O gigante acordou e viu que era fraude

por Sulamita Esteliam
Na dúvida, siga à esquerda - capturada no FB da mana Lili
Na dúvida, siga à esquerda – capturada no FB da mana Lili

Era para ser um dia de celebração. A “vitória do povo na rua”, como enfatizou em nota o Movimento Passe Livre, em coletiva de imprensa em São Paulo. Afinal, a primeira das reivindicações, redução das tarifas dos transportes coletivos, foi alcançada em São Paulo, epicentro das manifestações, Rio, Recife e outras capitais.

A melhoria na qualidade dos serviços é pauta a ser perseguida, assim como a tarifa zero. Mas ver a juventude de volta às ruas, em todo os país, em si, ainda que não se tivesse ganhos e tão rapidamente, já seria motivo para celebrar.

Mesmo que, para além do foco central seja uma pauta difusa, confusa, retalhada e emendada – ao sabor de necessidades reais ou da orquestração midiática com claras intenções – confunda mais do que esclareça.

Ainda que a mobilização convocada via redes sociais, e portanto, sem lideranças aparentes, não seja nova, e surpreenda poderes constituídos e mídia aloprada. A juventude, afinal, tem-se mobilizado no mundo inteiro.

Não se pode ter medo da democracia, certo?

Entretanto, desde as primeiras manifestações, alguma coisa cheirava mal. E não era só a merda da violência policial. Ficou nítida a presença de infiltrados e caroneiros. Aqueles que apostam no tanto pior melhor, que não conseguem reunir duas dezenas de cansados contra isso ou aquilo.

Mais: confundiram apartidarismo com antipartidarismo. Livre manifestação com achacamento. Pedem paz e se valem da intolerância, da violência física, do vandalismo contra o patrimônio público, contra o direito de opção. 

Passam longe da democracia.

No Recife, uma bela manifestação, que começou com 50 mil pessoas e teria chegado a 100 mil, segundo a PM e a Secretaria de Defesa Social, correu aparentemente em paz. Aparentemente.

A exemplo do que aconteceu em São Paulo, no Rio, em Porto Alegre, em Belo Horizonte e em Floripa, dentre outras cidades, militantes de partidos de esquerda foram hostilizados, acuados. Alguns tiveram bandeiras e até camisas arrancadas, rasgadas, e outros foram espancados.

Um amigo, da Juventude Petista, traduziu o sentimento:

“Não levamos bandeira, porque, apesar de discordarmos, respeitamos o combinado na reunião da terça, que organizou o protesto. Mas vestimos vermelho, usamos os broches do partido – nós e outros militantes de esquerda. Fomos hostilizados, achincalhados. Uma menina do PCR foi esculhambada por um grupo, que gritava, “tira essa camisa, aqui não é lugar de partido”. Outro grupo nosso, já na entrada da Conde da Boa Vista, foi acuado por centenas de manifestantes. Houve empurra-empurra, troca de tapas. Um colega teve a camisa da CUT rasgada e arrancada do corpo. A grande ironia é que foram salvos pela polícia. Foi um horror.”

Enquanto isso, embora tenha chamado a militância para defender o legado do PT e de Dilma, a direção do partido nega que tenha convocado a #Onda Vermelha – aqui em Carta Capital. Fugir da raia é covardia, seu Ruy Falcão.

Outra amiga, militante dos movimento das bibliotecas comunitárias, desabafou sua frustração e espanto no chat do Facebook. Transcrevo o diálogo:

– Sula, vi cada coisa nessa manifestação…

– Conte tudo, não esconda nada.

– Só tinha a elite … e eu, ali, observando…

– Classe média, você quer dizer… E?

– É… a meninada querendo tirar foto para o FB.

– Tá, e daí?

– Nos anos 60, o protesto tinha gosto de luta e resistência. E no outro dia a luta continuava, com reuniões de pessoas organizadas, para analisar o resultado e ver o que se ia fazer daí em diante.

– E este, agora?

– Hoje vi que as pessoas estavam lá não pelo coletivo, para reivindicar direitos, mas para criticar o governo sem saber por que, ou só por interesses individuais, ou para extravasar alguma coisa que há dentro deles …

– E violência, você viu?

– Vi um policial ser esfaqueado, porque agiu contra alguns que queriam quebrar lojas …

– Que horror? Me disseram que um grupo de militantes de esquerda foi acuado, espancado e expulso da manifestação…

– Houve mesmo, eu vi. Fiquei chocada.

– Onde aconteceu?

– Depois da Boa Vista.

O Facebook está cheio de relatos, replicados no Twitter – aqui um exemplo do Recife; outro do Rio e outro e mais um de São Paulo.

É essa a democracia que queremos? Vamos botar o que no lugar?

Mobilização de rua não é brincadeira virtual. É jogo duro, pra valer. Ou como disse o ator José de Abreu, no Twitter, “a rua é uma parideira infiel: pode parir o ovo e a serpente”.

A imagem do protesto no Recife - Foto de uma certa Wanessa, capturada a partir do Twitter
A imagem do protesto no Recife – Foto de uma certa Wanessa, capturada a partir do Twitter
“Dilma não pode mais adiar a convocação da rede nacional: é preciso esclarecer e tranquilizar o país, ademais de anunciar medidas que contemplem justas reivindicações de melhoria dos serviços públicos **é urgente distinguir anseios democráticos do golpismo camuflado em protesto** Multidões estão sendo convocadas  às ruas, sem liderança, exceto a corneta do dispositivo midiático que emite febrilmente a ‘agenda’ da luta contra a corrupção e ‘a gastança’ da Copa** manifestantes hostilizam partidos políticos, rasgam bandeiras da CUT e do PT, agridem militantes do MST e tentam invadir o Itamaraty, em Brasília, com bombas, fogo  e pedradas.” (Carta Maior)

“O DAY AFTER: IMPLICAÇÕES DE UMA VITÓRIA
A vitória superlativa das ruas com a reversão do reajuste tarifário em SP foi saboreada pelos dirigentes do MPL com um misto de euforia e alívio. A continuidade dos protestos evidenciava uma crescente diluição do movimento nas tinturas  de uma desqualificação do governo federal e das  conquistas econômicas e sociais dos últimos dez anos. A jovem liderança do MPL, que se declara de esquerda, admite que já não sabia como reverter a usurpação martelada pela emissão conservadora. Há atitudes óbvias. Incompreensivelmente ainda não adotadas por quem dispõe de todos os holofotes da boa vontade nesse momento. Uma sugestão prosaica: convocar uma entrevista coletiva e desautorizar  o dispositivo midiático conservador, que surfa na onda dos novos cara-pintadas para rejuvenescer a narrativa de um antipetismo histórico. A abusada antecipação da campanha de 2014 inclui cenas -e ameaças–  de invasão de palácios, mesmo quando ocupados por governantes já comprometidos com a redução tarifária. Essa era a agenda da ‘comemoração’ no RS, nesta 5ª feira. Qual o propósito dessa sessão de fotos com data e hora marcada? Aos integrantes do MPL  não cabe o bônus da ingenuidade. Embora jovens, souberam fixar um alvo de notável pertinência histórica. A  mobilização de massa em defesa da tarifa zero e por uma cidade dos cidadãos carrega a promessa de um chão firme do qual se ressente  o planejamento democrático no país. Só um movimento urbano forte, capaz de disputar a construção da cidade com a lógica do lucro imobiliário poderá reverter o caos das grandes metrópoles. Se for a semente disso, o batismo de fogo do MPL, com todas as suas lacunas, já terá valido a pena. Antes, porém, precisa se desvencilhar da carona oportunista que hoje embaralha a sua extração histórica e pode ferir de morte a credibilidade conquistada nas ruas. (…)”
(Clique para ler mais: Saulo Leblon/Blog das Frases – Carta Maior)

“Agora, porém, os barões da mídia – sempre tão versáteis nas suas manobras táticas – fazem nova flexão. Exigem a volta da repressão. Tentam vender a imagem de que o país caminha para o “caos” e que a “PM tarda a agir”. Responsabilizam Haddad e Dilma pela situação e voltam a acionar Geraldo Alckmin. Cabe às forças políticas mais consequentes a mesma agilidade tática para evitar que um movimento legítimo vire massa de manobra dos golpistas. O momento exige respostas rápidas – principalmente do prefeito Fernando Haddad – e muita lucidez dos setores que não querem uma volta ao passado tenebroso!” (Altamiro Borges/Blog do Miro)

Na sociedade da informação as disputas são de redes contra redes. Tem sido assim em todos os cantos do mundo. Está sendo assim nos últimos dias no Brasil. As redes disputam seus espaços com ideias e também com força bruta.

O que fazer num momento desses quando a situação chega no limite? A Cooperifa, um movimento cultural da periferia de São Paulo, acaba de dar uma boa resposta. O Sérgio Vaz está convocando toda a rede que se articula nesse espaço para uma reunião amanhã, às 20h, no Zé Batidão. Pauta: os rumos do país.

Ele não está chamando as pessoas para a guerra e nem para o confronto. A convocação é para uma conversa. Para uma articulação. Para um debate. E para pensar como e de que forma se deve reagir ao que se viveu na noite de hoje em muitas cidades brasileiras. A molecada da periferia que foi às ruas contra o aumento do busão, segundo o Vaz, não quer saber desses facistas que estão se apropriando do Movimento Passe Livre.” (Renato Rovai/Blog do Rovai)

 

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Postagem revista e atualizada nesta manhã.


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