Israel x Brasil: lições sobre labirintos

por Sulamita Esteliam
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A carnificina em Israel continua, à revelia do mundo. E a mídia nativa se mantém, como sempre esteve. Então, nada de novo quando celebram, orgasticamente, a bravata da chancelaria daquele país ao tratar o Brasil como “anão diplomático”.

Ocorre-me o livro que estou lendo, primeiro de uma série, em que o anão é, justamente, o personagem mais inteligente, astuto e perspicaz da história. A Guerra dos Tronos – As Crônicas de Gelo e de Fogo, de George RR.Martin, traduzido por Jorge Candeias, Leya, São Paulo, 2010, 592 páginas. É base do seriado homônimo, em inglês A Game of Thrones, a quem fui apresentada, recentemente, e recupero com ajuda da internet e do meu companheiro.

Similitudes à parte, a conversa é outra, agora.

Fez muito bem a diplomacia brasileira em condenar a força desproporcional usada na Faixa de Gaza. Assim como criticou a atitude do Hamas, em disparar foguetes e morteiros, rotineiramente, contra o lado israelita, mesmo que com poder de fogo risível – aqui no blogue.

A contagem de vítimas, de um e doutro lado confirmam. Coisa de 800 x 30, na última contagem disponível. E estamos falando de gente, não de gols ou pontos num videogame.

O que Israel tem feito nessas duas semanas é um massacre injustificável e inaceitável. Dizimou oito centenas de pessoas, a maioria civis, em boa parte crianças, mulheres e idosos. Violou a decência. E não parece disposto a parar, à revelia da comunidade internacional. São os fatos.

Diante disso, o Brasil votou, acertadamente, a favor da resolução da ONU, que condenou as graves e sistemáticas violações dos direitos humanos e fundamentais por parte de Israel contra os palestinos em Gaza. E chamou de volta o embaixador do Brasil em Tel Aviv.

A postura do governo brasileiro é soberana, e é humanitária. Embora reconheça o direito de Israel e Palestina serem um Estado. E assinale o imperativo de conviverem em paz, para sossego de seu povo, e de todo o Oriente Médio.

Não sou eu quem o diz. É Marco Aurélio Garcia, assessor Especial para Assuntos Internacionais do governo Dilma. Para ele, “é evidente que o Brasil não busca a “relevância” que a chancelaria israelense tem ganhado nos últimos dias. Muito menos a “relevância militar” que está sendo exibida vis-a-vis população indefesa”.

Leia o artigo O que está em jogo na Faixa de Gaza, republicado por Carta Maior, a partir do Ópera Mundi.

O professor Gilson Caroni Filho, que leciona Sociologia na Facha/Rio, refresca a memória israelense, e a nossa, em postagem no Facebook, sobre a fala de Ygal Palmor, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel. Agrego trecho, pós-escrito:

 “(…) Convém lembrar a Palmor que, em 2010, o então presidente Lula quebrou o protocolo em visita ao Oriente Médio, quando dormiu uma noite em Jerusalém e outra em Belém, na Cisjordânia. Também se recusou a visitar o túmulo do fundador do sionismo (não confundir com judaísmo), Theodor Herzl. Ao contrário de outros líderes internacionais, Lula viu um Oriente que o Ocidente não vê: aquele que é escondido pelos muros que Israel constrói em território palestino. Quem é o anão?”

A propósito, recebi do Esquerdopata, que sigo, o link de artigo escrito pelo mestre Mauro Santayana, colunista do Jornal do Brasil, no seu estilo impagável. Lições de como sair do labirinto.

Transcrevo do sítio do autor:

De cegos e anões

Mauro Santayana

enanoSe não me engano, creio que foi em uma aldeia da Galícia que escutei, na década de 70, de camponês de baixíssima estatura, a história do cego e do anão que foram lançados, por um rei, dentro de um labirinto escuro e pejado de monstros. Apavorado, o cego, que não podia avançar sem a ajuda do outro, prometia-lhe sorte e fortuna, caso ficasse com ele, e, desesperado, começou a cantar árias para distraí-lo.

O anão, ao ver que o barulho feito pelo cego iria atrair inevitavelmente as criaturas, e que o cego, ao cantar cada vez mais alto, se negava a ouvi-lo, escalou, com ajuda das mãos pequenas e das fortes pernas, uma parede, e, caminhando por cima dos muros, chegou, com a ajuda da luz da Lua, ao limite do labirinto, de onde saltou para  densa floresta, enquanto o cego, ao sentir que ele havia partido, o amaldiçoava em altos brados, sendo, por isso, rapidamente localizado e devorado pelos monstros que espreitavam do escuro.

Ao final do relato, na taverna galega, meu interlocutor virou-se para mim, tomou um gole de vinho e, depois de limpar a boca com o braço do casaco, pontificou, sorrindo, referindo-se à sua altura: como ve usted, compañero… con el perdón de Dios y de los ciegos, aun prefiro, mil veces, ser enano…

Lembrei-me do episódio — e da história — ao ler sobre a convocação do embaixador brasileiro em Telaviv para consultas, devido ao massacre em Gaza, e da resposta do governo israelense, qualificando o Brasil como irrelevante, do ponto de vista geopolítico, e acusando o nosso país de ser um “anão diplomático”.

Chamar o Brasil de anão diplomático, no momento em que nosso país acaba de receber a imensa maioria dos chefes de Estado da América Latina, e os líderes de três das maiores potências espaciais e atômicas do planeta, além do presidente do país mais avançado da África, país com o qual Israel cooperava intimamente na época do Apartheid, mostra o grau de cegueira e de ignorância a que chegou Telaviv.

O governo israelense não consegue mais enxergar além do próprio umbigo, que confunde com o microcosmo geopolítico que o cerca, impelido e dirigido pelo papel executado, como obediente cão de caça dos EUA no Oriente Médio.

O que o impede de reconhecer a importância geopolítica brasileira, como fizeram milhões de pessoas, em todo o mundo, nos últimos dias, no contexto da criação do Banco do Brics e do Fundo de reservas do grupo, como primeiras instituições a se colocarem como alternativa ao FMI e ao Banco Mundial, é a mesma cegueira que não lhe permite ver o labirinto de morte e destruição em que se meteu Israel, no Oriente Médio, nas últimas décadas.

Se quisessem sair do labirinto, os sionistas aprenderiam com o Brasil, país que tem profundos laços com os países árabes e uma das maiores colônias hebraicas do mundo, como se constrói a paz na diversidade, e o valor da busca pacífica da prosperidade na superação dos desafios, e da adversidade.

O Brasil coordena, na América do Sul e na América Latina, numerosas instituições multilaterais. E coopera com os estados vizinhos — com os quais não tem conflitos políticos ou territoriais — em áreas como a infraestrutura, a saúde, o combate à pobreza.

No máximo, em nossa condição de “anões irrelevantes”, o que poderíamos aprender com o governo israelense, no campo da diplomacia, é como nos isolarmos de todos os povos da nossa região e engordar, cegos pela raiva e pelo preconceito, o ódio visceral de nossos vizinhos — destruindo e ocupando suas casas, bombardeando e ferindo seus pais e avós, matando e mutilando as suas mães e esposas, explodindo a cabeça de seus filhos.

Antes de criticar a diplomacia brasileira, o porta-voz da Chancelaria israelense, Yigal Palmor, deveria ler os livros de história para constatar que, se o Brasil fosse um país irrelevante, do ponto de vista diplomático, sua nação não existiria, já que o Brasil não apenas apoiou e coordenou como também presidiu, nas Nações Unidas, com Osvaldo Aranha, a criação do Estado de Israel.

Talvez, assim, ele também descobrisse por quais razões o país que disse ser irrelevante foi o único da América Latina a enviar milhares de soldados à Europa para combater os genocidas nazistas; comanda órgãos como a OMC e a FAO; bloqueou, com os BRICS, a intervenção da Europa e dos Estados Unidos na Síria, defendida por Israel, condenou, com eles, a destruição do Iraque e da Líbia; obteve o primeiro compromisso sério do Irã, na questão nuclear; abre, todos os anos, com o discurso de seu máximo representante, a Assembleia Geral da Nações Unidas; e porque — como lembrou o ministro Luiz Alberto Figueiredo, em sua réplica — somos uma das únicas 11 nações do mundo que possuem relações diplomáticas, sem exceção – e sem problemas – com todos os membros da ONU.

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Postagem revista e atualizada às 18:28 horas: inclusão do penúltimo parágrafo no texto de abertura.


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