Ebola: doença da miséria e da ‘falência moral’ do capitalismo

funcionário de saúde do governo atende uma paciente no Centro de Tratamento Kenema de Ebola - Foto: Tommy Trenchard/ IRIN/Agência Pública
funcionário de saúde do governo atende uma paciente no Centro de Tratamento Kenema de Ebola – Foto: Tommy Trenchard/ IRIN/Agência Pública

 

por Sulamita Esteliam

Mudo de assunto, enquanto a medicina legal faz seu trabalho na identificação do que sobrou dos corpos das vítimas do acidente aéreo que levou Eduardo Campos para o andar de cima. Recuso-me a tricotar sobre possibilidades político-eleitorais que a morte do pernambucano enseja. Em respeito ao luto.

Entretanto, não faltam tragédias aqui e alhures, infelizmente.

Leio na EBC – Empresa Brasileira de Comunicação notícia, da Agência Lusa, de que a epidemia de ebola que atinge a África Ocidental já matou 1.069 pessoas. Representam 80% de um total de 1.975 infectados, prováveis ou suspeitos, desde 27 de março, quando se detectou o primeiro contágio pelo vírus.

São dados da última atualização da Organização Mundial de Saúde. Referem-se ao Oeste da África, região que envolve Serra Leoa, Guiné-Conacri, Libéria e Nigéria. Na sexta, 08, a OMS declarou a situação como sendo de “emergência pública sanitária internacional”.

Apenas na Nigéria, último país a registrar casos de contaminação, no final de julho, já são 11 pessoas infectadas, segundo o governo (12 nas contas da ONS), das quais três já foram a óbito. As demais estão em tratamento em unidade especial de isolamento em Lagos, cidade mais populosa do país e da África – cerca de 20 milhões de habitantes – mais aqui.

Epidemias costumam ser fruto da miséria, e a velocidade da propagação é, segundo sanitaristas, multiplicada pela devastação ambiental. Encontra, portanto, habitat natural no continente africano – e aqui não vai qualquer vezo de preconceito. São fatos.

Se atingisse as populações dos grandes centros, a exemplo da comunidade européia ou dos Estados Unidos, a indústria farmacêutica já teria desenvolvido uma vacina capaz de barrar o vírus mortal.

Não sou Euzinha, uma reles escriba, quem o diz, mas o professor John Ashton, do Instituto de Saúde Pública do Reino Unido:

“O foco real precisa ser posto na pobreza e na devastação ambiental em que as epidemias prosperam, e no fracasso da liderança política e sistemas de saúde pública em responder efetivamente. A comunidade internacional deve envergonhar-se e procurar comprometimento real… se se deseja enfrentar as causas essenciais de doenças como Ebola.”

Ashton é a principal autoridade em saúde pública do Reino Unido, e aponta a “falência moral” da indústria farmacêutica ao não avançar numa vacina preventiva porque a doença, até agora, só afeta africanos.

O professor compara com o que aconteceu com a Aids, que durante anos matou pessoas na África; a resposta internacional só veio quando o mal se instalou nos EUA e na Inglaterra, nos anos 80 do século passado.

Em artigo no The Independent, publicado no primeiro domingo deste mês, Ashton pontua:

“Em ambos os casos [Aids e Ebola], parece que o envolvimento de grupos minoritários menos poderosos contribuiu para a resposta tardia e o fracasso em mobilizar recursos médicos internacionais adequados (…) No caso da Aids, levou anos para que o financiamento de pesquisa adequada fosse posto em prática, e apenas quando os chamados grupos ‘inocentes’ se envolveram (mulheres e crianças, pacientes hemofílicos e homens heterossexuais) a mídia, os políticos, a comunidade científica e as instituições financiadoras levantaram-se e tomaram conhecimento.”

Diz mais, cutucando os brios da comunidade internacional:

“Devemos responder a essa emergência como se estivesse acontecendo em Kensington, Chelsea and Westminster. Nós devemos também enfrentar o escândalo da falta de vontade da indústria farmacêutica em investir em pesquisa para tratamentos e vacinas, algo que se recusam a fazer porque o número de envolvidos é, em suas palavras, muito pequeno e não justifica o investimento. Essa é a falência moral do capitalismo, manifestando-se na ausência de um quadro moral e social.”

As palavras do professor John Ashton no artigo pautam a reportagem publicada pelo The Independent, na semana seguinte. O sítio Outras Palavras, editado pelo antenado colega jornalista, Antônio Martins, publica a matéria, traduzida por Gabriela Leite.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s