Reflexões sobre o agosto em nossas vidas

por Sulamita Esteliam

Dizem que agosto é mês de cachorro louco. Sei de mim que, durante anos da minha infância e parte da adolescência, este era um mês especialmente triste, porque eu não tinha um pai a quem abraçar e entregar o cartão de Feliz Dia dos Pais que fazia na escola. Para uma menina orfã, e apaixonada pela memória que escolheu dele guardar, era uma agonia, ano após ano.

A ausência do pai deixa o ôco do mundo no coração da gente. E todos os dias crianças e adolescentes ficam orfãos de pais – de violência de morte matada. Para citar um caso emblemático, lembremos Amarildo, onde está? O que foi feito de Amarildo, senhor governador fluminense?

No meu caso, na verdade tinha, tive alguns “pais” substitutos – tios e até um padrinho postiço – mas não era a mesma coisa. Além do que, os tios perdi do alcance cotidiano e o arremedo de padrinho, dele escapuli.

Também num agosto, lá se foi meu avô materno e padrinho de fato, João, o único que conheci e pude conviver. Minha avó Ceição, parteira e madrinha, que dele foi parceira na vida e desenlace, encantou-se mais de duas décadas depois, igualmente em agosto. No ano seguinte, o tio mais querido, Dino, aquele que escolheu meu nome. Outras perdas no mês se acumularam através dos tempos.

Creio que o Universo tem seu próprio ritmo, e sabedorias. Encarregou-se de reordenar o meu universo particular, a partir de agosto. Pari meu primeiro filho, que acabou sendo o único varão da prole, a 17 de agosto – e lá se vão quase 38 anos. Encontrei meu companheiro de vida e parceiro dos últimos 22 anos, Júlio – a 2 de agosto, poucos meses após eu migrar para Brasília.

Já relatei essa história algumas vezes – aqui, por exemplo: geramos apenas uma nossa, Babih, mas juntos terminamos por criar e/ou polir um sexteto: o meu Elgui, as minhas Gabi e Carol, as dele Juba e Paola (que se juntavam à trupe nas férias). A caçula, apressadinha, antecipou-se dois dias: ao invés de inaugurar agosto, quase arremata julho, e assim me fez voltar às fraldas uns três agostos afora – desde há 20 anos, ainda no Planalto Central.

Mudamo-nos para Fortaleza. E na capital cearense, há 17 anos nascia meu primeiro neto, Biel, cravando em Júlio a pecha de “vô torto”, a 04 de agosto. Cerca de um ano antes de nos instalarmos no Recife. Depois dele, outros três que carregam meu DNA, assinalaram outros meses do calendário. Por enquanto.

Datas são simbólicas, bem sei. Não obstante, sou do tipo que não crê em acasos ou coincidências. Superstição ou bobagem, pouco se me dá: gosto de imaginar que o Universo conspira a nosso favor, desde que estejamos dispostos a dar-lhe uma mãozinha.

Júlio nunca se arvorou em ser pai dos meus – nem eu mãe das dele. Um e todas são filho/as de coração, entretanto. O nosso e as nossas foram educados para se respeitarem, e às diferenças. Procuramos dar o exemplo. Até agora funcionou, e sou grata por isso, todos os dias.

Outras postagens sobre pais no blogue: aqui e aqui.

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Postagem revista e atualizada em 13.08.2013.

Latutt, sempre preciso - Charge capturada em www.latuffcartoons.wordpress
Latutt, sempre preciso – Charge capturada em http://www.latuffcartoons.wordpress

2 comentários sobre “Reflexões sobre o agosto em nossas vidas

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