A estupidez como expressão da vira-latisse explícita

por Sulamita Esteliam
Garoto guarani e o "soluçar de dor" de sua raça - Foto capturada em Carta Capital/Luiz Pires-Comissão Guarani Yvyrupa
Garoto guarani e o “soluçar de dor” de sua raça – Foto capturada em Carta Capital/Luiz Pires-Comissão Guarani Yvyrupa
Na foto, o teste do exo-esqueleto que permitiu ao para-atleta dar pontapé inicial simbólico na abertura da Copa.  Anos de preparo para sete minutos de divulgação - Foto capturada no GGN
Na foto, o teste do exo-esqueleto que permitiu ao para-atleta dar pontapé inicial simbólico na abertura da Copa. Anos de preparo para sete minutos de divulgação – Foto capturada no GGN

Passei o dia ocupada com meus afazeres domésticos. Entre uma tarefa e outra, pude ver a explosão de alegria holandesa sobre a apática arrogância espanhola. Não é que os súditos de sua majestade emudeceram!

Fugaz refrigério, suficiente para afugentar, por bons minutos, o pensamento recorrente sobre a estupidez galopante de uma biblioteca e praça públicas depredadas em Beagá,  de manifestantes e trabalhadores espancados pela PM em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Incomoda, sobretudo, a selvageria explícita como cartão de visitas internacional. Falo, especialmente, do espetáculo vexatório, para todo o planeta ver e ouvir, oferecido por nossa gente diferenciada, na abertura da Copa do Mundo no Brasil.

Acredita-se com pedigree, mas age como vira-latas, sarnentos.

Confesso que os canais, por assinatura, pelos quais acompanhamos a solenidade, aqui em casa, não tiveram o mau gosto de abrir os microfones para o xingatório.

Talvez porque exercitemos o controle remoto nervoso, migrando daqui pra li.  Fomos poupados, porque nosso telespectadorismo comparado, eu diria, não inclui a TV Globo e assemelhados.

Só à noite, pós-jogo do Brasil x Croácia, soubemos da agressão, vergonhosa. Ouvimos de um comentarista esportivo, de emissora que é parte das organizações Marinho, que registrou sua indignação com o coro de palavrões a que foi submetida a presidenta da República.

Gostem ou não, Dilma é a suprema mandatária da República Federativa do Brasil. Eleita pelo voto da maioria inquestionável dos brasileiros e brasileiras.

Soube, aliás, que a Globo “não teve tempo” para registrar o feito histórico da inteligência brasileira: o robô, controlado pelo cérebro, que permitiu a um paraplégico dar o chute inicial da Copa no Brasil. Obra do cientista brasileiro Miguel Nicolelis, que concorda que a Fifa não estava preparada para “filmar uma experiência histórica” – aqui.

Certamente, o mesmo espírito não permitiu que a mídia nativa, e aí até os canais por assinatura, aqueles pelos quais seguimos o evento, aqui em casa, registrasse  outro feito: o protesto altivo, pacífico,  educado e digno de um dos povos das três raças que formam os brasileiros, convidadas para a cerimônia de abertura.

Em um dado momento uma criança guarani abre uma faixa, que pede “Demarcação” das terras indígenas. Carta Capital publica – com foto, para não deixar dúvida.

Quanto ao coro de selvageria explícita, sequer comentários captamos, nem mesmo nos momentos em que mostraram a presidenta da República, de terninho verde bandeira, com golas sobrepostas deixando entrever o amarelo.

Ao seu lado, uma mulher mais jovem – que suponho seja a única filha -, com a camisa da Seleção Brasileira. Bom contrapeso à presença de Joseph Blatter, presidente da Fifa, do lado oposto.

Chegamos a comentar, eu e meu companheiro: “Acharam que fossem acuar a presidenta. Que ela abriria mão do dever, e direito, de fazer-se presente na abertura do evento internacional do qual é a anfitriã. Não conhecem Dilma Roussef, nem as prerrogativas e obrigações de chefe de Estado”.

Vaias ouvimos. Mas se confundiam com os apupos com que foram brindados os adversários em campo.

Ademais, vaias são próprias de ambientes como tais. Já dizia Nelson Rodrigues que, em estádios, torcedor vaia até minuto de silêncio, que dirá autoridades.

No que diz respeito à Dilma, o que são vaias, ou mesmo xingamentos, para quem já superou a tortura e encarou de frente seus algozes?

A resposta, a própria presidenta deu, em termos bem claros, nesta sexta – aqui.

Fui para o Twitter, ainda ontem, e aí, acompanhei a história. Hoje pela manhã apreendi os detalhes: quem xingou, pagou R$ 990 o ingresso. Ou foram artistas ou quem se acha tal, convidados para a festa. O coro de horror, partiu da área vip.

Consta, nas redes, que do camarote de um certo banco patrocinador do evento –  aquiaqui e aqui. Aquele que botou no ar comercial com hino de louvor à pátria de chuteiras: “Mostra sua força, Brasil/amarra o amor na chuteira…”

Talvez por coincidência, estrelado por Fernanda Takai – garota-propaganda do governo de Minas -, em parceria com o titã, multimídia, Paulo Miklos.

Reproduzo o que capturo, para registrar para a história, via Carta Capita. O dia em que a “elite branca”- resgatando a definição do ex-governador paulista, Cláudio Lembo (DEM) -, pagou caro, ou valeu-se de boca livre, para mostrar-se como é ao mundo: sem-respeito, sem-educação, sem-dignidade.

Vira-latisse crônica e explícita, que não tem nada a ver com espírito crítico e longe está do sentimento de cidadania:

 

 

Não foi Dilma Roussef a humilhada. Mas a Nação Brasileira.

É este o espírito que pretendem retomar na governança deste país? Se não há limite para a hipocrisia, para o cinismo e oportunismo, para a desfaçatez, sobra lugar para a barbárie.

Nisso, a casa-grande se locupleta. Pior é que não faltam seguidores. Sorte é que ainda somam minoria.

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A propósito, aí vão dois comentários de Bob Fernandes às vésperas da Copa, com intervalo de dois dias entre eles. A fonte é o Youtube,  sem defasagem entre a análise política que o colega jornalista faz na TV Gazeta, ao vivo, no jornal da noite, e a postagem do vídeo na internet.

Já temos Copa, mas vale recordar o ontem imediato, para não sermos tentados a esquecermos o que move o mundo,vaias e aplausos, celebrações e protestos, em todos os tempos. Até porque, entre a Copa e o futuro, temos eleições em outubro próximo.

1 – O comentário da segunda-feira, 09/06 foca as obras das arenas:

 

 

2 – O comentário mais recente, do dia  11/06, véspera da estreia, fala dos interesses em jogo, de “oportunismo e hipocrisia”:

 

 

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PS: Matéria revista e atualizada, dia 14.06.2014, às 12:32: correções pontuais de digitação em diferentes parágrafos; acréscimo dos parágrafos 19 e 20, com acesso a postagens importantes sobre o assunto “hostilidade” em outros blogues; inclusão do autor de citação no parágrafo 21.

PS2: Nova revisão em 16.06.2014, às 19:29: correção da palavra “explícita” no título, postada com letras trocadas, originalmente.

 


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