A diferença que faz o Bolsa Família

por Sulamita Esteliam

Faz dias quero escrever algo sobre a primeira década do Bolsa Família. Havia decidido que seria hoje, para começar a semana de trabalho com assunto relevante. Só que estou pelas tabelas, e não serei capaz de produzir algo que preste. Então, adiemos o tricô de letras.

Todavia, em rápida navegada, encontro na coluna do Luís Nassif em Carta Capital, comentário, exatamente, sobre o programa que em 10 anos tirou milhões de brasileiros da miséria  e mudou a face da economia nos Brasis do fim do mundo. Transcrevo:

Por que o Bolsa Família é importante

O programa social exerceu um papel civilizador, ao permitir às mães planejar, e impedindo as crianças de morrer

por Luis Nassif — publicado 23/09/2013 11:36

Selma Ferreira, primeira beneficiária de programa modelo para Bolsa Família - Foto: Wilson Dias/ABr
Selma Ferreira, primeira beneficiária de programa modelo para Bolsa Família – Foto: Wilson Dias/ABr

Já tinha alguns anos de jornalismo, o País começava a lutar pela redemocratização, fui entrevistar Abraham Lowenthal, um dos pensadores do Partido Democrata norte-americano e estudioso da América Latina.

Na época, nós, jornalistas econômicos, estávamos empenhadíssimos em convencer o meio empresarial de que a democracia era um “bom negócio”. Fiz uma série de perguntas sobre a importância da democracia para a economia.

A resposta de Lowenthall me derrubou. “A democracia é importante porque é importante. Não precisa de justificativas econômicas”.

***

Saindo de Macapá, depois de uma palestra para coordenadores do Sebrae de todo o País, me vali do ensinamento de Lowenthal.

Um dos temas debatidos foi o Bolsa Família.

Um dos coordenadores apontou os benefícios que o BF trouxe a inúmeras regiões estagnadas do seu estado.

Primeiro veio o novo consumo, por meio do BF e da Previdência Social. Em seguida, vieram os novos empreendimentos. Com eles, novos empregos. E a região ganhou vida própria. No País todo, a melhoria de renda gerou um mercado de consumo fantástico.

Outro coordenador tinha visão diferente. Sua percepção era a de que as mães pobres passaram a ter mais filhos, para aumentar a Bolsa; as famílias fugiram para as cidades, sobrecarregando os serviços públicos; e diminuiu a propensão de todos para o trabalho.

***

Com o BF houve redução da natalidade e da mortalidade infantil. Mesmo reduzindo a mortalidade infantil, houve redução dos filhos. Ou seja, o BF exerceu um papel civilizador, ao permitir às mães planejar, e impedindo as crianças de morrer.

As estatísticas mostram, também, número crescente de beneficiários do BF pedindo desligamento, depois de conseguir renda suficiente. Mas é óbvio que, com o BF e a Previdência, os jovens passaram a entrar mais tarde no mercado de trabalho e houve uma queda na oferta de mão de obra para empregos de baixíssima remuneração.

Os dois fatos se refletiram em toda estrutura de emprego, provocando um efeito cascata de aumento do salário real.

Já as cidades mais pobres, especialmente no Nordeste, receberam mais famílias pela relevante razão de que os caraminguás do BF deram condições a elas de permanecer na sua região, mesmo enfrentando uma das maiores secas da história. Obviamente, com a seca, procuraram as cidades.

***

Aí se entram em desdobramentos que nada têm a ver com o BF.

Um deles é o aumento do salário real, bom para o consumo, ruim para a estrutura de custos das empresas. O caminho são reformas e melhorias de gestão que signifiquem um choque de produtividade.

O segundo problema é que, nas regiões mais pobres, aumentou a renda das pessoas mas não a receita dos municípios – contribuiu para isso a imprudente política de desoneração do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados).

Mais uma vez, nada tem a ver com o BF.

No final do encontro, sugeri aos ouvintes que criticassem a Fazenda, o Tesouro, a Receita, o Ministério das Cidades, mas não o Bolsa Família. Se houver um céu no serviço público, seus criadores ganharam o assento eterno.

Lembrando Lowenthall: o Bolsa Família é importante porque acabou com a fome de milhões de brasileiros. E basta.


Um comentário sobre “A diferença que faz o Bolsa Família

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s