Papo de viagem e encontro de gerações

por Sulamita Esteliam
Viajar atiça os olhos e aquece o coração - Foto: SE
Viajar atiça os olhos e aquece o coração – Foto: SE

Sim, fiz excelente viagem. Convenhamos, entretanto, que ninguém fica longe de casa por três semanas, impunemente. Ao fim do dia de ontem, estava exausta e a noite me pegou implorando pela velha cama. Dormi 12 horas seguidas. O dia ficou curto também hoje e, por isso, só no fim tarde abri o computador, e para cumprir tarefa.  Estou mesmo ficando velha…

Quando deixamos Confins, dia 03,  fazia algo em torno de 18 graus. O comandante estimou nosso tempo de vôo em cerca de duas horas e onze minutos, e anunciou o que nos esperava no Recife: céu ligeiramente nublado e 29 graus.

Minha companheira de viagem, envolta em suéter de espessa lã, comentou sorrindo:

– E nós aqui, nesse frio…!

–  Ao que, respondi: “E olha que é ‘inverno’ por lá…”

Viajei em companhia, muitíssimo agradável, de uma jovem campinense, sem o sotaque característico, de sorriso e prosa fáceis.

Desembarca em Pernambuco com vistas ao São João, de Caruaru, no Agreste. Está a trabalho. Fica uma semana no Recife, na pegada dos costumes locais, para depois seguir caminho. Escala técnica, portanto.

Natacha trabalha com “Inovação”, seja o que for que isso signifique na área de vendas ou de mercado. Mora em Campinas e labora em São Paulo. Pega estrada todos os dias, dirigindo por uma hora, cada percurso. Chega mais rápido do que colegas que moram na capital.

Faz isso em nome da própria saúde mental. Pira com o trânsito paulistano. Concordo, plenamente.

É formada em Administração e funcionária de grande indústria nacional de bebidas. A referida empresa patrocina o Melhor São João do Nordeste ( o Maior é o de Campina Grande, segunda capital da vizinha Paraíba). A cidade espera receber um milhão de turistas este ano.

Conversamos sobre família, estudos, trabalho, carreira, viagens. A moça tem 26 anos, e é casada há três. Não tem filhos, e pretende adiar, quanto puder, a decisão de engravidar. O marido, oito anos mais velho, concorda. Quer viajar, conhecer outros países, outras culturas, antes de ter família própria. Faz muito bem.

Na contramão do que se espera de alguém acostumada a ser alvo e centro de atenção, Natacha rompeu o cordão umbilical aos 20 anos. Morou sozinha em São Paulo antes de tornar à terrinha, casada. Querer é poder.

Olhava, com divertida curiosidade, o “doze” que um casal de paulistas, na fila de poltronas à esquerda, cortava com três crianças. A diferença de idade entre duas delas é equivalente a uma barriga.

A mãe se virava em trinta para atender a agitação de um e o choro da outra, ou vice-versa, tudo ao mesmo tempo, e sem perder a calma. O pai mostrava nítida dificuldade em impor moral ao garoto, enquanto derretia-se com o chamego da bebê. Pense na farra…

Comentei que vivera situação semelhante com meu casal primogênito, que eu pari no tempo da faculdade. Riu quando contei que meu filho, já adulto, me disse que eu os carregava para lá e para cá, “feito chaveirinho” – à essa altura já sem marido, e sem carro…

Espantou-se ainda mais quando lhe disse que tenho quatro filhos, de três gerações diferentes, com intervalo de 18 anos entre o primeiro e a última. E que minha caçula foi tia aos três anos, e aos 20 anos já são quatro os sobrinhos.

Perguntou-me o que seria mais difícil: ter filhos em sequência ou com espaço mais longo. Respondi que há vantagens e desvantagens: o bom é que se cria junto; o ruim é que é trabalho dobrado, no primeiro caso; no segundo, você pode usar a experiência a seu favor, mas tem que aprender a administrar a ciumeira, e a se desdobrar para equilibrar o conflito de interesses – seus, inclusive; e aí, em qualquer hipótese.

Ao fim e ao cabo, é preciso fôlego e disposição, mas ninguém morre por isso. Há sonhos que ficam pelo caminho, mas são escolhas as quais não se deve lamentar. Salvam-se todos, bem ou mal. E acaba sendo gratificante, do princípio ao fim.

Como escreve o poetinha, Vinicius de Moraes, “filhos, melhor não tê-los; mas se não tê-los, como sabê-lo?”.

Natacha é filha única – “com todos os bônus, e ônus, que isso significa”. Mãe e pai também têm famílias pequenas. São apenas seis primos, ela incluída.

O extremo oposto da minha família.

Gê e Toninho, os primeiros  dos 47 primas e primos, frutos de sete dos oito filhos que minha avó materna pariu
Gê e Toninho, os primeiros dos 47 primas e primos, frutos de sete dos oito filhos que minha avó materna pariu – Foto: SE

Ficou boquiaberta quando lhe disse que somos 47 primas e primos, e que esses geraram outros 47, até onde pude contar, e assim sucessivamente. Só no meu ramo materno.

No ramo paterno, em compensação, a partir da geração de meus avós, Euzinha, meu irmão, duas irmãs, nossas respectivas proles, e meus netos somos os únicos descendentes, e sobreviventes.

Contei-lhe que aproveitara minha estada, não programada, em Minas, para visitar o primeiro primo, na roça, depois de mais de 15 anos sem vê-lo. Tive a cumplicidade de outro primo-irmão e uma prima-irmã, queridos.

Fruto do meu desejo expresso, patrocinado, foi o reencontro de Toninho com a primeira prima, Gê. Também não se viam há muito, muito tempo. Emocionante. Ainda quero escrever sobre a experiência, que mexeu no miolo do meu ser.

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Sao Joao Caruaru _ Polo Vitalino, estaçao
Forró na Estação (Ferroviária), um dos polos de animação do São João de Caruaru – Foto: Prefeitura da cidade

Sim, a propósito do São João: embora o 24 de junho ainda esteja distante, a festa já começou em Caruaru. Desde o 31 de maio, o Parque Luiz (Lua) Gonzaga  e os diversos polos de animação já fervilham, apesar das restrições de horário, em nome da segurança – clique para saber detalhes.

Para quem quer curtir a cidade, terra também do Mestre Vitalino e da arte popular em barro, o melhor  é se antecipar à semana do São João, propriamente dita. É mais tranquilo e mais seguro.

 

 

 

 


Um comentário sobre “Papo de viagem e encontro de gerações

  1. Que linda foto dos primos!Preciso ter esta energia para poder matar saudades de pessoas tão queridas que não as vejo há tanto tempo. E olhe que a distância que nos separa não se compara com a que você percorreu para nem que seja por um instante matar saudades.

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