Poesia medieval e canto gregoriano ao gosto de plebeus

por Sulamita Esteliam
O concerto na Praça Vrijthof, em Maastrich
O concerto na Praça Vrijthof, em Maastrich

Por que hoje é sexta, vamos de vídeo e música, clássica. Valho-me do talento do meu companheiro para garimpar preciosidades. No caso o concerto Ó Fortuna/Carmina Burana, do alemão Carl Orff (1895/1982), regido por um dos mais carismáticos maestros da atualidade: o neerlandês, André Rieu – e sua Johan Strauss Orquestra – em Maastricht, Países Baixos, sua terra natal.

Carl Orff, descendente de uma antiga família de eruditos e militares de Munique, teve acesso ao Codex* de poesia medieval. Selecionou 22 poemas e com eles compôs um enredo, a lembrar o ritmo, o clima e o canto gregoriano. O prólogo e o epílogo, de que trata o vídeo que posto mais abaixo,  falam dos caprichos da roda da fortuna.

Se observarmos bem, os versos calam fundo em situações diversas, através dos tempos, e ainda hoje.

Talvez, por isso, a obra tenha caído no gosto do público – e também dos nazistas; o próprio compositor foi acusado de simpatizar com a causa. Por conta disso, é banida do Estado de Israel, e muitos maestros se negam a regê-la, também por considerá-la “um pastiche”.

No entanto, mesmo os críticos, a exemplo do maestro brasileiro Osvaldo Colarusso, paulista de nascimento, admitem que Carl Orff chama público, é garantia de casa cheia.  Por outro lado, atrai maestros respeitados, e antenados, que se deixam seduzir pela Cantata. André Rieu é prova disso.

A propósito, fica a dica para os apreciadores da boa música, e que podem bancar o ingresso: Rieu estará no Ibirapuera, na capital paulista, de 03 a 12 de outubro, com sua orquestra, trio de tenores, sopranos e coral. O sítio oficial do maestro tem informações de como e onde adquirir ingressos antecipados com segurança.

O holandês, aliás, tem público cativo no Brasil, e pelo visto gosta de estar por aqui. Ano passado, fez concertos no Rio de Janeiro e também em Belo Horizonte. Em 2012, apresentou-se em diferentes ocasiões no mesmo Ibirapuera em junho, julho e depois setembro. Quase uma ponte aérea.

 

 

 

Um dos manuscritos do Cotex Latinus Masnuscritus - Imagem capturada na Wikipédia
Um dos manuscritos do Cotex Latinus Masnuscritus – Imagem capturada na Wikipédia

*Carmina burana (do latim carmen, ìnis = canto, cantiga; e bura(m), em latim vulgar ‘pano grosseiro de lã’, geralmente escura, semelhante ao usado no hábito de frade ou freira na idade média). De acordo com a Wikipedia, é o nome dado a poemas e textos dramáticos, de cunho religioso ou profanos- eróticos, picantes, irreverentes e satíricos – nos séculos XI, XII e  XIII.

O idioma é o latim medieval, e estão reunidos no Codex Latinus Monacensis, manuscrito hoje guardado na Biblioteca Nacional de Munique. Encontrado no início do século XIX no convento de Benediktbeuern, na Alta Baviera, reúne 315 textos poéticos, em 112 pergaminhos, decorados com miniaturas.

Não resisti e busquei a letra no latim original, na nossa língua-pátria, e também encontrei em inglês. Hoje, mais do que nunca, estou picada pelo bichinho da curiosidade.

Carmina BuranaO Fortuna, Imperatrix Mundi

  • Em latim e e em português – versão da Wikipédia, um pouco diversa da usada nas legendas do vídeo postado acima:
    O Fortuna, Ó Sorte,
    Velut Luna És como a Lua
    Statu variabilis, Mutável,
    Semper crescis Sempre aumentas
    Aut decrescis; Ou diminuis;
    Vita detestabilis A detestável vida
    Nunc obdurat Ora oprime
    Et tunc curat E ora cura
    Ludo mentis aciem, Para brincar com a mente;
    Egestatem, Miséria,
    Potestatem Poder,
    Dissolvit ut glaciem. Ela os funde como gelo.
    Sors immanis Sorte imensa
    Et inanis, E vazia,
    Rota tu volubilis Tu, roda volúvel
    Status malus, És má,
    Vana salus Vã é a felicidade
    Semper dissolubilis, Sempre dissolúvel,
    Obumbrata Nebulosa
    Et velata E velada
    Michi quoque niteris; Também a mim contagias;
    Nunc per ludum Agora por brincadeira
    Dorsum nudum O dorso nu
    Fero tui sceleris. Entrego à tua perversidade.
    Sors salutis A sorte na saúde
    Et virtutis E virtude
    Michi nunc contraria Agora me é contrária.
    Est affectus
    Et defectus E tira
    Semper in angaria. Mantendo sempre escravizado
    Hac in hora Nesta hora
    Sine mora Sem demora
    Corde pulsum tangite; Tange a corda vibrante;
    Quod per sortem Porque a sorte
    Sternit fortem, Abate o forte,
    Mecum omnes plangite! Chorai todos comigo!

No Youtube, em um das diversas postagens da saudação da Cantata de Carl Orff, foi onde topei com uma versão para o inglês. Espero que aceitável para quem domina o idioma, e eventualmente flana pelo A Tal Mineira:

O Fortune,
like the moon
you are changeable,
ever waxing
and waning;
hateful life
first oppresses
and then soothes
as fancy takes it;
poverty
and power
it melts them like ice.

Fate — monstrous
and empty,
you whirling wheel,
you are malevolent,
well-being is vain
and always fades to nothing,
shadowed
and veiled
you plague me too;
now through the game
I bring my bare back
to your villainy.

…..

Fate is against me
in health
and virtue,
driven on
and weighted down,
always enslaved.
So at this hour
without delay
pluck the vibrating strings;
since Fate
strikes down the strong man,
everyone weep with me!


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