As pedras no caminho da greve dos rodoviários

Ponte Duarte Coelho, sentido Boa Vista/Guararapes, Centro do Recife, durante a greve 2013 - SE
Ponte Duarte Coelho, sentido Boa Vista/Guararapes, Centro do Recife, durante a greve 2013 – SE
por Sulamita Esteliam

Saiamos do umbigo, pois que a coletividade clama. Recifenses e moradores da Região Metropolitana estão com dificuldades de mobilidade desde as primeiras horas da última segunda-feira. Aqueles que dependem de transporte público, cerca de 2 milhões de pessoas. É que os rodoviários estão em greve, por tempo indeterminado.

As universidades federais, que cumprem calendário próprio, para repor dias parados em greves passadas – de professores e funcionários -, estão com as aulas suspensas. As privadas, que, teoricamente, retornariam das férias esta semana, também. Todas recorrem a avaliações diárias para definir se voltam à rotina.

Os demais trabalhadores estão tendo que se virar.

Mas isso é da lei na luta pela sobrevivência. Não dá para ficar contra greve, de modo geral; é instrumento de barganha do trabalhador. Muito menos  se opor ao movimento de rodoviários, por mais transtornos que a paralisação traga. É uma das categorias mais exploradas, em qualquer canto do país. Não é diferente por essas plagas.

Experimente conversar com motoristas e cobradores: salários baixos para o nível de desgaste e responsabilidade, escalas de trabalho desumanas, jornadas de trabalho escravistas, para suprir deficiência da frota e de pessoal, benefícios quase nenhum – aqui.

Compreensível o mau humor que impera entre motoristas e cobradores ou mesmo fiscais. Quem anda de coletivo sabe. As exceções nos fazem cair o queixo, da capacidade de superação do ser humano. Há gente iluminada em todos os quadrantes, pode acreditar.

Quem paga o preço é o usuário, embora não devesse, pois o usuário, em última instância, é o cliente. E o cliente é antes de tudo, um cidadão, ou deveria sê-lo, com direito ao serviço de qualidade, pois que paga por ele, duplamente: como contribuinte dos cofres públicos, e como passageiro que arca com as tarifas, e com os reajustes decorrentes de cada processo negocial.

E a gente sabe, ou imagina, o jogo em movimento sobre o tabuleiro do transporte rodoviário, não apenas urbano. Monopólio sobre determinadas áreas ou distritos ou rotas, são comuns, desde sempre. E parece não haver interesse em mudar. A impressão é  de que é tudo dominado.

O estado de coisas se mantém via chantagem ao poder público, muitas vezes usando o próprio empregado, via sindicato (locautes=suspensão da atividade para obter vantagens); quando não a cooptação pura e simples de dirigentes públicos e legisladores, não raro financiados pelas empresas.

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A memória me obriga a um parêntesis, que corrobora o que disse acima: o ano era o de 1985, e eu acabara de ganhar uma eleição para representante de base na Comissão Intersindical que faria a campanha de jornalistas, radialistas e gráficos em Minas Gerais.

Estava recém-chegada à sucursal de O Globo, em Beagá, e um colega de redação, que já é estrela há bom tempo, me chegou com uma conversa despropositada: eu deveria me candidatar a vereadora, tinha lastro para tanto; teria gente interessada em financiar minha campanha.

Quando perguntei quem seriam os malucos, ele me disse que era “o pessoal das empresas de ônibus”. Ri muito, ele estava curtindo com a minha cara, só podia… Mas meu colega falava sério, e quis marcar um almoço, para contato direto.

– Pode ser pelo PT. Você só tem que se comprometer a defender a causa deles, quando for o caso – disse-me, assim, com a maior cara dura, fingindo inocência.

Respondi que tinha quatro problemas na proposta, no mínimo. Eu não poderia ser candidata, primeiro porque não tinha vontade; segundo porque não tinha inserção comunitária que o justificasse; terceiro porque não tinha filiação partidária e quarto, porque se filiada ao PT, não poderia aceitar uma proposta daquele nível.

Eu era uma Maria ninguém, politicamente. E mesmo assim me queriam. Não perguntei quanto o Zé levaria nessa, porque se ele negasse, estaria mentindo; se confirmasse, não poderia mais me sentar à mesa com ele.

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Os sindicatos não escapam ao assédio – neste blogue. O daqui do Recife, que engloba a Região Metropolitana, a Mata Sul e a Norte, tem nova direção, desde maio deste ano. É a primeira vez em 33 anos. Mas a posse só acontece no fim do ano.

A diretoria eleita é ligada  à Conlutas – central sindical ligada ao PSTU e ao PSol que se coloca ou considera à esquerda da CUT. Convenhamos, o que não é muito difícil, nos últimos tempos.

Tida como braço sindical do PT, a CUT talvez o seja, há coisa de seis anos. Já que a Corrente Classista/PCdoB, se retirou para a própria central, a CTB – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil.

Sim, a diretoria em vias de substituição no Sindicato dos Rodoviários do Recife é elo da Força Sindical.

Os eleitos eram oposição até o ano passado. E foram eles quem conduziram, e mostraram força, a greve bem-sucedida, do ponto de vista do incômodo pelo menos. Fato é que o movimento derrubou, pelo voto, a direção até então encastelada. Então, tem que mostrar serviço para manter a confiança dos filiados.

Tanto, que a Frente de Luta pelo Passe Livre, por exemplo, movimento que fez as jornadas de junho, apoia a greve.

Não saí à rua nesta terça, além de a um quarteirão de casa. Mas meu companheiro foi e voltou à área central, de ônibus, sem maiores atropelos, ainda que fora do horário de pico. A exemplo da greve do ano passado, no mínimo 30% da frota está em circulação, como manda a lei.

O percentual cresce nos horários de maior demanda, pela manhã e no final da tarde/início da noite, por determinação do Tribunal Regional do Trabalho, que exige 100%. E só pode estar de brincadeira…

Entretanto, como ocorreu em 2013, a partir das nove da manhã, os motoristas param os veículos onde quer que estejam.  E mesmo nos horário de maior demanda, não cumprem o roteiro habitual, fazendo os terminais no centro pontos de retorno aos bairros.

Os passageiros dispostos ou cumprem o resto do trajeto a pé, ou quem pode usa táxi. Ano passado, usei as duas alternativas para chegar ao trabalho. Este ano voltei ao desemprego, ou como diz o Mino Carta, a ter que criar meu próprio emprego.

O Sindicato dos Rodoviários, via sítio da Conlutas, diz que, na segunda corredores de maior circulação na cidade pararam: avenidas Conde da Boa Vista, Norte, Mascarenhas de Moraes, Pan Nordestina. Nesta terça, se somaram o Derby  (onde tem um terminal BRT) e a Avenida Cruz de Cabugá, acesso Centro/Olinda e vice-versa.

A pressão levou o TRT a convocar mesa de negociação na tarde desta terça, no Cais do Apolo. Desde as 16 horas, no Tribunal Regional do Trabalho, no Cais do Apolo, amplamente convocada na página do sindicato no FB. A portas fechadas, não notícias do desfecho até o fechamento desta postagem.

Pelo andar da carruagem, a greve continua nesta segunda. Na melhor das hipóteses, até que o sindicato realize assembleia, e a categoria vote pelo retorno ao trabalho, no caso de acordo.

Do contrário, o TRT pode levar ao pleno o julgamento do dissídio, ainda nesta quarta, o que quase nunca é favorável ao trabalhador.

É bom que se diga que é assim que funciona. E a nova direção dos Rodoviários, que pediu a intervenção do MPT – Ministério Público do Trabalho, em junho, deve saber disso.

Av. Conde da Boa Vista, um dos corredores de transporte coletivo mais movimentados do Recife, na greve do ano passado - SE
Av. Conde da Boa Vista, um dos corredores de transporte coletivo mais movimentados do Recife, na greve do ano passado – SE

 


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