50 anos do golpe: a verdade como antídoto

por Sulamita Esteliam

50 anos golpeAinda estou em Beagá, por mais um dia, e seria outro o tema da postagem de hoje. Entretanto, percebi, em rápida navegada pela rede, que comi mosca: acabei perdendo o ato memorativo, cívico-cultural, dos 50 anos do golpe – a grande mentira praticada “em nome da democracia”, oficializada em 1º de abril de 1964.

Perdi rara oportunidade de rever gente querida, como Nilmário Miranda e Betinho Duarte, dentre outras pessoas que, certamente, estiveram por lá.

Deu-se na noite desta segunda, 31, no Coleginho, antigo prédio da Faculdade de Psicologia, junto ao prédio onde funcionou a minha inesquecível Fafich, no Santo Antônio. Lá está sendo construído o Memorial da Anistia. O evento foi promovido pela Associação dos Amigos do Memorial da Anistia Política do Brasil.

Para quem não sabe, a Fafich – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, foi um dos principais redutos de organização da resistência à ditadura que nos massacrou durante 21 anos. E que ainda nos assombra, porque é uma história ainda não encerrada – aqui e aqui no blogue.

O papel decisivo justifica, plenamente, o tombamento do prédio principal pelo Patrimônio Histórico Municipal, anunciado na noite de ontem. Lá hoje funciona a Secretaria Municipal de Educação. Assim como explica a decisão de ali construir o Memorial – no Coleginho, prédio já tombado, há anos, como parte do conjunto urbano do Bairro Santo Antônio. Viva!

Como bem lembrou a ministra Eleonora Menicucci, da SPM – Secretaria de Políticas para as Mulheres, mineira e faficheira – das Ciências Sociais: “A Fafich está nas vidas de quem ali estudou de maneira muito importante e forte. Nela aprendemos não só teoria, mas a prática da política, o respeito, a luta contra a ditadura e seus desmandos” – mais aqui.

Eleonora tem razão: a gente sai da Fafich, mas a Fafich não sai da gente.

“Ser sujeito de direitos” é o aprendizado primeiro que essa escola nos legou. Claro, tem suas consequências. Eleonora, Nilmário e Dilma, por exemplo, e tantos outros da geração deles amargaram prisão e tortura em defesa da liberdade de pensar e de escolher.

Também a minha geração, sanduíche do arbítrio, teve que desaprender na Fafich o que aprendeu na escola, em casa, na igreja, na leitura de jornais e audições de outros meios de comunicação. Tudo uma grande mentira, que afetou as vidas, as consciências, que dirá o apetite político de geração após geração de brasileiras e brasileiros.

E que ainda hoje nos afeta, a todos.

Ainda temos uma democracia engatinhante, é fato. A própria anistia é uma lei incompleta, a inspirar abusos das forças de segurança, tantos anos passados. No capítulo dos direitos humano isso é patente: tanto no que se refere à punição dos crimes praticados pelo Estado à época, como aqueles praticados em nome da lei e da ordem, ainda hoje.

 

De qualquer forma, ainda que muitos não percebam, admitam ou teimem em não reconhecer, a democracia e os direitos que temos hoje foram conquistados. E a duras penas – com sangue, suor e lágrimas.

Escracho promovido em BH, neste 1º de Abril pelo Levante Popular da Juventude - Foto capturada no FB
Escracho promovido em BH, neste 1º de Abril pelo Levante Popular da Juventude – Foto capturada no FB

 

 

 

 


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