Quando torcer é atividade de alto risco

por Sulamita Esteliam

Ver seu time, o Santinha, jogar pela série B do Brasileiro foi o último ato de Paulo Ricardo. O rapaz, de 28 anos, não vai poder mais gritar gol. Foi assassinado quando deixava o Arruda, na última sexta-feira – aqui.

Clarins, alfaias e buzinas estão silenciadas.

A torcida, a verdadeira torcida, está de luto.

A estupidez humana aprontou das suas, mais uma, desta vez no Recife. Quem paga por isso?

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Era a crônica apenas esboçada, nesta segunda.

Contudo, faz-se desnecessária. O que eu queria dizer sobre o inominável está dito, com toda propriedade, no artigo que o amigo Ruy Sarinho, sempre generoso, envia para o blogue.

A Tal Mineira agradece, penhoradamente.

O Estádio do Arruda, que sempre ofereceu belos espetáculos, está interditado - Foto capturada no Wikipédia
O Estádio do Arruda, que sempre ofereceu belos espetáculos, está interditado – Foto capturada no Wikipédia

As torcidas que matam

Ruy Sarinho*

Num dos jogos do Sport pela Libertadores da América, na Ilha do Retiro, o saudoso repórter Haroldo Rômulo de Medeiros – o “Dá-lhe!…-Dá-lhe!…” – num flash ao vivo para a Rádio Jornal, entrevistou um dirigente do Sport na fila das bilheterias. Enalteceu seu gesto de ter comprado 500 ingressos para distribuí-los com a Torcida Jovem.

Dias depois, ainda incomodado com aquela notícia, liguei para Haroldo para tirar minha dúvida, se tinha ouvido mesmo aquilo, o que ele me confirmou. Aquele flash saiu no noticiário esportivo. Mas fiz um comentário para um dos blogues do futebol, afirmando que aquela notícia deveria ter saído nas páginas policiais, que merecia investigação séria.

Qual a relação que existe entre os clubes e essas quadrilhas organizadas, que já causaram diversas mortes em Pernambuco e no País. Fora os muitos jovens que ficaram com deficiências irreversíveis, prostrados numa cama ou usando uma cadeira de rodas para o resto de suas vidas…

Fiz esta introdução para chamar o debate sobre as relações promíscuas entre dirigentes de futebol e essas chamadas torcidas organizadas. O que eles recebem de volta para patrocinarem esses grupos de marginais com sede, ingressos, ônibus e viagens pagas?

Acabei de ouvir na Rádio Jornal, no Programa Domingo Esportivo, com Edinaldo Santos – um dos poucos a combaterem, há muito tempo, a existência desses bandidos travestidos de torcedores organizados. O advogado Lenivaldo Gaya faz comentários conscientes e competentes, sempre. Ele afirma que os dirigentes tem medo dessas torcidas.

Permito-me discordar neste ponto. Não é medo, mas interesses escusos, que não podem ser contrariados: esportivos, empresariais ou políticos. Semana passada, o presidente do Santa Cruz e vereador, Antônio Luiz Neto, atacou Edinaldo por essas críticas, e defendeu a sua Inferno Coral.

Está aí o resultado trágico: o assassinato, a morte do jovem de 26 anos, Paulo Ricardo Silva. Não é fato isolado, como dizem os dirigentes do Santa Cruz, talvez para se omitirem, mais uma vez.

E nem foi cometido apenas por duas mãos, mas pelas mãos de todos os que se omitem sobre a violência no futebol, e a incentiva com as organizadas. Foi um assassinato doloso, cometido por muitas mãos.

Ainda me lembro do dia em que o Ministério Público de Pernambuco entregou troféus às três mais famosas organizadas do estado. O radialista Edinaldo Santos lembra-se muito bem, pois foi o único que criticou o fato.

Lógico que a violência do futebol, cujo retrato mais fiel é composto pelas ações das chamadas torcidas organizadas, integra uma realidade muito mais ampla, cultural, pela qual a sociedade no seu todo está vivendo.

Não é apenas a violência física, ou psicológica. Faz parte de um contexto da violência nas suas raízes sociais, na agressão aos direitos humanos fundamentais que impede que milhões de jovens, e suas famílias, tenham acesso a uma vida digna, com casa decente, alimentação, saúde, educação, transporte e lazer, porque tudo isto também representa os direitos humanos.

Numa linguagem popular, portanto, o buraco é muito mais embaixo.

Uma grande fatia da população brasileira aprova a violência, ao defender que a polícia tem que matar os bandidos, pelo menos os pobres. É aquela elite, a burguesia fedorenta, apesar dos perfumes franceses.

Em suas torres fabulosas na cidade ou nas fazendas, se sente ameaçada pelas conquistas de melhores dias que o povo, a população carente, escanteada por mais de cinco séculos, passou a viver nos últimos 11 anos, no Brasil depois de Lula.

Dia desses, numa conversa entre taxistas na Madalena, ouvi um vendedor elogiar um policial que carregava muitos processos nas costas por mortes de “bandidos”, segundo ele. E completou, dizendo que quando o policial não tem processos por mortes é porque não atua, não mata os bandidos e não presta para o serviço.

Esse, infelizmente, é o pensamento de boa parte dos chamados “cidadãos de bem”. São verdadeiros apologistas da violência e do assassinato de pessoas pobres, apontadas na televisão como “almas sebosas”. Às vezes até inconscientemente.

E aí, entra a força da mídia, que começou no rádio, e ganhou a televisão, com os programas policiais bombando as suas audiências locais. Horários que fazem apologia à violência, aos grupos de extermínio etc, de forma escancarada.

Quanto mais sangue se derrama pelas telinhas da TV, mais lucro vai para os bolsos desses comunicadores da violência e de seus patrões. E tudo sob os olhos cegos do Ministério Público.

Isso acontece em todos os estados do País, sem distinção. Virou cultura.

Tem um programa de rádio, aqui no Recife, que faz umas novelinhas, divididas em várias inserções ao longo de sua programação. São entrevistas com acusados de crimes, familiares de vítimas e outras pessoas envolvidas, sempre gente pobre. Alvos de galhofas ou tons sensacionalistas sobre as mortes, estupros e outros crimes de que tratam.

Nessas rádio-novelinhas, a maioria das vítimas é de jovens negros, executados. E que é apontada pelo apresentador, com dedo em riste, apresentador como bandida.

Se o Ministério Público atuasse, pra valer, na defesa dos direitos humanos, esses programas seriam tirados do ar. O que não seria censura, mas sim o combate a essa apologia à violência, uma ideologia que glamoriza os crimes violentos.

Se quem lucra com futebol quer continuar enchendo seus bolsos de dinheiro, que se una para acabar com as quadrilhas organizadas no futebol.

E mais: entre numa parceria com todos os poderes públicos para avançar nas conquistas sociais da população mais pobre, dando acesso ao que ela ainda não tem para viver com dignidade. Principalmente os jovens sem perspectivas de futuro.

Aí, sim, será o grande GOL, do futebol brasileiro, da sociedade, de todo o povo brasileiro.

 * Cidadão pernambucano, jornalista

 


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