Erra quem faz, mas Ipea já foi mais cuidadoso…

por Sulamita Esteliam
Campanha mobilizou mulheres e família de mulheres em todo o Brasil - Foto capturada no FB
Campanha mobilizou mulheres e família de mulheres em todo o Brasil – Foto capturada no FB

Entro retardatariamente no assunto, mas a colega jornalista, Nana Queiroz, tem razão: “há erros que vêm para o bem”. A campanha #EuNãoMereçoSerEstuprada, que bombou na internet e até ganhou a mídia televisiva, partiu de premissa errada. Mas tão somente do ponto de vista estatístico.

Não são 65%, mas 26% das pessoas ouvidas pelo Ipea que culpam as mulheres, diretamente, por suas vestes e ações, que terminam vítimas de estupro. Ainda que 58% dos entrevistados concordem que se as mulheres soubessem como se comportar haveria menos estupros.

Mas não se trata de números, trata-se de gente. Mulheres e meninas alvos do machismo e da misoginia que alimentam a violência sexual, abjeta – aqui e aqui neste blogue. E mulheres e homens, brasileiras e brasileiros, que, seja por acreditarem no que dizem, ou por se deixarem empreenhar pelos ouvidos, apontam a mulher como culpada.

Louvável que o Ipea tenha feito a mea culpa sobre o erro. Até porque, mais do que humano, só erra quem faz. Mas há que se registrar que a instituição já foi mais cuidadosa. Até na formulação das perguntas em suas pesquisas.

A referida pesquisa, a meu ver, erra também na formulação das questões. Vale-se de chavões preconceituosos, e ao fazê-lo acaba por induzir as respostas. E não apenas no que se refere à culpa pelo estupro.

Senão, vejamos: “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas?” Ou “Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar?” Ou “O que acontece com o casal em casa não interessa aos outros?” Ou “Em briga de marido e mulher não se mete a colher?”

Eis a nota com o pedido de desculpas do Ipea, capturada no sítio da instituição e distribuída pela Rede Mulher e Mídia.

04/04/2014 15:31

Errata da pesquisa “Tolerância social à violência contra as mulheres”

Vimos a público pedir desculpas e corrigir dois erros nos resultados de nossa pesquisa Tolerância social à violência contra as mulheres, divulgada em 27/03/2014. O erro relevante foi causado pela troca dos gráficos relativos aos percentuais das respostas às frases Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar e Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas. Entre os 3.810 entrevistados, os percentuais corretos destas duas questões são os seguintes:
Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar (Em %)

Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas
(Em %)

Corrigida a troca, constata-se que a concordância parcial ou total foi bem maior com a primeira frase (65%) e bem menor com a segunda (26%). Com a inversão de resultados entre as duas questões, relatamos equivocadamente, na semana passada, resultados extremos para a concordância com a segunda frase, que, justamente por seu valor inesperado, recebeu maior destaque nos meios de comunicação e motivou amplas manifestações e debates na sociedade ao longo dos últimos dias.

O outro par de questões cujos resultados foram invertidos refere-se a frases de sentido mais próximo, com percentuais de concordância mais semelhantes e que não geraram tanta surpresa, nem tiveram a mesma repercussão. Desfeita a troca, os resultados corretos são os que seguem. Apresentados à frase O que acontece com o casal em casa não interessa aos outros, 13,1% dos entrevistados discordaram totalmente, 5,9% discordaram parcialmente, 1,9% ficou neutro (não concordou nem discordou), 31,5% concordaram parcialmente e 47,2% concordaram totalmente. Diante da sentença Em briga de marido e mulher, não se mete a colher, 11,1% discordaram totalmente, 5,3% discordaram parcialmente, 1,4% ficaram neutros, 23,5% concordaram parcialmente e 58,4% concordaram totalmente.

A correção da inversão dos números entre duas das 41 questões da pesquisa enfatizadas acima reduz a dimensão do problema anteriormente diagnosticado no item que mais despertou a atenção da opinião pública. Contudo, os demais resultados se mantêm, como a concordância de 58,5% dos entrevistados com a ideia de que se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros. As conclusões gerais da pesquisa continuam válidas, ensejando o aprofundamento das reflexões e debates da sociedade sobre seus preconceitos. Pedimos desculpas novamente pelos transtornos causados e registramos nossa solidariedade a todos os que se sensibilizaram contra a violência e o preconceito e em defesa da liberdade e da segurança das mulheres.

Rafael Guerreiro Osorio* e Natália Fontoura
Pesquisadores da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais (Disoc/Ipea) e autores do estudo

* O diretor de Estudos e Políticas Sociais do Ipea pediu sua exoneração assim que o erro foi detectado.

Acesse os microdados da pesquisa Tolerância social à violência contra as mulheres (arquivo Excel)

Acesse o dicionário de dados da pesquisa Tolerância social à violência contra as mulheres

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PS: Pois é, bastou colocar o pé em casa, no Recife, depois de 20 dias de via sacra por Campinas, São Paulo e Beagá, que baixou a dona Maria. Senhora absoluta do lar, ela tem toque, sofre de urticária por bagunça, e não cede espaço à concorrência.

Resultado,  Euzinha me encolho e me submeto.

Você que me honra com o acesso diário, aceite, pois, meu pedido de desculpas pela ausência nos últimos dois dias.

 

 

 


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