Capitanias hereditárias servem para essas coisas…

por Sulamita Esteliam

latuf_aecioporto-300x185Não repercuti aqui a matéria sobre o “aecioporto” ou “aeroécio”, como tratado nas redes sociais, em Claúdio (não deveria ser aerécioporto!?), porque ontem tinha assunto prioritário a tratar. Prestação de contas a mim mesma, escrever sobre o extermínio étnico, crime contra a humanidade, perpetrado por Israel sobre os palestinos na Faixa de Gaza.

Todavia, vejo que o assunto “aeroporto familiar”, do Primeiro Neto, vai render muitos bits campanha afora… Mais, talvez, do que pretendeu a Folha paulista, que publicou a matéria no domingo, causando rumor e perplexidade. Como assim, a Folha…!?

A grande notícia, mesmo, seria se o jornal – e todos os demais assemelhados – se despojasse da máscara, e declarasse, com todas as letras, de que lado está na disputa. E ainda assim fazer jornalismo.

Pelo que acompanho, via internet, não pareceu ter se interessado em ir mais fundo na apuração dos fatos. Se o fizesse, descobriria, por exemplo, que a pista de pouso que originou o aeroporto, foi construída em 1983, segundo publicou seu rival Estadão – aqui, no Observatório da Imprensa.

Naquele ano, que parece longínquo, Tancredo Neves, avô do ora postulante à sucessão de Dilma Roussef na Presidência da República, tomou posse no governo de Minas. Vai ver, quis homenagear a esposa, Risoleta Tolentino Neves, a cuja família pertence a fazenda.

Afinal, não teria tempo para muito mais. Já em 1994, enterrada as Diretas-já, deixaria o Governo de Minas para concorrer à Presidência da República pelo Colégio Eleitoral, em novembro daquele ano. Eleito pelo Congresso, não tomou posse, apeado por uma diverticulite mal tratada (cobri essa agonia de três meses e sete dias).

Deixou-nos Sarney, e o Primeiro Neto, e a Primeira Neta como heranças. Tancredo Neves era um azarado brincalhão. Raposa felpuda, também padecida de autoengano, como se vê.

Enfim, deixou também a pista de terra em Claúdio, que assim permaneceu 25 anos depois, restrita a teco-tecos. O neto-governador, que não por acaso tem fazenda ali perto, a coisa de 6 quilômetros, resolveu aprimorar a obra, em 2008, fim do segundo mandato.

Uma desapropriação ali, no patrimônio familiar, não custava nada…

O que são R$ 13,4 milhões, afinal, para um erário em choque de gestão?

E lá está o aeroporto, modesto é verdade; só pode receber pequenos aviões, mas tem sido útil uma vez por semana, garantem os parentes do Primeiro Neto. É que ainda não está autorizado a operar pelo órgão competente, nem solicitado foi, aliás esse é um pequeno detalhe, e a matéria da Folha não apurou.

Talvez por isso as chaves fiquem em posse do tio avô, mesmo sendo obra oficial do Governo do Estado de Minas Gerais. E não porque seja “um costume do interior de Minas” alguém tomar conta das chaves, conforme a resposta apressada e mal-enjambrada, da assessoria de campanha do candidato.

Se buscasse, a reportagem da Folha saberia que no próximo dia 28, a cearense Aracati inaugura seu aeroporto, que logrou investimentos de cerca de R$ 19 milhões em obras civis, a preços e 2012. Sua estrutura o capacita a receber Boeings 737 e 1.200 voos por ano, segundo o departamento responsável.

Aracati é cidade turística, fincada às margens do Rio Jaguaribe, mas a caminho do litoral sul do Ceará. O município administra a famosa praia de Canoa Quebrada, dentre outras. Fará muito bom uso de seu aeroporto comercial.

aracati x aecioportoSim, o blogue Tijolaço, onde busquei a informação acima, faz o comparativo entre o custo do campo de pouso em Claúdio,  atualizado para 2012, no Centro-Oeste mineiro, com o aeroporto de Aracati. Obra do Fernando Brito. Não é que o aerécioporto perde, por R$1 milhão e 100!?

Mas a história não para por aí. Soube pelo blogue O Cafezinho que a mídia parece mesmo disposta a mostrar serviço. Tanto que aponta  mais uma causalidade para a construção do aerécioporto em Claudio: a construtora responsável pela obra, a Vilasa (sério), é doadora de/para Aécio. Miguel do Rosário completa, e de campanhas tucanas. Várias.

Doou R$ 67 mil para Aécio governador em 2006, e R$ 20 mil para seu sucessor, Anastasia, em 2010, conforme registra a Justiça Eleitoral – aqui, no Estadão.

Doou R$ 40 mil para Rodrigo de Castro, deputado federal mineiro em 2010, secretário-geral do PSDB e filho de Danilo de Castro, homem-chave da governança do estado nos três últimos choques de gestão.

Sim, doou, também para Arthur Virgilio senador pelo Amazonas, a bagatela de R$ 200 mil, Perdeu na ocasião. O homem agora é prefeito de Manaus.

Mas não doou para Aécio Neves senador em 2010. E nem precisava.

Os grifos são das respectivas páginas no sítio Os Donos do Congresso. Recomendável para quem quer entender como certas coisas funcionam.

Bom, o Primeiro Neto, sabe-se, acredita seguir a trilha do avô, que o iniciou nas lides políticas. Ao que consta, a pedido do pai, Aécio Ferreira da Cunha, que também era político (deputado pelo PR-Arena-PDS-PFL – também aqui) mas, tudo indica, não conseguia enquadrar o filho.

Tancredo o fez seu fiel escudeiro.

Capitania hereditária serve para essas coisas, todas…

Em tempo: E a propósito, tem outra história, ainda mais cabeluda, sobre terras devolutas em Montezuma, no Norte de Minas, envolvendo empresas dos herdeiros do falecido Aécio Ferreira da Cunha. Coisa de 950 hectares. Li no Escrevinhador, que reproduz publicação do Blog da Helena, na Rede Brasil Atual. Para não me alongar, aí estão os acessos.

PS: Sim, não é porque Montezuma só tem 8 mil habitantes que não merece um arécioporto, concordam? Pois tem. Era uma pista de cascalho, na era Newton Cardoso (PMDB) – que governou Minas de 1987 a 1991, e foi vice de Itamar Franco (1999/2003) – que tem fazenda região. Ganhou suporte e asfalto para receber jatinhos na era Aécio Neves. Clique para ler no Tijolaço.

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Postagem revista e atualizada dia 23.07.2014, às 16:58: inclusão da frase “Coisa de 950 hectares” no ‘Em Tempo’; acréscimo do PS.

 

 

 


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