“Bolsa estupro”, em nome de Deus

por Sulamita Esteliam
Charge criada para a Marcha das Vadias 2013 no Rio - capturada em: latuffcartoons.wordpress.com
Charge criada para a Marcha das Vadias 2013 no Rio – capturada em: latuffcartoons.wordpress.com

Volta e meia a gente se depara com uma brasinha assoprada a avivar as cinzas do conservadorismo da nossa sociedade. E o mais triste e patético é que a história se repete com o mesmo viés: “em nome de Deus”. Um deus colérico e usurário, que aponta o dedo, discrimina e castiga com a opressão, a tortura mental, a exploração financeira e o abuso de poder.

Ora, se há uma coisa que não dá química, é misturar questões de fé e de religião com razões de Estado e direitos humanos. A história está aí para nos advertir. Quando a Igreja, qualquer uma, mete a colher, a gente come comida estragada. As exceções só confirmam a regra.

É o caso, agora, do Estatuto do Nascituro, recém-aprovado na Comissão de Finanças e Tributação, o que o remete à Comissão de Constituição e Justiça, antes de ir a plenário. Vem no lombo do fundamentalismo evangélico, besta-fera cavalgada por soldados do Armagedom. Pior é que alguns vestem saia, e pregam a submissão feminina como um estigma divino.

Cá no mundo terreno, as coisas sempre podem ser piores. Por exemplo, por que Comissão de Finanças e Tributação um projeto que pretende, em última instância, brecar os tímidos avanços legais em relação ao aborto?, perguntam cá meus dois neurônios. Ora, porque o famigerado projeto de lei cria um bônus para estimular a mulher a desenvolver a gravidez, ao invés de abortar o fruto da violência. É a “bolsa estupro”, em palavras cruas.

Além de estabelecer que o embrião ou feto, que pode vir a ser uma criança futura, é  vida, e como tal, mais importante do que a vida e/ou a saúde física e mental da mulher que o gesta e pare.

Em nome de Deus, a mulher violada ganha uns trocados para gestar o filho de seu agressor. E é obrigada a conviver com o monstro, pois que este é o pai da criança.

Em nome de Deus, a mulher torna-se ré de um crime no qual ela é a vítima.

É a tortura da violação elevada ao cubo, e em nome de Deus.

Paro por aqui, pois que me vêm engulhos.

 

Mas você pode ler mais aqui, aqui e aqui

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Transcrevo a Nota do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher:

O Conselho Nacional dos Direitos da Mulher manifestou a parlamentares da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara Federal, na manhã de quarta-feira (05/06), seu posicionamento pela rejeição da proposta do Estatuto do Nascituro (PL 478/2007).

O Estatuto do Nascituro viola os direitos das mulheres e descumpre preceitos constitucionais de previsão e indicação de fonte orçamentária, objeto de discussão naquela Comissão.

É lamentável que as mulheres sejam, mais uma vez, vítimas da legitimação da violência perpetrada contra elas. O projeto dificulta o acesso das mulheres aos serviços de aborto previsto em lei, nos casos de risco de vida à gestante, estupro e gravidez de feto anencéfalo.

Por considerar o referido projeto um retrocesso em relação aos direitos humanos das mulheres brasileiras, conquistados na trajetória de construção de uma sociedade de igualdade e justiça social, o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher continuará seu trabalho de informação e de esclarecimento junto a parlamentares e à sociedade.

Brasília, 5 de junho de 2013.
Pleno do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher

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Diga NÃO  Ao Estatuto do Nascituro. Clique para assinar a petição que, à hora desta postagem já contava com 122 mil assinaturas.

Dia 15 tem ato em São Paulo, convocado pelo movimento feminista, que antes se reúne também em Sampa – aqui, no Observatório da Mulher, a pauta. Concentração às 13 horas na Praça da Sé.

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