Toda solidariedade ao povo palestino

por Sulamita Esteliam

Crianças israelitasSemana passada, o amigo Gilson Caroni Filho, professor de sociologia na Facha/RJ, postou a foto ao lado, e escreveu em sua linha do tempo no Facebook: “Em 1963, Hannah Arendt apresentou ao mundo o conceito de ” banalidade do mal”. Em 2014, o Estado israelense emprega suas crianças para explicá-lo melhor. Total solidariedade ao povo palestino.”

Na manhã desta segunda-feira, leio em Carta Maior, já são 505 mortos na Faixa de Gaza, todos palestinos. A grande maioria, mulheres e crianças. Em contrapartida, do outro lado, são 14 soldados israelenses mortos até agora, e a suspeita de sequestro de um outro.

Aspas para Flávio Aguiar, que escreve de Berlim para a agência referida: “O isolamento de Israel aumenta, mas o governo de Benyamin Netanyahu não parece disposto a recuar. Os bombardeios aéreos e naval foram ampliados para o sul da Faixa, atingindo regiões densamente povoadas, matando famílias inteiras.”

Segundo o correspondente, há acusações, “não desmentidas até o momento, de que Israel estaria usando bombas de fragmentação, que explodem no ar e destroçam quem estiver por perto.”

É fato que do outro lado tem o Hamas e suas múltiplas facções, algumas que não concordam em suspender os disparos de foguetes sobre Israel. Bombas caseiras, descuidadamente disparadas no quintal israelense. A desproporção de vítimas fala por si.

Charge do Latuff para o Brasil 247
Charge do Latuff para o Brasil 247

Não me venham, então,  com a palavra guerra. É massacre. É como se Israel desejasse perpetuar holocausto judeu produzindo outro no lombo da gente palestina. Pura barbárie.

Pode-se argumentar que a conflagração é a tônica no Oriente Médio. Como se aquela região do planeta estivesse fadada a nos lembrar, sempre, de como o ser humano é falível e pode ser atroz. Ou como podemos refletir a ira divina sobre nós mesmos.

Todavia, impossível não pensar que os Estados Unidos sejam cúmplices dessas atrocidades. Até as pedras sabem que Israel não solta um traque, sequer, sem a aprovação estadunidense.

E todos os “esforços” da comunidade internacional, que se move na velocidade de um paquiderme, com vistas a um cessar fogo, parecem fazer parte de uma cena de teatro do absurdo.

Até porque, a violência contra a Palestina é abissal e contínua, mesmo fora de tempos de “crise”.  Noam Chomsky, filósofo e ativista político norte-americano, lembra em artigo publicado por Outras Palavras no último dia 12, reproduzido por Carta Maior:

“Quando Israel está em fase de “bom comportamento”, mais de duas crianças palestinas são mortas por semana – um padrão que se repete há 14 anos. As causas de fundo são a ocupação criminosa e os programas para reduzir a vida palestina a mera sobrevivência em Gaza. Enquanto isso, na Cisjordânia os palestinos são confinados em regiões inviáveis e Israel tomas as terras que quer, em completa violação do direito internacional e de resoluções explícitas do Conselho de Segurança da ONU – para não falar de decência.”

Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, analisa em texto, com a sua marca, publicado pela Esquerda.Net, no domingo, e também reproduzido por Carta Maior:

“Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem sequer respirar sem autorização. Têm perdido a sua pátria, as suas terras, a sua água, a sua liberdade, tudo. Nem sequer têm direito a eleger os seus governantes. Quando votam em quem não devem votar, são castigados. Gaza está a ser castigada. Converteu-se numa ratoeira sem saída, desde que o Hamas ganhou legitimamente as eleições em 2006. Algo parecido ocorreu em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador. (…)  A democracia é um luxo que nem todos merecem.

(…)

israel-palestina-mapa1_0Os colonos invadem, e, depois deles, os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam o despojo, em legítima defesa. Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polónia para evitar que a Polónia invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma das suas guerras defensivas, Israel engoliu outro pedaço da Palestina, e os almoços continuam. O repasto justifica-se pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinianos à espreita. Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, o que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, o que escarnece das leis internacionais, e é também o único país que tem legalizado a tortura de prisioneiros. Quem lhe presenteou o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está a executar a matança em Gaza?

O governo espanhol não pôde bombardear impunemente o País Basco para acabar com a ETA, nem o governo britânico pôde arrasar a Irlanda para liquidar o IRA. Talvez a tragédia do Holocausto implique uma apólice de eterna impunidade? Ou essa luz verde vem da potência ‘manda chuva’ que tem em Israel o mais incondicional dos seus vassalos? O exército israelita, o mais moderno e sofisticado do mundo, sabe quem mata. Não mata por erro. Mata por horror. As vítimas civis chamam-se danos colaterais, segundo o dicionário de outras guerras imperiais.

Em Gaza, de cada dez danos colaterais, três são meninos. E somam milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está a ensaiar com êxito nesta operação de limpeza étnica. E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Por cada cem palestinianos mortos, um israelita. Gente perigosa, adverte o outro bombardeamento, a cargo dos meios massivos de manipulação, que nos convidam a achar que uma vida israelita vale tanto como cem vidas palestinianas. E esses meios também nos convidam a achar que são humanitárias as duzentas bombas atómicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irão foi a que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.

A chamada comunidade internacional, existe? É algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? É algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos assumem quando fazem teatro? Ante a tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial destaca-se uma vez mais. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade. Ante a tragédia de Gaza, os países árabes lavam as mãos. Como sempre. E como sempre, os países europeus esfregam as mãos.

A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama uma ou outra lágrima enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. Porque a caça aos judeus foi sempre um costume europeu, mas desde há meio século essa dívida histórica está a ser cobrada aos palestinianos, que também são semitas e que nunca foram, nem são, antissemitas. Eles estão a pagar, em sangue, na pele, uma conta alheia.”

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Eduardo Galeano dedica o artigo aos seus “amigos judeus assassinados pelas ditaduras latino-americanas que Israel assessorou”.

Artigo publicado, originalmente no Sin Permiso. Traduç]ao de Mariana Carneiro para o Esquerda.net.

 

 

 

 

 

 


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