‘Tudo é política’, ensina Mino Carta

por Sulamita Esteliam
Mino Carta, jornalista e escritor, diretor de Carta Capital - Foto capturada na rede?Confraria dos Pensadores
Mino Carta, jornalista e escritor, diretor de Carta Capital – Foto capturada na rede/Confraria dos Pensadores

Já fui acusada, por gente fraterna, de apelar para Mino Carta para corroborar minhas opiniões. Ouso dizer que, guardada a distância abissal que separa nossa experiência profissional e mesmo de geração, nem sempre concordo com o que ele professa – a respeito da exigência do diploma para o exercício do Jornalismo, por exemplo.

Todavia, taí um cara que admiro – pelo desassombro em falar o que pensa, exercer e sustentar o direito de escolha, mesmo tendo, muitas vezes, que nadar contra a corrente e/ou pegar o boné, partir pra outra.

O tempo não soçobrou sua fidelidade a princípios que, assegura, recebeu no berço.

Ancorar-se em fatos e manter a postura crítica; é o que Mino faz por onde passa – e acompanho seu trabalho desde a era Veja, quando ainda era revista. Mas isso é obrigação de jornalista e do Jornalismo dignos do nome. Embora seja cada vez mais raro nestas plagas – e taí a Oia!, jornalões e assemelhados que não me deixam mentir.

Frequentei, por breve tempo, o rol de colaboradores eventuais de revista dirigida por Mino Carta, a IstoÉ. Logo na minha chegada a  Brasília, e enquanto a redação da sucursal esteve sob a chefia de Bob Fernandes – atualmente no Terra Magazine e na TV Gazeta, depois de passar por Carta Capital, a derradeira criação de Mino Carta.

Mas a sede daquela e de publicações anteriores sob seu timão, assim como a de Carta Capital, sempre foi São Paulo. Uma única vez tive oportunidade de contato pessoal,  há alguns bons anos, no Rio. Deu-se em seminário promovido pelo NPC – Núcleo Piratininga de Comunicação, dos queridos Vito Gianotti e Cláudia Santiago.

Então, me apresentei a ele, claro. Não perderia tal oportunidade. Foi muito receptivo, simpático de fato. Não pedi autógrafo nem emprego e nem enviei currículo, posteriormente, se querem saber.

Todo esse prolegômeno é para dizer que não tenho motivos para bajular Mino Carta. Mas tenho todas as razões possíveis para respeitá-lo e para sugerir que atentem para o que diz e escreve o jornalista.

Por isso, compartilho o editorial da edição 798 de Carta Capital, que ainda está nas bancas. O tema é a política. O mote, a entrevista que Lula concedeu a TV portuguesa, e da qual a mídia nativa pinçou, e tricotou a bel prazer, a afirmação dele de que o julgamento do dito “mensalão” – que a jornalista Hildegard Angel chama de “mentirão”, foi político.

Mino corrobora: “tudo é política”.

 

 

Editorial – Carta Capital 798

Porque tudo isso é política

A mídia nativa, por exemplo, não pode deixar de ser porta-voz da casa-grande
por Mino Carta — publicado 02/05/2014 09:18, última modificação 02/05/2014 

Silvio Berlusconi dispensa apresentações e a respeito da lamentável figura direi apenas que começa para ele a prestação de serviço a doentes de Alzheimer. Trata-se de cumprir a pena cominada com sentença definitiva no processo por fraude fiscal. Outras condenações virão inexoravelmente, e bem mais pesadas, inclusive por compra de votos para derrubar o governo de Romano Prodi em 2008.

Pensei em Fernando Henrique Cardoso, comprador de votos durante seu primeiro mandato presidencial para conseguir a alteração constitucional destinada a permitir sua reeleição. Foi operação conduzida praticamente às claras, a contar inclusive com o testemunho de parlamentares envolvidos. A Justiça brasileira encarou os fatos com aquela olímpica impassibilidade recomendada quando lhe cabe zelar pelos interesses da casa-grande.

E que dizer do clangoroso silêncio que cercou a maior roubalheira-bandalheira da história do País, a fantasmagórica operação das privatizações da comunicação, embora não faltassem provas abundantes da tramoia tecida entre o Ministério das Comunicações, o BNDES e o banco Opportunity. Lá pelas tantas, surgiu a chance do recurso ao príncipe do jogo, FHC, alcunhado “bomba atômica”, conforme os grampos que tive o desprazer de ouvir à época. O interesse, no caso, era aquele de um grupelho de graúdos moradores da casa-grande, e para eles o desfecho do enredo não poderia ter sido melhor.

A Justiça brasileira não é vendada porque não se importa com quem está à sua frente e sim com o crime cometido. Ela desvenda-se a toda hora e faz triagem prévia dos crimes, a fim de excluir quantos põem em risco o privilégio. Está além do óbvio que esse gênero de atuação obedece a critérios e injunções políticas. Presta-se à disputa do poder a favor da minoria. Quando o ex-presidente Lula diz que o chamado “mensalão” foi um processo sobretudo político, constata apenas e tão somente a verdade factual.

É do conhecimento até do mundo mineral que mensalão, com o sentido de propina periódica, não houve. Nem mesmo formação de quadrilha o Supremo logrou provar. Houve uso de caixa 2, executado talvez com inédita desfaçatez. Mas o recurso é conforme a tradição da política à brasileira. E por que este delito não foi punido inúmeras vezes antes que respeitasse ao PT? E por que o mensalão tucano, bastante anterior ao petista, somente agora vem à baila, de sorte a encaminhar-se alegremente para uma tertúlia final na pizzaria?

A Justiça brasileira age politicamente desde o momento em que poupa o rico da cadeia. Já escrevi neste espaço, e me agrada repetir: este é o país onde José Genoino está preso e Daniel Dantas solto. Em Nova York e em Londres o banqueiro do Opportunity foi condenado, no Brasil não. Quem haverá de ligar para isso? Não será certamente uma minoria que imagina viver em Dubai, e seus aspirantes, ainda e sempre esperançosos de compartilhar visão tão peculiar.

Volto à fala de Lula, a suscitar o repúdio irado de Joaquim Barbosa, que o próprio ex-presidente elevou à glória do STF. De Barbosa não se espera que retribua com eterna gratidão, não foi esta, porém, a única oportunidade em que ele desrespeitou a lógica e o ordenamento democrático. Nem se fale do empenho midiático na tentativa de precipitar a derrota petista em outubro próximo. Que cada qual defina sua preferência por este ou aquele candidato, por este ou aquele partido, é digno, justo e salutar. No entanto, o que acontece por aqui no desempenho do jornalismo nativo é algo único na face da Terra.

A mídia, salvo raríssimas exceções, mira no mesmo alvo, é o que clamam as manchetes sobre a fala de Lula a respeito do “mensalão” e sobre o “repúdio” de Joaquim Barbosa, ou desfraldadas em nome de uma pretensa campanha à sombra do “volta Lula”. Não se exclua que vários políticos e empresários prefiram o ex-presidente em lugar de Dilma, mas uma campanha em marcha ao rufar dos tambores é a da própria mídia. A qual, ao apostar no besteirol reinante, preocupa-se até com o tamanho da cela ocupada por José Dirceu na Papuda, e a propósito veicula uma informação inexata. Exata é a seguinte: uma delegação de cinco parlamentares visitou a prisão, dois acharam a cela maior do que a reservada aos demais condenados do “mensalão”, três a viram igualzinha. E se fosse maior?


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s