleza que a universaliza.

Em Nilton, mesmo no lírico, há um tom e uma linguagem de epopeia. O conteúdo de ideias ou sentimentos se alia à sensibilidade e à emotividade, impregnando as estrofes com algo mágico. No entanto, há um ar de cotidiano no vocabulário, o mito, flama e os costumes da atualidade, em versos sem rimas, sem limitações da métrica e da pontuação.

“Naveguemos, é tarde e a mansidão do mar esconde as ruínas dos desfiladeiros / de Netuno, onde os fortes se perdem e os amantes se entregam ao sono eterno / e a alma sofre nas fileiras atemporais de dimensões que o amor desconhece.”

Esta a poesia de Nilton.
Manoel Hygino dos Santos


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