Morte estúpida de um jovem trabalhador, mais um

por Sulamita Esteliam
Logomarca da Campanha Nacional contra o Extermínio de Jovens
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A comunidade do Poço da Panela, na Zona Norte do Recife, está de luto. Um filho daquela gente simples foi assassinado no domingo. Morte estúpida a engrossar as estatísticas de violência contra nossos jovens*.

Deixo a palavra ao jornalista e escritor Samarone Lima, articulador e um dos fundadores da Biblioteca Comunitária Poço da Panela, recém-ingressada na Releitura – Bibliotecas Comunitárias em Rede, da qual faço parte como comunicadora.

Crônica pungente sobre uma história dramática, triste, infeliz. Uma história que, ao mesmo tempo, revela o caráter transformador da cultura, do carinho e da atenção como alicerce de cidadania, em qualquer classe social.

Transcrevo, com autorização do autor, do seu blogue, Estuário:

Morrer de graça

7 de maio de 2013, às 8:40h por  Samarone Lima

Conheci Peixe há alguns anos, quando morava no Poço da Panela e embarquei na aventura do gordinho Naná, que tinha (e tem) uma Kombi e resolveu levar a meninada para a escola, gratuitamente. Peixe, já virando adolescente, achava aquilo muito infantil. Seguia de bicicleta, tinha um corte radical no cabelo e um olhar que acenava para o perigo.

Um dia, a bicicleta quebrou e ele foi com a gente. Naná, sabiamente, colocou ele no banco da frente, para ir conversando e, principalmente, para demonstrar afeto. Melhor, dar afeto.

Peixe foi algumas vezes até o Nilo Pereira, escola municipal comandado pela valente Damaris, na estrada do Encanamento. Nunca dizia obrigado. Descia e sumia dentro da escola. Certa vez ele desceu, olhou para mim e Naná e disse uma palavra que parecia arrancada a fórceps do seu peito:

“Obrigado”.

Ali começou a mudar o jeito. Pouco tempo depois, fez amizade com Gustavo, que é um mecânico de primeira no Poço e passou a aprender os primeiros caminhos da profissão. Dava gosto quando passava e Peixe estava deitado, debaixo de um carro, consertando algo complicado. Bastava perguntar, e ele explicava a peça, o que estava fazendo.

Da geração dele, que foi com a gente de Kombi, Peixe foi um dos poucos que abraçou uma profissão. Virou mecânico, com carteira assinada, salário em dia, fora os extras, em uma oficina na Avenida Norte.

Há dois anos, inauguramos a Biblioteca Comunitária do Poço da Panela. Um dos irmãos de Peixe, Rafael, passava longe, talvez achando esse negócio de livro, leitura, coisa de criança. Um dia, chegou um professor de violão e Rafael entrou na biblioteca. Nunca mais saiu. Todo sábado está lá, aprendendo novas músicas com o voluntário Gustavo.

De vez em quando encontrava Peixe. Sempre com um sorriso bom, tinha moto, virou papai, estava com 21 anos, a vida inteira pela frente.

No domingo, comemorava a vitória do Santa Cruz com amigos, no Poço, quando recebeu o telefonema de uma mulher, sua namorada. Teria levado dois tapas de um sujeito, ex-namorado, ex-presidiário. Peixe resolveu ir lá. Essas coisas de honra que eu não entendo bem. Os amigos tentaram fazê-lo desistir. Peixe ligou a moto, que não pegou. Ficaria por ali. Tomaria mais umas cervas com os amigos, iria dormir e no outro dia a coisa se resolveria até com uma conversa. Ele pegou outra moto emprestada e foi lá, resolver algo insolúvel. Não teve tempo de nada. Um tiro na cabeça e o fim da vida que mal começava.

Ontem foi o enterro. Não pude ir. Todos aqueles meninos que levamos dezenas, centenas de vezes para a escola, estavam lá, com rostos amarrotados, chorando a morte do amigo, do irmão. Cada morte dessa mata um pouco a comunidade inteira.

À noite, fui ao Poço. Conversei com Gustavo, seu professor de mecânica. Estava arrasado. O que sinto é um vazio aqui dentro, me disse, triste como um irmão que cultivou ao longo de vários anos.

Lá pelas tantas, chegou o ônibus que levou a comunidade para o enterro. Os olhares para o chão, os pés arrastados. Nessa hora, não há muito o que dizer. Veio Rafa, irmão de Peixe, demos um abraço. Agora, vamos ter que cuidar deste menino, foi o que pensei. “Colar”, como diz sempre Naná. Que a música o conforte.

“Morreu de graça”, foi o que mais escutei.

Em todo este processo, nenhum dos envolvidos buscou agentes da lei para solucionar o que poderia ser apenas uma confusão de domingo, pós-bebedeira, pós-jogo, pós-tudo. Nem a mulher agredida registrou a agressão, nem o que foi buscar justiça por conta própria passou numa delegacia. A solução veio de um revólver fácil. Apertar o gatilho é um dos gestos mais fáceis criados pela humanidade – e um dos mais dolorosos.

Para quem ama a vida, essa estupidez gratuita é nossa chaga diária.

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*PS: Permito-me reproduzir aqui, também, o comentário que fiz para Samarone no egrupo Releitura: mais do que fatalidade, o assassinato do garoto mostra o despreparo das pessoas para lidar com situações de violência, sobretudo contra a mulher. Não se trata de culpar as vítimas, veja bem. Mas a moça, ao invés de ligar para o namorado, deveria ter ligado para a polícia e denunciado o ex-namorado que a agrediu – Lei Maria da Penha. O menino “Peixe”, ao invés de ir lá “resolver” o problema, deveria ter feito o mesmo, se tivesse informação suficiente a respeito.

Enfim, “ses”  que não retomam a vida dele, mas os crimes – homicídio e agressão física – não podem ficar impunes. Por outro lado, a vida da namorada de “Peixe” continua em risco, e quem tenha acesso à família deveria alertá-la para tomar providências: ir à polícia, a uma Delegacia de Mulheres, denunciar.

Minha solidariedade à comunidade do Poço da Panela.

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