Roteiro de mídia: ‘dar voz ao povo’ e manipular

por Sulamita Esteliam

O poder público só aprende sob pressão, e a mídia, que se quer opinião pública, se mantém impávida no travestir de manipulação seu dever de informar. Há poucos dias, os jornais pernambucanos destacavam como vitória da mobilização da comunidade a devolução às famílias do Coque do seu direito ao teto. Postamos a respeito aqui e também aqui.

Nos meus tempos de repórter da mídia convencional e comercial, uma coisa, especialmente, me irritava ao limite: o tal do “fala povo” ou seu equivalente, a “repercussão” de determinado assunto ou medida, normalmente polêmica.

Em miúdos, define-se uma pauta e vai pra rua perguntar “o que você acha disso?”. Na hora de escrever, ou no caso de rádio e TV editar as falas, escolhe-se aquelas que servem melhor ao propósito de servir ao poder de plantão – político e/ou econômico.

A coisa funciona assim, na base do CQD:  em matemática, como queria demonstrar. Ou CQC – Custe o que Custar, como é próprio do programa televiso homônimo, que pare suas bestas; há quem ache engraçado e até mesmo inteligente.

Pois a edição de domingo do Jornal do Commercio sobre o malfadado Projeto Novo Recife – ao qual nos referimos no blogue -, cumpre exatamente o papel de manipular, “dando voz ao povo”. E conseguiu despertar a indignação das pessoas mobilizadas na defesa de uma cidade melhor para todos – o povo organizado, que incomoda e quase nunca é ouvido, e não foi diferente desta vez.

O protesto veio em forma de Nota Coletiva de Associações, Coletivos e Entidades do Recife sobre o Novo Recife, e está publicada no sítio do movimento Direitos Urbanos/Recife. Aqui vai um trecho:

Coque no Ocupestelita
Faixa colocada no último #OcupeEstelita com entidades e movimentos do Coque que apoiam a luta contra o Projeto Novo Recife

NOTA COLETIVA DE ASSOCIAÇÕES, COLETIVOS E ENTIDADES DO RECIFE SOBRE O PROJETO NOVO RECIFE

DENÚNCIA DO SEQUESTRO DA REPRESENTAÇÃO DO POVO E APELO DE CORAÇÃO: NOVO RECIFE, NÃO!

Ontem saiu uma matéria no Jornal do Comércio sobre as expectativas em relação ao projeto Novo Recife: três moradores do Coque e dos Coelhos defendem o projeto e a matéria se posiciona como se estivesse falando em nome das comunidades inteiras. Além de não dar voz aos ditos “movimentos sociais” contrários ao Novo Recife, a matéria também deixa de mencionar que, entre esses movimentos, incluem-se também associações das próprias comunidades referidas.

A presença forte dos movimentos sociais das comunidades do Recife no último #OcupeEstelita, inclusive as citadas na matéria, comprova que a defesa do projeto Novo Recife não é consenso dentro delas. Existe a consciência de que empreendimentos como este, não só não os incluem, como prejudicam a eles e a toda a cidade.

Uma leitura minimamente atenta da matéria revela os argumentos questionáveis que procuram defender o projeto e sua perversidade:

1) o abandono atual da área como justificativa para aceitação de qualquer coisa que se construa ali, até 13 torres de 40 andares isoladas por muros e assentadas sobre gigantescas caixas de estacionamento;
2) a expectativa pelas vagas de emprego com os piores salários e menor qualificação, sem a menção da imensa improbabilidade de que os moradores do entorno se tornem usuários plenos do trecho de cidade que se pretende construir ali;
3) a esperança de dinamização do comércio local, sem considerar que a valorização fundiária por um modelo de cidade que preza pela exclusividade e não pela diversidade tende a expulsar e substituir não só os moradores como também o pequeno comércio e pequena indústria do entorno;
4) a confusão entre empreendedorismo e desenvolvimento.

A história nos ajuda a compreender as estratégias de captura de representação do povo: em 13/02/85 foi publicada uma matéria chamada “Moradores aprovam Shopping” que falava sobre um projeto de construção de um shopping center em terreno do Coque (reproduzida abaixo). A matéria tentava abafar a resistência no bairro que depois se mostrou tão forte a ponto de não apenas barrar a implantação do Shopping, como também efetivar a lei das Zonas Especiais de Interesse Social, que protegem o direito a moradia. Mais de 20 anos depois, acessamos essa mesma matéria para relembrar o poder público dos absurdos que estavam fazendo no Coque. Agora, os absurdos são para com a cidade como um todo. Seu centro, seu lugar de vida, poesia, memória.

(…)

Assinam a nota:

Ação Darmata / Alunos das Graduações e Pós-Graduações de Comunicação Social, Geografia, Sociologia, Educação e Desenvolvimento Urbano da UFPE / Associação Esperança do Coque / AVIPA – Associação dos Moradores da Vila do Papelão (Casinha) / Banda Palafita (Afogados) / Biblioteca Comunitária Amigos da Leitura (Alto José Bonifácio) / Biblioteca Popular do Coque / Centro de Cultura Luis Freire (CCLF)/ Centro de Estudos Budistas Bodisatva de Pernambuco – CEBB / Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social – Cendhec / Centro Popular de Direitos Humanos – CPDH / Cine Coque / Coletivo de Luta Comunitária – CLC / Coletivo Desclassificados (Coque) / Comitê Popular da Copa PE / Copa Favela 2014 / Coquearte (Coque) / Espaço Rosa dos Ventos / FERU – Fórum Estadual da Reforma Urbana / Habitat para a humanidade/ Igreja de São Francisco de Assis do Coque / Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis – MABI (Coque) / Movimento de Direitos Urbanos / Núcleo de Assessoria Jurídica Popular (Najup) / NEIMFA – Núcleo Educacional Irmãos Menores de Francisco de Assis (Coque) / Núcleo de Comunicação Caranguejo Uçá (Ilha de Deus) / Ponto de Cultura Espaço Livre do Coque / Pré-Vestibular Paideia (Coque) / Rádio Lama (Roda de Fogo) / Rede Favos – Favelas Organizadas e Solidárias (Coelhos) / Rede Coque Vive / Resistência Popular de Pernambuco

Para ler a íntegra, clique.

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Outras postagens neste blogue sobre o assunto:

Quando a cidadania fala mais alto: #Coque RExiste

O Coque Re-xiste com arte e garra

#Ocupeestelita: para barrar a especulação imobiliária

Quando as pessoas e suas vidas são descartáveis

Grilagem reciclada com aval da Justiça

Povo se mobiliza contra o projeto “Novo Recife”


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