Uma borboleta chamada Carol

por Sulamita Esteliam

Carol perfilDesde o despertar, meus pensamentos acompanham minha filha terceira, Carol – a caçula do pai dela. A hora em que escrevo, ela embarca rumo a Dublin, na Irlanda, onde vai estudar inglês. Não nos falávamos desde ontem, quando seguia para a enésima despedida com os amigos, na capital das Gerais.

Ligou há pouco de Guarulhos, onde chegou por volta das 14 horas. Foi a segunda vez, desde as 19 horas, quando acreditava que embarcaria em seguida, já cerca de uma hora após o previsto.  Serena, apesar do atraso de mais de quatro horas. O voo é pela holandesa KLM.

Só em Amsterdã saberá quando e como seguirá viagem até o destino. Tem 12 horas pela frente para relaxar, até porque não adianta surtar. “Mas pode dobrar suas rezas”, brincou. Manakel e Gabriel a guardam.

Carol esteve conosco no Recife, por uma semana, durante a Copa. Veio abraçar nosso pequeno núcleo familiar em terras pernambucanas, e amigos e amigas que fez no tempo que aqui viveu, aqueles  e aquelas que aqui permanecem. Flanou como a borboleta que é. Agora, só daqui a um ano.

Nessas ocasiões, a gente entra no espelho do tempo. É maneira de sossegar a mente, e aquietar o coração. E o que a gente vê reflete o que somos, e como vivemos.

Filhos, acredito, a gente cria com asas, para voar em busca dos próprios sonhos. Voar e pousar – aonde a liberdade os leva, e a responsabilidade sustenta. Homem ou mulher. A gente cuida, orienta e solta. É assim que funciona aqui em casa. O mundo é o limite.

Ao contrário do que muita gente imagina testemunhar, Carol sempre foi uma menina corajosa, determinada, criativa, ciente do seu querer. Cara de princesa, jeito de bailarina, atitudes de guerreira. Caótica em casa, perfeccionista no trabalho, encantadora com os amigos e com as crianças.

Medos, dúvidas, sempre há, e a gente enfrenta, ou pede colo quando não dá conta só. A certeza é burra, e o destemor requer prudência, e caldo de galinha.

Desde o ventre, Carol disse a que vinha. Quis antecipar-se, e me botou de repouso quase um mês, para esperar o tempo certo. Mas então, resolveu que não tinha pressa alguma de sair do conforto, e fui para minha terceira cesariana …

Carol e mami b_BH 1986Bebê, só aceitava banho de sol, em pelo, com adereço de massagem: shantala com óleo de amêndoa sobre o colo da mãe; aprendi para satisfazê-la. Já o sono, só chegava no moisés de vime almofadado, suspenso e balouçante.

Detestou a primeira escola, e fazia questão de lembrar o desacordo todos os dias, à hora do banho. Estudava à tarde, e eu a deixava na escolinha, antes de seguir para o trabalho. A prima que morava com a gente, a buscava ao fim do dia.

O irmão e a irmã que a antecederam já seguiam independentes, de ônibus; eu os levava até a parada. Estavam orientados sobre os cuidados com gente adulta no percurso. Desciam em frente ao colégio, no bairro vizinho. Havia guardas para auxiliar na travessia.

Tempos de sufoco, de criar filhos sozinha, dinheiro curto, mil e um afazeres, tempo contado no relógio.

Certa vez, pegou birra homérica, sentada ao pé da escada em posição de lótus. Deixei de lado os argumentos. Catei-a como se fosse uma bandeja, pelos cotovelos, ergui-a e venci os 17 degraus até o banheiro que ficava junto ao meu quarto – morávamos num sobrado. Depositei-a sob o chuveiro frio, com roupa e tudo.

– Você só sai daí quando parar de chorar.

E fui me arrumar. Já estava pronta quando ao choro se sobrepôs os soluços e, por fim o silêncio. Quando a retirei do chuveiro, envolvendo-a na toalha, apertou-me num abraço e disse:

– Perdoa, mami, não vou fazer mais isso… Mas a senhora me tira daquela escola?

Tinha 3 anos. Combinamos que mudaria de escola quando o semestre findasse. Foi o que fiz. Adaptou-se rapidamente. Nunca mais tivemos birra em casa. Mas foram muitas as escolas, e muitas as cidades, ao longo de vinte e poucos anos…

Na infância não faltava cantoria, e dança, e performances …  Pegava um microfone de brinquedo, ia para a sala, e escancarava a porta espelhada do bar. Caras, e bocas, e passos, e olhos revirados, soltava a voz: “Ôoo, my eyes… go looking for flying saucers in the sky…”

Onde está Carol?
Onde está Carol?

A canção do exílio de Caetano Veloso era a sua favorita naqueles idos. Outras viriam, em ritmo mais ou menos frenético: lambada, rock, samba… balé clássico no início da adolescência, em Fortaleza. As apresentações domésticas se alongariam até a pré-adolescência. Montava coreografias para si e para o grupo de primas, todas em idades próximas.

Sempre que a família se reunia, por onde passamos, tinha espetáculo. Carol na coreografia, nos figurinos, na direção e no “palco”.

Certa vez, ainda em tenra infância, a televisão de casa queimou, depois de chuva com trovoadas, típica de Beagá. Mandei para o conserto, mas a solução seria um novo aparelho. Enquanto aguardava bom tempo, fazíamos saraus poéticos. Mas então, foi a vez do som estragar. Na oficina, me informaram que não havia peça em estoque para o reparo.

A pequena ficou inconsolável. Disse-lhe que compraria um som novo, tão logo fosse possível. E ela respondeu concentrada:

– Por favor, mami, que seja logo. Não consigo viver sem música…

Quando nos mudamos para Brasília, era a rainha da 314 Norte. Todos a conheciam, das crianças aos porteiro, do bloco A ao M… – o complemento do alfabeto em construção. À época eu estava no vídeo, todos os dias, e às vezes nos três telejornais da extinta TV Manchete; tempos de CPI dos Anões, de Plano Real. Na quadra, porém, eu simplesmente era “a mãe da Carol”.

Pediu para estudar pintura num ateliê na entrequadra. E, naquele ano, em que completou 10 anos, nascimento da irmã caçula, fruto do meu novo casamento, ofereceu-se para pintar os cartões de Natal da família. Improvisamos um estúdio no banheiro social, e de lá saíram dezenas de aquarelas sobre papel-cartão, nenhum motivo repetido.

Dias houve em que chegava toda lambuzada de terra vermelha, das traquinagens quadra afora. Num desses dias chegou com um papel na mão:

– É pra senhora assinar, mami!

– Do que se trata, Carolzinha?

– Veja a senhora mesma, é um contrato para eu desfilar…

Na verdade era uma autorização, à guiza de acordo.

– Explique-me, como chegamos a isso, madamezinha …?

– Eu estava brincando de pique lá perto, a mulher me chamou, perguntou meu nome, e se eu queria desfilar. Aí eu disse que queria, e ela me deu esse papel pra eu trazer pra senhora…

– Veremos isso com calma, depois que eu falar com a dona da loja. Agora tenho que ir trabalhar.

– A senhora vai lá amanhã, promete?

E ela desfilou a coleção primavera-verão da grife-boutique brasiliense. O cachê foram os modelitos que vestiu.

Com irmão e irmãs, no Natal de 2007, Recife
Com irmão e irmãs, no Natal de 2007, Recife

Já em Fortaleza, Carol tinha 12 anos quando instruiu a irmã, quase sete anos mais velha como proceder para me dar a notícia da gravidez. “Você deixa para contar quando ela estiver pronta para ir pro trabalho. Como sempre está em cima da hora, vai lhe dizer que ‘depois a gente conversa’ – para ganhar tempo, para se recuperar do susto e da raiva …”

E colocou seus ouvidos à disposição dos meus desabafos, a caminho do colégio, onde eu a acompanharia para pegar o boletim, antes de ir para o batente. Só muito depois tomei conhecimento da artimanha, pela boca dela própria.

No final daquele ano, 13 anos completados, Carol me fez um solene comunicado:

– Mami, quero voltar para Belo Horizonte nas férias de verão. Vou menstruar com meu pai, você se importa?

Claro que me importava. Todavia, como dizer não? Das três crias primeiras, ela era quem menos havia convivido com o pai. Tinha direito a essa experiência, e eu não poderia privá-la. Em casa, houve choros e ranger de dentes, mas ela foi. E ficou por lá um ano, e quando voltou, já morávamos no Recife.

Carol e as irmãs Gabi e Babih no Carnaval 2011: Sala de Justiça
Carol e as irmãs Gabi e Babih no Carnaval 2011: Sala de Justiça

E o Recife se transformou em sua segunda terra, a terra do coração. Uma adolescência movimentada, repleta de amigos, e praias, e baladas, sem tempo para o amanhã. Os carnavais em Olinda e no Antigo, revisitados anos depois e a fio, as fantasias recriadas desde o baú…

Veio a faculdade, escolheu Comunicação/Publicidade. Cursou dois anos aqui e, novamente, achou que era tempo de voltar a Beagá. A bem do futuro profissional. Disputou com 30 uma única vaga disponível no curso noturno da PUC São Gabriel. Passou. E ficou. Tinha 20 anos.

E conciliou trabalho, em shoppings, com faculdade, teve que adequar currículo, o que esticou o curso coisa de um ano. Mas formou-se e fez complementação para Relações Públicas. Cursou produção cultural, e acabou em agência de produção de eventos. Chegou estagiária, alcançou a coordenação, em sete anos – se não erro as contas.

Carol e o labirinto spConheceu o Brasil nesse trabalho. Aperfeiçoou a tendência a fixar metas, e focar.

Morou com uma de minhas irmãs, depois dividiu apartamento com o irmão. Morou um tempo sozinha quando ele se casou, partilhou a morada com amigas, brevemente. Já a esse tempo, vivia mais na estrada e no ar, do que em casa.

Decidiu que iria para o exterior para aprender mais, e adquirir fluência em inglês. Escolheu a Irlanda, devido a condições mais favoráveis. Para fazer o pé de meia, entregou o apartamento, encaixotou suas coisas, guardou-as num barracão na casa de outra tia, e foi morar com a avó paterna durante um ano.

Adiou a viagem por um mês, para atender apelos profissionais. Mas agora está a caminho. Sob a proteção dos Anjos, do Pai e da Mãe Celestiais. O Universo se manterá cúmplice.

Leva na bagagem o nosso amor, motivo suficiente para guardarmos saudade.

 

 

 

 

 

 


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