Mulheres: o sexto sentido a guiar a razão

Recife - Erneesto Carvalho-Marzo Zero-drone
Visão do Recife, quando a passeata já estava na Conde da Boa Vista, a cerca de 800 metros da Praça da Democracia, no Derby – Foto: Ernesto de Carvalho-drone/Marco Zero Conteúdo
por Sulamita Esteliam

Na madrugada do dia em que voltaria para casa, no Recife, depois de 45 dias fora, a maior parte deles na Macondo de origem, não consegui dormir direito. Acordei amiúde, e nem foi por ansiedade ou medo de perder a hora, pois o voo não era tão cedo assim.

Levantei-me três vezes ao longo da madrugada, pois não conseguia respirar direito. Às cinco e meia da manhã, decidi me colocar de pé, de vez.

Já no banheiro, antes de entrar sob a ducha, senti uma espécie de corrente elétrica em ondas sucessivas me atravessar o corpo, a ponto de quase desfalecer.

Agarrei-me à pia para não cair, enquanto tossia e tossia, desbragadamente.

– Coisa mais esquisita, vade retro!

Praguejei, mas foi inevitável a lembrança de minha mãe e da síncope paralisante que a acometeu em 1991. Euzinha já morava em Brasília, e também tive um curto-circuito passageiro, coincidentemente ou não, soube depois, bem na hora em que ela passou mal.

– O que é isso, meu Deus…!?

Mamãe tinha, então, 58 anos, e por pouco não se foi. Segundo o cardiologista, a recusa dela em se deitar, e a sintonia de minha irmã em compreendê-la, tão somente pelo olhar, já que ela não conseguia falar ou mover-se, e o pronto-socorro, a teriam salvado.

Estou mais velha, caminho para os 65. Todavia, não pretendo migrar pro outo lado, que desejo firmemente que exista, tão cedo. Fixei esse pensamento, enquanto me recuperava.

Além do que, no meu caso, não sofro qualquer tipo de problema cardíaco, e muito menos  tenho ovos de solitária calcificados na cabeça, como era o caso de dona Dirce. Tampouco sou hipertensa ou coisa que o valha que pudesse justificar um AVC.

Passei por um descarrego preparatório, prefiro entender assim.

Creio que não há explicação possível, no campo da Medicina, sobre o que me acometeu, mas também não procurei saber. Foi coisa de segundos, um minuto, talvez; logo me recuperei.

Deitar não seria possível, de qualquer maneira. Evitei comentar com minha irmã que me acolhia, ou com quem quer que fosse. Apenas geraria preocupações desnecessárias.

Não voltei a sentir nada parecido, e nem me lembrava mais do incidente, até o final da manhã de domingo. Foi quando me deparei com a carreata do você sabe quem na orla de Boa Viagem.

Dezenas, talvez centenas de carros e motos. Seus condutores babando, entusiasticamente e apontando o dedo em forma de gatilho, alternadamente, para o calçadão e para o ar.

Nos céus da minha praia, feito ave de mau agouro, um helicóptero com as cores e o número do candidato inominável rondava desde o início da manhã. Dinheiro é o que não falta na campanha.

Aqui não se teve notícia nem fotos vi que reproduzam apoiadores com armas de fogo, como em Fortaleza. Mas em Jaboatão dos Guararapes, está nas redes sociais, um homem agrediu um policial militar, a ponto de arrancar-lhe dentes e, portanto, sangue; pode imaginar o que aconteceu com o infeliz.

Meu quintal estava irreconhecível no domingão, desde cedo, coalhado de camisas da CBF e cangas com o manto nacional. Um acinte com os símbolos da Nação.

Já percebera ao longo da caminhada: um  odor de peçonha contrastava com a luminosidade do céu de brigadeiro.

Só que uma coisa é ouvir o barulho lá na areia, amortecido pelo farfalhar das ondas, que desvia o olhar das imagens negativas. Outra é ter que cruzar a horda ao som do Hino da Pátria Amada Brasil, alternando gritos e buzinas e o pipocar de fogos de artifício.

Uma ânsia de vômito, quase incontrolável, me invadiu, ao tempo em que sentia agulhadas pelo lombo afora.

Respirei fundo, girei nos calcanhares e voltei para a areia, tentando não vomitar. Posei o chapéu sobre os chinelos, botei dentro a capanga e a saída de praia, arrancada às pressas, e corri para o mar.

IMG_20180929_163900464_BURST000_COVER_TOPOdoyá, Iemanjá, proteção! Salve, Damabiah que me guarda. Salve, Gabriel que conduz as boas novas!

Enfiei a cabeça na onda, e deixei que a água salgada lavasse meu corpo, recuperasse meus sentidos e desanuviasse minha alma em chamas.

Compreendi, enquanto tentava olvidar a turba na avenida, que é uma linha tênue, um quase nada, que separa a civilização da barbárie, as trevas da luz.

Fechei os olhos e busquei os sons álacres do sábado, 29, no centro do Recife.  O arrepio diverso da energia vibrante, a percorrer o corpo como uma carícia. Um quase êxtase de consciência do poder do amor sobre o ódio.

Dezenas de milhares de mulheres, e homens em apoio, de todas as idades e quadrantes da cidade e do estado, num alarido a lembrar a faina do formigueiro.

Minha neta, que ainda não completou 11 meses, estreando na resistência. Sua disposição inocente a mais de duas horas de concentração e outro tanto de passeata, em meio à multidão. Sem um pio.

#LuteComoUmaGarota!

A nobreza paciente e amorosa da minha filha, mãe dela, que desde a adolescência não frequentava passeata, a rechaçar o coiso e a ecoar o brado que nos une: #EleNão #EleNunca #ElesNão!

Como de resto, se deu pelos sete cantos do Brasil e mundo afora. Somos milhões.

A mulherada cantarolando ao ouvido do fascio: somos as bisnetas, as netas, as filhas das bruxas que vocês não conseguiram queimar.

Nem o centro da manipulação golpista nacional foi capaz de resistir. O Jornal Nacional quedou-se ante tamanha força energética.

Nada ao vivo, mas nota coberta (narrativa desprovidas de emoção, mas com imagens) de todas as manifestações.

Ao contrário da postura, deliberadamente, omissa e/ou manipuladora durante a fraude que depôs a presidenta Dilma Rousseff, a legítima, primeira e única, e que pôs em marcha o golpe em curso.

Veja algumas das imagens em outra edição da blogosfera livre:

Para quem tem memória e discernimento, o ovo da serpente já vinha chocando desde 2013, com as ditas jornadas de junho.

Quem não pode com a formiga, não atiça o formigueiro.

Nossa resistência vai derrotar o golpe. Com mídia venal, com golpismo de colarinho branco, com os coturnos de sola rota, com  a ignorância e a estultice galopante, com o partido togado, com tudo.

Prova disso é o desconsolo, o manifesto desespero da casa-grande, seus asseclas e capitães do mato.

Esperneiem à vontade: o povo é soberano.

Não há muro possível nessa batalha. Há dois projetos distintos em disputa: a liberdade com oportunidade para todos ou o garrote do arbítrio; o livro ou a arma.

Reescrevo agora o que postei aqui em 2010 e repeti em 2014:  ainda que algumas transitem na contramão do senso, as mulheres decidem, e podem se orgulhar de ter o sexto sentido como leme da razão.

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Postagem revista e atualizada dia 02.10.2018, às 20:33hs: correção de erros de digitação e repetição de palavras.

 


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