‘Mea culpa’ global: acredite quem quiser

por Sulamita Esteliam
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O Brasil precisa reencontrar com sua história, a verdadeira – Foto capturada no Sul21

E essa de a Globo fazer mea culpa 50 anos, e muita locupletação depois, francamente, é achar que o povo é bobo. Vai ser cara dura assim lá Projac. É de merecer estrume no tapete da fama, mesmo, como fizeram os manifestantes na sede paulistana da plim-plim: devolveram na mesma moeda. Escárnio por escárnio…

Dirão que todos têm direito a mudar de opinião. Dizem que é até sinal de inteligência, como alegou a jornalista potiguar, uma certa Michelle, ao pedir desculpas pelo exercício de preconceito, e falta de noção, sobre a aparências das médicas cubanas – aqui no blogue.

Não me estendei a propósito. O colega gaúcho Marco Weissheimer, do Sul 21 – e que já editou essa reles escriba em Carta Maior -, desmonta o cinismo global e o “arrependimento” platinado de ocasião. Aproveita para desvendar a caixa preta das relações da mídia convencional com a ditadura.

A verdade é dura: toda a imprensa apoiou, se locupletou. E, como bem diz e sugere Weissheimer, não se trata de “equívoco”, como quer o editorial da família Marinho. Trata-se de crime, um prato cheio para a Comissão da Verdade. A democracia agradece.

Transcrevo uma palinha. Começo pelo primeiro subtítulo:

“(…)

Mídia e ditadura: uma história a ser contada

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Comissão da Verdade tem oportunidade para abrir caixa preta da relação da mídia com a ditadura.

O nosso país está muito atrasado neste processo. A Argentina, por exemplo, ao contrário do que aconteceu no Brasil, está acertando as contas com o período da ditadura militar (1976-1983). Além de dar prosseguimento ao julgamento dos militares e policiais acusados de crimes como tortura e assassinato, o governo argentino decidiu mexer em outro vespeiro e levantou o tapete que escondia as relações promíscuas entre a ditadura e meios de comunicação. No dia 24 de agosto de 2010, por exemplo, a presidente Cristina Fernández de Kirchner apresentou um relatório de mais de 20 mil páginas acusando os donos dos principais jornais do país de envolvimento em crimes de lesa-humanidade cometidos durante a ditadura.

No relatório, intitulado “Papel Prensa, a Verdade”, o governo argentino denunciou os proprietários dos jornais La Nación, Clarín e do extinto La Razón de terem se apropriado ilegalmente e mediante ameaças da maior empresa fornecedora de papel jornal do país na época da ditadura, a Papel Prensa, em novembro de 1976. O documento relata como os antigos proprietários da empresa, o banqueiro David Gravier e sua esposa Lídia, foram sequestrados pelos militares em 1977 e forçados a assinar papéis “vendendo” suas ações na empresa. Uma parte importante das investigações do governo argentino baseia-se no testemunho de Lídia Papaleo que, além ter sido sequestrada, foi torturada pelos militares argentinos.

Em um artigo, intitulado “O que há por trás de um jornal chamado Clarín” (Carta Maior (04/06/2012), o jornalista Eric Nepomuceno relata um trecho de um novo depoimento de Lídia Papaleo à Justiça argentina. Ela afirmou:

Até hoje lembro os rostos de meus torturadores. Porém, nenhum desses rostos, nenhum desses olhares, me persegue e amedronta mais em meus pesadelos que o olhar de Héctor Magnetto me dizendo que ou assinava a venda de Papel Prensa, ou eu e minha filha seríamos mortas.

Héctor Magnetto, assinala Nepomuceno, era e continua sendo o principal executivo do grupo Clarín. Foi quem, naquele distante 1976, e antes do sequestro e das torturas de Lidia Papaleo, se reuniu com ela, e foi diante dele que ela capitulou.

Os proprietários dos jornais acusados acusaram e seguem acusando o governo argentino de querer controlar a imprensa e impor um regime de censura. A verdade é que, como aconteceu também no Brasil, essas empresas apoiaram a ditadura, beneficiaram-se com ela e, possivelmente, são cúmplices diretos ou indiretos de vários crimes cometidos pelo regime ditatorial. Ao mexer na caixa preta da mídia, Cristina Kirchner comprou aquela que é, talvez, a mais pesada luta de seu governo.

Porta-vozes do interesse público?

As empresas de comunicação têm o hábito de se apresentarem como porta-vozes do interesse público. Em que medida uma empresa privada, cujo objetivo central é o lucro, pode ser porta-voz do interesse público? Essas empresas participam ativamente da vida política, econômica e cultural do país, assumindo posições, fazendo escolhas, pretendendo dizer à população como ela deve ver o mundo. No caso do Brasil, assim como ocorreu na Argentina, a história recente de muitas dessas empresas é marcada pelo apoio a violações constitucionais, à deposição de governantes eleitos pelo voto e pela cumplicidade com crimes cometidos pela ditadura militar (cumplicidade ativa muitas vezes, como no caso do uso de veículos da Folha de São Paulo para o transporte de presos políticos torturados durante a famigerada Operação Bandeirantes).

Até hoje nenhuma dessas empresas julgou necessário justificar seu posicionamento durante a ditadura. O Globo faz o primeiro ensaio disso agora, em um texto que, a todo momento, procura justificar o “erro” pelo “contexto histórico”. Muitas delas sequer usam hoje a expressão “ditadura” ao se referir àquele triste período da história brasileira, preferindo falar em “regime de exceção”. Agem como se suas escolhas (de apoiar a ditadura) e os benefícios obtidos com elas fossem também expressões do “interesse público”. Apoiar o golpe militar que derrubou o governo Jango foi uma expressão do interesse público? Ser cúmplice de uma ditadura que pisoteou a Constituição brasileira, torturou e matou é credencial para se apresentar como defensor da liberdade? O silêncio dessas empresas diante dessas perguntas, por outro lado, não deixa de ser uma resposta às mesmas.

(…)”

Clique para ler a íntegra

 

Agora assista aos vídeos da manifestação em São Paulo. Os manifestantes, mais uma vez, trocaram o nome da Ponte Otávio Frias para Jornalista Vladmir Herzog – antes de jogar titica de equino na Globo.

 

 

 

Clique aqui para ler e ver sobre as manifestações em outras capitais do país.


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