O ‘shownarlismo’ ajuda a matar um pouco mais…

por Sulamita Esteliam
Eduardo Campos com a mulher, Renata, a mãe Ana Arraes e os cinco filhos, em foto recente - Fotos: PSB/Agência Pública
Eduardo Campos com a mulher, Renata, a mãe Ana Arraes e os cinco filhos, em foto recente – Fotos: PSB/Agência Pública

Em momentos de perda é que a gente percebe o quanto somos capazes de nos compadecer de outrem, de nos colocarmos no lugar das famílias, dos amigos, das pessoas das relações de trabalho. É um excelente teste, sobretudo quando a tragédia envolve personalidades da política, de qualquer matiz ideológico.

O acidente de avião que levou Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco e candidato do PSB à Presidência, deixou o Brasil em choque. Ainda mais porque acompanhada da sensação de prematuridade; ele acabara de completar 49 anos, dia 10 de agosto. E havia quem o considerasse uma das promessas da política brasileira – senão atual, futura.

Perplexidade é a palavra.

Todavia, o estado de choque não foi capaz de calar a pobreza de espírito. A falta de oportunidade ou o oportunismo e a vilania, até, grassam. Nas redes sociais e na imprensa convencional.  Ninguém se preocupa com a dor que acompanha a tragédia. Se não há compaixão, o que dizer da elegância?

O que campeou pela rede, além de mau gosto, alongaria por demais esta postagem.

Fico apenas com três: um pastor evangélico, desses que dizem poder salvar a humanidade da torpeza, lamentou, no Twitter, que “num dia 13, número do PT, um acidente tenha levado Eduardo, e não Dilma”; uma candidata a deputada estadual em SP, do PSDB, postou um meme com Dilma com cara de pitbull e dedo em riste, avisando “se cuida Aécio, o próximo é você”, e outro tweet falso como se fosse @Dilma Bolada. Quando instada a se explicar, mandou os eleitores para aquele lugar…

 

Vilania pastor Daniel Vieirs

vilania dep DaSchwery

É de embrulhar o estômago.

Ademais, cobro dos coleguinhas jornalistas, em quaisquer veículos, mas principalmente na TV, que alcança milhões. Sim, hoje foi daqueles dias de não desgrudar da telinha, sem deixar de usar o controle remoto, e alternar com a rede.

Bem sei, e por experiência própria, que é sufoco o tal do “ao vivo”. Mas não se pode divulgar como fato o que não está confirmado.

campos3Muito menos garfar um entrevistado ao redor, e simular desconcerto com o desenrolar da fala dele. Aconteceu na Globo, em pleno Jornal Hoje. O rapaz dizia, e repetiu, chorosamente: “peguei no pedaço do corpo do meu querido candidato a presidente, ia votar nele…” O repórter, aparentemente, tenta mudar de assunto.

Pelo amor: como o cara sabia que o pedaço de corpo pertencia a quem? O avião explodiu, e agora mais tarde, à hora em que escrevo, se confirma, os corpos terão que ser identificados por DNA. Quem informa é o Corpo de Bombeiros. “Não há corpos para serem resgatados”.

Por favor, minha gente, recupere o senso do decoro.

Na Globo News, logo cedo, chegaram a anunciar a suspeita de morte da esposa, e mãe dos cinco filhos, de Eduardo Campos, Renata Accioly. Ela e o bebê Miguel acompanharam o candidato na entrevista que concedera, na noite de ontem, ao Jornal Nacional e à própria Globo News, mas retornaram ao Recife na sequência, em voo comercial.

Na Record, apresentadores e repórter agiam como baratas tontas, divulgando suposições e números de vítimas que não correspondem à verdade. Fico a imaginar se não existe produção nem chefia de reportagem na rede do bispo.

Na Band News, o histrionismo as especulações de sempre, em dobradinha dos de sempre. Haja!

Muito triste ver repórteres tarimbadas/os, de todos os canais, entrarem ao vivo para especular e/ou afirmar absurdos, no mero exercício de futurologia política chacoalhado com torcida e pregação. Ainda que recomendado por chefias, quem está na rua é que tem a pauta e o microfone nas mãos, e a responsabilidade sobre o que informar.

Na rua ou no estúdio, sequer têm a decência de esperar o cadáver esfriar.

Tão triste quanto, é o exercício invasivo do “esforço de reportagem”. Nessas ocasiões, a “cozinha” sugere, e quem bota a cara são os repórteres, mal ou bem comparando, transformados em urubus sobre a carniça.

Colocar o irmão do morto para entrevista ao vivo, na porta da casa da família enlutada, é demais. Câmeras ligadas, tome-lhe longa introdução sobre quem estava lá dentro: “inconsoláveis, a viúva e os filhos e…” . Tenha dó, Globo Nordeste.

Saí das ruas faz anos. Mas vejo que o esquema de cobertura não muda, seja qual for a tragédia. Se isso é Jornalismo, não sei o que fiz durante meus 35 anos de exercício da profissão, 18 dos quais na mídia convencional.

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10616023_903579042988844_928990893747219724_nEduardo Campos é estrela, no mesmo dia em que seu avô, Miguel Arraes, morreu há nove anos. A diferença é que Arraes, que iniciou o neto na política, tinha 88 anos. Há quem acredite em coincidências. O Universo tem seus próprios caminhos.

O ex-governador de Pernambuco e candidato à Presidência da Republica pelo PSB estava com mais seis pessoas no Cessna 560 XL Citacion, que caiu no Bairro do Boqueirão, em Santos – SP. Depois de ser obrigado a arremeter quando tentava pousar na Base Aérea do Guarujá. O mau tempo motivou o procedimento.

Repito, o avião explodiu, confirmou a Aeronáutica,.Não há sobreviventes, nem corpos identificáveis sem o auxílio da ciência.  Só depois as tratativas para o sepultamento. O de Eduardo Campos será velado, quando for possível, no Palácio Campos das Princesas, no Recife, e sepultado no Cemitério de Santo Amaro, no mausoléu da família onde estão os corpos do avô e de um tio.

O acidente aconteceu em torno das dez da manhã. A Aeronáutica vai investigar as causas, além do mau tempo. Moradores relatam que havia fogo na aeronave antes que ela desabasse sobre as casas do movimentado bairro de Santos.

A equipe de Campos: Carlos Percol, Marcelo Lyra (Carlos Burle, surfista, não estava n vôo) e Alexandre Severo - Foto do Instagran de Percol
A equipe de Campos: Carlos Percol, Marcelo Lyra (Carlos Burle, surfista, não estava n vôo) e Alexandre Severo – Foto do Instagran de Percol

Além de Eduardo Campos, morreram três colegas pernambucanos: o assessor de Imprensa, Carlos Augusto Leal Filho, Percol; o fotógrafo Alexandre Severo Gomes da Silva (que conheci mais de perto, enquanto trabalhou no Recife) e o cinegrafista Marcelo de Oliveira Lyra. Morreram, também, o assessor político Pedro Valadares, ex-deputado, e os pilotos Geraldo Cunha e Carlos Martins – aqui.

Marina Silva, candidata a vice na chapa de Eduardo, não estava no voo. A exemplo de Renata, tomou um avião comercial para Guarulhos, – onde gravaria programa para o horário político – junto com Geraldo Alckimin (PSDB), governador de São Paulo e candidato à reeleição.

As notícias iniciais eram de que outras sete pessoas, moradoras da região, estariam internadas com ferimentos leves, em consequência da queda e explosão da aeronave. À tarde, o Corpo de Bombeiros confirmou cinco pessoas, em entrevista à Record News.

Força e conforto para as famílias e amigos – de Eduardo Campos e dos demais que se foram. Uma coisa é a política, outra coisa é a humanidade.

Imagem da campanha de 2010, em Caruaru-PE: Roberto Stuckert Filho
Imagem da campanha de 2010, em Caruaru-PE: Roberto Stuckert Filho

O Brasil está em luto oficial de três dias, decretado pela presidenta Dilma Roussef:

“Estivemos juntos, pela última vez, no enterro do nosso querido Ariano Suassuna. Conversamos como amigos. Sempre tivemos claro que nossas eventuais divergências políticas sempre seriam menores que o respeito mútuo característico de nossa convivência”, diz a nota de pesar – clique para ler a íntegra.

O governo de Pernambuco decretou sete dias de luto oficial.

Todas as atividades de campanha estão suspensas, também pelos demais candidatos à sucessão presidencial e outros.

No velório do avô Miguel Arraes, com o colega ministro de Lula, Waldir Pires - Foto: Ricardo Stuckert - PR
No velório do avô Miguel Arraes, com o colega ministro de Lula, Waldir Pires – Foto: Ricardo Stuckert – PR

Partidos, PT inclusive, e organizações dos movimentos sociais e sindical, igualmente, divulgaram nota de pesar. Da mesma forma, os poderes Legislativo e Judiciário.

O ex-presidente Lula, que nunca escondeu a admiração por Eduardo Campos, e manteve a amizade a despeito do afastamento político, também: “O carinho, o respeito e a admiração mútua sempre estiveram presentes em nossa convivência”, diz a nota.

A morte de Eduardo repercutiu internacionalmente.

Que descanse em paz.

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Contraponto à degradação humana, deixo imagens de arte e sensibilidade:

1) A charge-despedida de Latuff, especial para o Brasil 247:

 

Capturada no Twitter
Capturada no Latuff Cartoons.com

 

2) Ensaio fotográfico de Alexandre Severo, vítima fatal no acidente, com crianças albinas de uma mesma família de Olinda. Dica da colega jornalista e blogueira Cynara Menezes Twitter:

À Flor da Pele – Alexandre Severo

 

 


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