Urariano Mota lança ‘O Filho Renegado de Deus’

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por Sulamita Esteliam

É nesta quarta-feira o esperado lançamento do mais novo livro de Urariano Mota, jornalista e escritor: O Filho Renegado de Deus, pela Bertrand Brasil. A noite de autógrafos acontece na Livraria Cultura, no Paço Alfandega, no Recife Velho, a partir das 19:00 hs. Prepare-se para fortes emoções, pois meu amigo pernambucano escreve com o coração e com as vísceras, sem temer a realidade que embrenha a sua ficção.

Entrevista SINDBANCARIOS PE com o Urariano Mota 18 03 2013Não li este livro, ainda. Mas degustei seus dois romances anteriores: Os Corações Futuristas, publicação independente, e Soledad no Recife, sucesso de crítica e de público, publicado pela Boitempo. Tive acesso a alguns extratos da obra mais recente, publicados à guisa de conto, aos quais me referi em postagens anteriores, aqui e aqui neste blogue.

Para aguçar o apetite, recomendo aos amantes da boa literatura a leitura do texto escrito pela jornalista Maria Inês Nassif sobre o livro – no blogue Vi o Mundo.

Mês passado, conversei longa e prazerosamente com Urariano sobre o livro, literatura e o motor da sua criação, em entrevista para a edição de abril da Revista dos Bancários. Transcrevo a íntegra, para que você conheça um pouco mais do autor e sua arte:

ENTREVISTA/URARIANO MOTA

Literatura para desvendar o real

O escritor pernambucano lança seu terceiro livro, que trata do Recife dividido, do preconceito de classe, do racismo e da opressão sobre a mulher

 

Urariano Mota faz literatura engajada "para dar voz ao povo" - Fotos: Beto Oliveira/Lumen
Urariano Mota faz literatura engajada “para dar voz ao povo” – Fotos: Beto Oliveira/Lumen

Escrever “é falar a verdade, é o desvendamento do real. É ter olhos para ver, sensibilidade para imitar”. Para ao jornalista e escritor pernambucano, Urariano Mota, que também é bancário aposentado do Banco do Brasil, a Literatura vem pela memória do sentimento.  Para ele, assim como é uma falácia a dita imparcialidade do jornalismo, definir ficção como fruto da imaginação é equívoco e pose. “A ficção é o desvendamento do real”, ensina.

Urariano escreve sobre o que viu e vivenciou. Escreve sobre os resistentes, os solitários, os deserdados. É um militante social e político, com memória dos anos de chumbo inscrita na alma. Parte da experiência de menino e adolescente pobre e órfão “criado no beco” no Bairro de Água Fria. Sua literatura é enfática e intensa, como ele próprio. Está no terceiro livro, a ser lançado em 08 de maio próximo, pela Bertrand Brasill, Rio de janeiro: O Filho Deserdado de Deus. Conto inspirado na obra Mulheres como uma certa Maria, foi selecionado no Festival Internacional de Direitos Humanos, ano passado e integrou a mostra itinerante por 19 cidades latino-americanas.

Na verdade, o novo livro é o quarto criado pelo escritor, que se dá ao luxo de renegar o primeiro, Arremedo de Voo, porque “foi mal escrito”; ainda assim, colheu menção honrosa no concurso literário da União Brasileira de Escritores, no início dos anos 70. Dentre os filhos, digamos, reconhecidos, Os Corações Futuristas, sobre a resistência à ditadura de 64 no Recife, foi edição independente, e pequena. Já o seguinte, Soledad no Recife, também sobre os anos de chumbo, ganhou editora consagrada, a Boitempo Editorial, e projetou o nome do pernambucano para o Brasil e o mundo.

O livro foi tema de discussão no seminário sobre Literatura Brasileira na Universidade de Bolonha, na Itália, ano passado. Estará em debate em seminário sobre Direitos Humanos, dia 1º de abril, no Centro de Educação da UFPE. E na noite do dia 03, autor e obra são os convidados do Projeto História de Pernambuco em Debate pelos Trabalhadores, no Sindicato dos Bancários. 

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Você está com mais um livro no prelo, que deve ser lançado em breve. O cenário, mais uma vez é o Recife, e os personagens, gente do povo. Qual é o argumento, desta vez?

URARIANO MOTA – É mais um romance. O lançamento está previsto para 08 de maio, desta vez pela Bertrand Brasil. A intenção é desmontar a farsa dos maridos que se mostram chorosos e sofridos com a morte da mulher, quando na verdade se sentem libertos e, não raro, tentam se locupletar. Ainda outro dia, assistindo a um programa de TV, vi uma história dessas: o homem estrangulou a mulher, mostrou desespero durante o velório e o enterro, e queria mesmo era ficar com a pensão dela, coisa de dois mil reais por mês…  Ocorre que a literatura costuma tratar da falsa viúva, nunca do falso viúvo. Resolvi assumir essa tarefa.

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Li dois contos seus, extraídos do livro, no Blog da Boitempo Editorial: uma sobre mulheres, algo como Uma certa Maria…, e outro, antes, As Duas Cidades. O foco é o sexismo, mas também a divisão e o preconceito de classe e o racismo?

URARIANO MOTA – Esse romance, O Filho Renegado de Deus, é a história da violentação do povo.  Antigamente, a mulher era violentada, barbarizada, cotidianamente, mas isso era “natural”. Mulheres morriam de parto, feito formiga. O pobre não tinha direito à dor. Pobre com dor era frescura. Mulher, a esposa e mãe dos filhos, era doação total e absoluta. A amante é que era a dona do pedaço, era a mulher formosa, atraente, sexy, charmosa. Esse tipo de mulher era considerada puta, e normalmente as amantes eram putas, e estas eram mais valorizadas do que a dona do lar, porque as mulheres casadas eram essencialmente domésticas.

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Mas, você não acha, que mesmo com a quebra dos tabus sexuais, que devemos às feministas, a imagem que prevalece da mulher, hoje, na mídia, pelo menos, é essa: a de objeto sexual?

URARIANO MOTA – Claro que é a imagem que prevalece, ainda. A diferença é que hoje a gente fala sobre isso. É a mesma coisa com o negro, com os pobres e os miseráveis. O racismo está aí, pouco dissimulado. O preconceito de classe não acabou, mas a gente pode apontá-los, discuti-los, falar sobre eles. Lembro, agora do comercial da Caixa, comemorativo dos 200 anos: pegaram uma imagem do Machado de Assis, branco. Ora, Machado de Assis era mulato. A coisa repercutiu tão mal que a Caixa pediu desculpas e mudou o anúncio. Aliás, a tendência dos negros, à medida em que ficam famosos é serem branqueados… Aconteceu também com o autor de O Guarani, o Carlos Gomes, ficou branco depois que fez sucesso no exterior.

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Em Os Corações Futuristas, seu primeiro livro, e em Soledad no Recife, o segundo, você narra fatos da resistência à ditadura de 64, que permeou a sua adolescência e juventude, e agora?

URARIANO MOTA – O Filho Renegado de Deus é memória anterior a 64. Como eu já passei dos 60, é mais funda, remontada à minha infância. E nada é tão forte como a memória da infância. Na infância você sente a dor, mas não tem consciência da dor da diferença de classe, do racismo, da discriminação da mulher. Na nossa infância, a gente sofria com isso, vivia com isso, mas não tinha consciência. Manuel Bandeira escreveu, em Itinerário de Pasárgada: “Quando comparo esses quatro anos de minha meninice a quaisquer outros quatro anos de minha vida de adulto, fico espantado do vazio destes últimos em cotejo com a densidade daquela quadra distante”.

REVISTA DOS BANCÁRIOS –  Você vem de família humilde?

URARIANO MOTA – Origem humilde é maneira de dizer. Venho do Bairro de Água Fria. Minha infância se passou num beco, com dificuldades inimagináveis. Estudei em escola pública. Meu pai era portuário e minha mãe “do lar”. Perdi minha mãe as 08 anos e meu pai aos 14 anos. Fui criado por meu pai e pela madrasta, depois por mim mesmo. Mas isso é outra história…

REVISTA DOS BANCÁRIOS – E quando você descobriu que queria ser escritor?

URARIANO MOTA – Quando na escola se tinha o bom costume de ler em voz alta. Eu lia com interpretação, e fui elogiado pela professora. Porque, na infância de escritores, sempre há um facilitador. Eu não tive. Mesmo Graciliano Ramos, que cresceu no sertão das Alagoas, teve oportunidades que eu nunca tive; no livro autobiográfico Infância, ele conta que, embora pobre, teve acesso à Literatura, através de um tabelião que lhe emprestava livros de sua biblioteca pessoal. Venho de uma época e de um meio onde se dizia que “quem lê muito fica doido” e “quem gosta de poesia é frango (fresco).

Lembro-me que, já entrando para a adolescência, tinha um amigo, Pedoca, que tinha pai letrado – e apaixonado por nomes russos: além Pedoca, que era Pedro, tinha um Ivan e um André. Pois bem, na casa desse meu amigo tinha uma biblioteca, com os Clássicos Jackson, encadernados e brilhantes. Eu frequentava a casa dele, namorava as lombadas e dizia: “Rapaz, deve ser tão bom ter um livro desse para ler…” Meu amigo jamais se mexeu. Os livros eram sagrados.Vai ver até as páginas eram lacradas. Eram parte da decoração e da ostentação.

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Então, você é feito mandacaru, que brota em meio à aridez…

URARIANO MOTA – Quando eu entrei na adolescência, lá pela quarta série do antigo Primário, li Cruz e Souza,  para um trabalho da escola, emprestado: é o nome do soneto. Cruz e Souza, o grande poeta negro simbolista, de Santa Catarina, lá do Sul. O preconceito na época era tal que, quando se reuniam num restaurante, os amigos clamavam em voz alta, quando ele chegava: “Vai entrando o maior poeta simbolista do Brasil…” Era a forma de protegê-lo. E ele escreve, algo assim: “Em meio a tudo, eu sinto o fio sepucral do abandono*.” É muito forte. Quando eu li, eu pensei: “Esse cara está falando para mim…”

REVISTA DOS BANCÁRIOS – E então você começou a escrever…

URARIANO MOTA – A primeira tentativa foi também minha maior frustração. Ainda na adolescência, escrevi um humorístico em homenagem à professora. Quando terminei a leitura, ela estava chorando… Era para rir, pô! Mas o fracasso, muitas vezes, é mais importante que a vitória. A vitória simplifica. O fracasso te obriga a refletir. Um pouco mais tarde, escrevi um conto para a revista Ficção, número especial de humor: narrei a experiência de uma noite, a primeira, na Baiana, o maior puteiro do Recife; a prostituta me ensinou, exatamente, onde era o lugar. Eu achava que era, imediatamente, abaixo do umbigo…” (risos) Desta vez, consegui. Outros vieram.

A Literatura é a minha vida, e foi responsável, inclusive, pelo fim do meu primeiro casamento. Só tinha a noite para escrever e, um dia, ela acordou e reclamou do barulho das teclas da minha Remingthon, que não a deixavam dormir. Então, eu disse: para mim, deu.

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Sua literatura foca experiências do real, há também uma preocupação com a História. A realidade é mais rica do que a imaginação?

URARIANO MOTA – Não é bem uma preocupação com a História. É mais com a memória. Como eu já passei dos 60, é História – o que marcou a minha geração. Escrevo o que eu vivi e sobre o que eu vi. Com Cruz e Souza aprendi que não era escrever, era para escrever para falar a verdade. É a astúcia do real, como dizia Lenin. A ficção é tratada como se fosse aquela que brota da imaginação. Pois eu digo que a ficção é o desvendamento do real. Você tem razão, nada é mais rico do que a realidade. Tem caras que posam de monumento. Eu seria incapaz de escrever um romance sobre os séculos XVIII e XIX. Minha imaginação é curta.

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Dizem que o jornalista é um escritor frustrado. Ou seria o contrário, o escritor é um jornalista que não deu certo. O que é para você?

URARIANO MOTA – Você propõe um dilema complicado. Prefiro sair pela terceira via. Eu sempre quis ser escritor. O Jornalismo foi o mais próximo que eu consegui chegar, dentro da minha realidade da época. Agora, todo jornalista é escritor, quando tem intimidade com a Literatura. Euclides da Cunha foi a Canudos fazer uma reportagem, e escreveu Os Sertões, um grande livro. O Jornalismo Literário, aliás, não é uma escola restrita aos Estados Unidos, não é só Truman Capote. Nós também temos exemplos notórios: Machado de Assis, quando escrevia suas crônicas políticas para publicar nos jornais do século XIX, fazia Literatura. Já no século XX tem Antônio Maria, Rubem Braga, Drummond e tantos outros.

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Voltemos ao seu novo livro e ao preconceito. O personagem central é um homem negro, poliglota, que foi expulso do restaurante Leite, mesmo sendo convidado de um bacana estrangeiro…

URARIANO MOTA – É, o personagem é discriminado, mas também oprime a mulher e os filhos. Essa história de bom e ruim, bem e mal, só existe em folhetins. Ninguém é de todo ruim nem é imaculado. A natureza do ser humano é múltipla e contraditória. O nosso personagem fala três idiomas. É neto de escrava, mas só gosta de puta loira. É semianalfabeto formal, mas fala inglês como ninguém, e também domina o francês. Seu prazer está no embate com os doutores, que não dominam os idiomas como ele. É a sua vingança. É orgulhoso do posto que conquistou, mas profundamente opressor, o filho renegado de Deus.

REVISTA DOS BANCÁRIOS –  Os Corações Futurista foi edição independente. Já Soledad no Recife foi editado pela Boitempo, São Paulo. E agora, O Filho Renegado de Deus sai pela Bertrand Brasil, Rio de Janeiro. Como é a relação com o mercado?

URARIANO MOTA – Imprimi 300 exemplares de Os Corações Futuristas, o que me custou alguns anos encalacrado no cheque especial. O escritor é pior do que o tarado, só pensa naquilo, quer ver sua obra publicada, a qualquer custo. Ainda tenho 10 exemplares. Soledad, foi lançado em 2009, e não tenho notícia de encalhe. Só no lançamento, aqui, na Livraria Cultura, autografei 110 exemplares. A edição foi de 2 mil e 500 exemplares, mas a minha parte, você sabe, é apenas 10%, como é praxe. Tenho a impressão que a editora, consagrada, não cuidou com carinho do livro.

Mas algo me diz que, apesar de ser confundido com reportagem –  e é Literatura, fundamentalmente, embora também uma reconstituição histórica -, Soledad ainda vai me acompanhar por muito tempo.

 

PS: O autor me envia, posteriormente à postagem,  dentre outras correções incorporadas ao texto, a transcrição literal do soneto Só, de Cruz e Souza, que na entrevista ele cita de memória. Ei-lo:

“Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!”

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Postagem revista e atualizada dia 08/05/2013, às 6:45.


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