A comoção, o sonho e a realidade

por Sulamita Esteliam
No enterro de Campos, predominou o clima de campanha - Fotos: Fernando Frazão/AgBR
No enterro de Campos, predominou o clima de campanha – Foto: Fernando Frazão/AgBR

Reservamos o fim de semana para visitar um casal de amigos em Merepe, entre o Cupe e a Vila, propriamente dita, de Porto de Galinhas, litoral sul de Pernambuco. É uma das praias mais bonitas de Ipojuca, ideal para quem busca sossego.

Devíamos a visita. Além do que, não nos apetecia ficar em casa, pregados junto à TV e ao computador, para acompanhar a espetacularização da dor – em ritmo crescente de morbidez, até a náusea. O uso escancarado da tragédia imponderável em proveito de interesses políticos a desafiar o luto.

O pudor manda lembranças.

Claro, não dá para fugir do assunto. Todavia, distanciar-se da comoção, e do que parece ser o contrassenso comum, ajuda a clarear as ideias. Ou não.

Ademais, Euzinha, especialmente, estava me picando de curiosidade em saber a opinião/avaliação dos nossos amigos, pernambucanos do Recife, sobre o impacto da morte de Eduardo Campos.

Só tocaram no assunto quando provocados.

Primeiro, nossa anfitriã, que, por sinal, faz aniversário no dia 10 de agosto, data de nascimento de Eduardo.  Brinquei sobre a coincidência, distanciada por uma geração, e ela, com a tranquilidade que lhe é própria, disse “só agora soube”, e emendou :

– Pois é, menina, tão novo! Ele era meu candidato, mas, não para agora. Em 2018, teria o apoio certo de Lula, seria eleito sem grande esforço. Acho que se precipitou, a vez é da Dilma. Tinha eleição garantida para o Senado… Para ele, acabou-se.

Chegamos a casa de nossos amigos já quase no final da manhã do sábado, e o marido estava na caminhada que antecipa o mergulho cotidiano.

O caminho que leva ao mar de Merepe - Foto: J.Teixeira
O caminho que leva ao mar de Merepe – Foto: J.Teixeira

Em Merepe e no Cupe, entretanto, na maioria dos trechos, o banho é aconselhável apenas para iniciados nas artimanhas do mar local. Há fortes correntezas, e buracos, mais do que ondas apropriadas ao surf.  É preciso conhecer o sítio.

Na maré seca, residentes ou visitantes orientados costumam dar longo passeio até o Pontal do Cupe, onde é seguro entrar n’água. Cautela praticada por nadadores e, até, por quem, como esta escriba, só arrisca a posição vertical, e sob olhos guardiães.

Diz o dito popular: “na dúvida, não ultrapasse”.

Quando nosso amigo tornou à casa, meu companheiro retomou a conversa. O tom da resposta foi mais grave:

– É uma lástima, não só pelas vidas que se foram no desastre – a de Eduardo e de quem o acompanhava. Do ponto de vista político, para Pernambuco a perda é irreparável. Tão cedo teremos alguém com a capacidade de liderança dele. Nisso aproximava-se do avô…

Nosso amigo foi além:

– Perde o Nordeste, pelo que ele poderia vir  a tornar-se , e o Brasil também. Não que ele tivesse chance de ganhar agora; só aloprados poderiam ter essa expectativa – acho que ele o sabia… Precisava tornar-se conhecido noutros cantos do país. Mas é inegável que Eduardo era uma promessa de renovação política futura.

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A sensatez não cabe em clima de comoção das multidões, no entanto. O sentimento nativo é compreensível, que dirá o familiar.

Não obstante, Eduardo Campos ainda estava em busca da liderança nacional. Havia muito chão para percorrer. Isso é fato. E as pesquisas eleitorais o diziam claramente.

Lula acompanhou Dilma no velório de Eduardo Campos, e não conteve a emoção - Foto: Ricardo Stuckert Filho/Instituto Lula
Lula acompanhou Dilma no velório de Eduardo Campos, e não conteve a emoção – Foto: Ricardo Stuckert Filho/Instituto Lula

Ao romper a aliança com o PT de Lula e Dilma, cujo apoio foi decisivo na projeção do seu governo, Eduardo minou o próprio discurso de renovação que ele e Marina ostentaram. Restou-lhe o caminho da disputa de espaço com o expoente à direita, o Primeiro Neto tucano. Não logrou grande retorno.

Ocorre-me a reação de meu neto, de 11 anos, diante da notícia da tragédia, solidário com o choque sofrido por seus coleguinhas na escola, a ecoar a teoria da sabotagem. Expliquei-lhe a falta de sentido da especulação, e então, me perguntou: “Vovó, deveria ter presidente de Estado, a senhora não acha?”

Eis uma questão pertinente. De um lado, a dor e a perplexidade diante do imponderável a provocarem comoção, que leva à tentativa de beatificação do morto e a tendência a amplificar a dimensão de seu poder. Tudo para negar a morte ou produzir expectativas.

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No caminho de volta para o Recife, no final da manhã de domingo, cartazes da campanha regional – para governador, senador, deputado federal ou estadual ainda traziam o rosto sorridente de Eduardo. Tudo terá que ser refeito.

Já nas imediações do aeroporto, flâmulas gigantes reproduziam homenagem, a mostrar a mão experiente, e ágil, de marqueteiros da terra: “Grande como o Brasil. Forte como Pernambuco”.

Vi pela TV: estavam também em frente ao Cemitério de Santo Amaro, onde os restos mortais foram enterrados, ao lado do avô Miguel Arraes, quase lendário. Estão por toda parte, pude constatar nesta segunda.

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O cortejo – Foto: Fernando Frazão/AgBR

Os gritos de “Eduardo, guerreiro do povo brasileiro”, a parafrasear bordão da militância dedicado ao ex-presidente Lula da Silva, intercalando orações e hinos religiosos, punhos socando o ar. Cena repetida ao longo de 11 horas públicas dos funerais….

As exortações à “justiça” a amplificar os ruídos de uma conspiração sem fundamento. Os bisnetos a usar chapéu de palha, simbolo do bisavô, na condução do caixão à sepultura. O espetáculo pirotécnico de 15 minutos depois do caixão baixado à cova …

As camisetas a estampar a foto e a última frase de Campos: “Não vamos desistir do Brasil”. Emblemática, a remeter a memória – de quem tem – da campanha do primeiro governo Lula a atiçar a então minada autoestima dos filhos da terra: “Eu sou brasileiro e não desisto nunca”.

O jovem poeta Antônio Marinho, garoto-propaganda da campanha e do primeiro governo de Eduardo Campos, declama, e depois canta em homenagem, que encerra o velório.

No cemitério, enquanto pipocam os fogos de artifício, não falta o hino da campanha de Eduardo para governador, resgate de Ariano Suassuna, falecido mês passado, que o consagrou. Cantam o frevo-canção: “Madeira do Rosarinho (…)/nós somos madeira de lei que cupim não rói”. E só então os coveiros são autorizados a finalizar sua tarefa.

Tudo a lembrar um comício dos velhos tempos, suspensos pela Justiça Eleitoral desde 2006. E com o requinte da transmissão ao vivo pelo helicóptero da plim-plim Nordeste, que manteve a cobertura até o caixão baixar ao jazigo. A Band-News, botou o cinegrafista local para sambar no chão, e transmitiu do estúdio em São Paulo – até a última pá de terra.

Confira os relatos que Carta CapitalVi o Mundo fazem da despedida.

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Hoje (ontem) rodei pelo Recife, de ônibus, por motivos pessoais. Outdoors em pontos estratégicos da capital, com imagem de avô e neto sobre fundo negro, exortam: “Os sonhos não morrem jamais”.

É aonde quero chegar. Sonhar não custa nada.

Vem-me à lembrança uma das primeiras imagens que vi, quando liguei a TV em casa, na tarde de domingo: repórter conhecido da Band não sossegou enquanto não arrancou do presidente do PSB, um constrangido Roberto Amaral,  um louvor à “liderança política” de Renata Accioly. Impertinência profissional que pode resultar em fato.

Renata é cotada pela mídia para ser vice da ex-vice, ungida pela família, e pela mídia, para suceder Campos. Marina Silva esteve todo o tempo lá, bem à vontade. Ao lado da família e às vistas das câmeras.

Rodeada pelos filhos, Renata ouve, e gosta, as referências a seu respeito pelo presidente do PSB durante reunião da cúpula do partido no Recife, nesta segunda - Foto: Fernando Frazão/AgBR
Rodeada pelos filhos, Renata ouve, e gosta, as referências a seu respeito pelo presidente do PSB durante reunião da cúpula do partido no Recife, nesta segunda – Foto: Fernando Frazão/AgBR

Há quem duvide que a viúva de Eduardo deixe suas preocupações de mãe de cinco filhos, o caçula ainda bebê, pela política. Mas hoje ela cumpriu ato de campanha agendado antes, e se reuniu com o PSB para defender o legado do marido, e discursou: “Temos que garantir a vitória”.

Estimulada, talvez, pela leitura dos números que o DataFolha traz da pesquisa feita sobre os escombros da tragédia. Certo é, deixa entrever possibilidades.

Tem-se, em qualquer circunstância, que os funerais e sua repercussão anteciparam a estreia oficial do horário político-eleitoral, marcado para esta terça-feira. Imagens e sons impactantes, certamente, não faltam para o programa inaugural da coligação liderada pelo PSB alinhavar e repetir.

Na quarta-feira, oito dias após o acidente aéreo que selou o fim trágico de Eduardo Campos e outras seis pessoas – quatro assessores e a tripulação – há novo retrospecto: uma missa antecede a reunião de redefinição da chapa do PSB.

A pauta não pára enquanto houver munição, real ou fictícia.

Resta saber quanto tempo levarão para deixar o falecido descansar em paz. E que efeito o uso da tragédia e a, quase certa, oficialização de Marina candidata, terá sobre o resultado da eleição – para além das terras pernambucanas.

 

 

 


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